Nota da JCA - Florianópolis a respeito do processo de lutas estudantis na UFSC desse início de semestre (2011.2) | Juventude Comunista Avançando

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Nota da JCA - Florianópolis a respeito do processo de lutas estudantis na UFSC desse início de semestre (2011.2)



"Se não pode se vestir com nosso sonho,
não fale em nosso nome"
Mauro Iasi

As lutas estudantis que se avolumaram no início do segundo semestre na UFSC despertaram a esperança de muitos daqueles que anseiam e necessitam de transformações profundas em nossa universidade. O fator principal de mobilização foi a própria necessidade de reivindicar o direito de permanecer estudando. Iniciamos o semestre com greve dos Servidores Técnico-Administrativos, não somente aqui, mas também nas universidades de todo o Brasil. Na UFSC o reflexo do corte de verbas do Governo Federal para a educação pública e o início do período de ajustes do Plano de Expansão e Reestruturação das Universidades - REUNI já estava encaminhando medidas bastante retrógradas, como o corte de vagas no vestibular, discussão que repercutiu por toda a universidade (inclusive porque havia conivência por parte da reitoria), embora a fagulha tenha sido lançada no curso de Economia.


O DCE gestão Rosa dos Ventos (mesmo grupo que está na diretoria da entidade há três anos - Boas Novas 2009, Canto Geral 2010 e Rosa dos Ventos 2011) surpreendeu ao se dedicar intensamente a um processo de mobilização direcionado a enfrentar questões concretas da política de precarização do ensino superior público brasileiro e sua expressão local. Embora tenha mantido sua tão proclamada "Nova Práxis", fazendo uma mobilização interessada na obtenção de algumas conquistas imediatas e restritas a poucas pautas (contra o corte de vagas no curso de economia e manifestação pública do Reitor sobre a greve dos Trabalhadores da UFSC), o DCE conseguiu envolver um grande número de estudantes no processo - com um trabalho de passagem em salas bastante expressivo - e abriu a possibilidade de se avançar no debate político do Movimento Estudantil (ME). No entanto, logo se viu que se tratava mesmo da velha "Nova Práxis": não havia interesse em ir além, bastavam algumas conquistas que, lamentavelmente, pareciam mais referenciadas nas possibilidades da reitoria em ceder do que nas necessidades reais dos estudantes. Evidenciou-se novamente um interesse em propagandear vitórias nas eleições de DCE que se aproximam. Segundo a própria diretoria atual do DCE, é importante que os estudantes percebam que o ME (ou o DCE) serve para alguma coisa.

Parece que o DCE não percebeu é que o ME sempre serviu para alguma coisa, e que esta coisa sempre foi muito maior do que interesses particularistas. Na Assembléia Geral do dia 25 de agosto o Reitor anunciou um reajuste da bolsa permanência de R$364,00 para R$420,00, o que não sabíamos era que esse aumento viria com o fim do edital que oferecia 150 novas bolsas permanência para o segundo semestre. Há evidências bastante significativas, entretanto, de que o DCE sabia sim do corte e, em conversa com o Reitor antes da assembléia havia inclusive optado pelo reajuste para R$420,00 com corte de bolsas ao invés de um reajuste para R$400,00 sem cortes. Esta evidência apareceu só depois da assembléia, nas mesas de negociação da ocupação com a administração central. Cabe esclarecer: na mesma assembléia a maioria dos estudantes optou por radicalizar a luta e ocupar a reitoria como único instrumento político - naquela conjuntura - capaz de pressionar e obter maiores conquistas. O DCE foi vencido em votação (defendia a manutenção da vigília) e respeitou a decisão da maioria da estudantada. No entanto restringiu sua prática a participações pontuais durante as reuniões de organização da ocupação com uma postura de deslegitimar a ocupação apontando a decisão como um erro e invertendo a realidade, dizendo que estávamos nos isolando dos estudantes e que deveríamos desocupar a reitoria. Além disso, entravaram a comissão interna de comunicação dificultando deveras a divulgação da ocupação.

Os estudantes resistiram ocupando até o limite colocado pela pauta de reivindicações que, embora tenha avançado um pouco - e com muita dificuldade - com relação à pauta proposta pelo DCE (a mesma que já citamos, relacionada ao corte de vagas e greve dos servidores), ainda ficou muito aquém do que exigia o momento de intensa precarização da universidade e dificuldade de permanência dos estudantes. O resultado da ocupação foi um conjunto de conquistas importantes, porém limitadas. Defendemos a desocupação naquele momento - noite de domingo - porque havia a ameaça de sairmos sem vitória nenhuma. Além disso, aquele quadro de pautas limitadas poderia e deveria (e ainda pode e deve) ser revertido com a continuidade da luta, algo que está visivelmente fora dos planos desse DCE, para alegria do Reitor.

Durante o decorrer da ocupação, mais evidências do conchavo DCE Rosa dos Ventos e Reitoria apareceram. Na manhã do sábado o DCE surgiu com a informação de que o cálculo que havíamos feito para exigir um reajustes da bolsa para R$470,00 estava errado e que a conta certa daria algo em torno de R$440,00. Na mesa de negociações (representantes da ocupação e da reitoria) que se reuniu no mesmo dia à tarde, essa mesma informação chegou para o ME, mas desta vez através da reitoria(!). Será que a diretoria do DCE, ou pelo menos alguns de seus mandachuvas não teriam se reunido com o Reitor na noite anterior sem o consentimento e a ciência do movimento?

Já fomos enganados muitas vezes por esta política de conchavo. As promessas do REUNI visivelmente não podem mais ser cumpridas, e cabe ao movimento exigir que essa Universidade garanta acesso e permanência estudantil, melhores condições de trabalho aos seus professores e técnicos, e que ela possa incorporar as demandas populares de nosso povo em suas funções e não mais ficar refém de apropriações particularistas. 

O atual DCE plantou despolitização e deixou de acumular forças ao priorizar a política do conchavo, pão e circo e festividades em detrimento da luta real nos últimos três anos. O momento de ir para ofensiva aparece quase sempre de maneira surpreendente. No entanto, a direção do movimento não pode estar despreparada ou atrelada. É necessário que aprendamos esta lição. A necessária reorganização do ME exige clareza estratégica, autonomia e combatividade.

A JCA vem defendendo a necessidade de retomar o debate dentro do ME da Universidade Popular em contraposição à crescente mercantilização do ensino superior em todas as suas facetas. Estivemos dedicados à construção do 1o. Seminário Nacional de Universidade Popular que rendeu e ainda renderá ótimos frutos neste sentido, não para este ou aquele partido, esta ou aquela organização, mas acima de tudo para o ME brasileiro como um todo que carece há tempos de uma bandeira ofensiva, de uma proposta clara para o futuro da educação e da sociedade. Aqueles que não estão interessados na transformação efetiva da universidade, que colocam seus interesses acima dos interesses da maioria que a própria realidade impõe, não podem se vestir com nossos sonhos, não devem falar em nosso nome.