Síria: mais um passo na escalada | Juventude Comunista Avançando

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Síria: mais um passo na escalada

por Ardeshir Ommani [*]

A oposição armada síria não é independente dos Estados Unidos e de regimes reaccionários árabes no seu objectivo de tomar o poder, não através das urnas mas impondo uma guerra civil. O grau da sua dependência e servilismo manifesta-se quando a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, apelou sem rodeios aos "amigos da Síria democrática" para unirem-se e marcharem contra o presidente Bashar Assad. Esta proclamação foi anunciada solenemente um dia depois de a autorização para intervenção militar na Síria promovida pelos EUA ter sido rejeitada pela China e Rússia, as quais foram forçadas a vetar os planos estado-unidenses para a invasão da Síria. 

Continuando suas intenções, Clinton reiterou que a "comunidade internacional", tal como a "coligação da vontade" de George W. Bush, tinha o dever de promover uma transição política que contemplasse o afastamento do presidente Bashar al-Assad. 

Clinton deu a sua directiva para o mundo todo ao visitar a Bulgária, um dos 10 países mais pobres da Europa, com um Produto Interno Bruto (PIB) inferior a US$53 mil milhões em 2010, rendimento per capita de US$13.449 e uma dívida bruta do governo de 19,7% do PIB do país. O objectivo de mencionar as fracas condições económicas da Bulgária não é denegrir o país ou o seu povo, mas sim mostrar que o imperialismo estado-unidense com os seus planos de dominação, destruição e pilhagem utiliza mesmo as nações mais atingidas pela pobreza para virá-las contra outros países em luta tais como a Síria, o Irão e não muito tempo atrás a Líbia a fim de cumprir seus propósitos criminosos. Seguindo as pegadas de Cheney, Rumsfeld e Companhia pouco antes da invasão do Iraque, Clinton atacou a Rússia e a China como para declarar: "confrontados com um Conselho de Segurança neutralizado temos de redobrar nossos esforços fora das Nações Unidas com nossos aliados e parceiros..." 

Penso que já vimos este filme antes. A primeira personagem que aparece na cena é um porta-voz da Liga Árabe (LA). Não faz diferença se ele é eleito ou nomeado pelo rei e primeiro-ministro da Arábia Saudita e, ainda mais importante, se ele recebeu as bênçãos de Hillary Clinton ou do general David H. Petraeus, o director da CIA. A seguir à sua designação, o emissário da Liga Árabe, que foi levado solenemente à Assembleia-Geral da ONU por Susan Rice, a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, defendeu o estabelecimento de uma "zona de interdição de voo" ("no fly zone") para salvar as vidas dos sírios inocentes, pelo amor de Deus! 
Se não houvesse protesto à resolução bem preparada pelo governo estado-unidense, então Washington teria permissão para trabalhar e com a ajuda da coligação das vontades, autorização na mãos, começava o bombardeamento da logística síria, toda espécie de depósitos de armas, redes eléctricas, fábricas, reservatórios de água, sistemas de esgotos de cidades, escolas e hospitais. Será que este cenário tem precedentes? Sim, cerca de seis meses depois de extrair a licença para impor uma "zona de interdição de voo" sobre a Líbia, as potências ocidentais com bombardeamentos maciços arrasaram aquele país, libertaram o petróleo light sweet do país e conseguiram instalar um dos altos executivos da ENI SpA (a principal empresa de petróleo da Itália) como ministro do Petróleo e em dois meses as companhias ocidentais estavam a sugar 1,3 milhão de barris por dia. 

Desta vez a tarefa de preparar a minuta da resolução foi atribuída ao representante marroquino nas Nações Unidas que actuou rapidamente. O plano exigia ao governo sírio a retirada de todas as suas forças armadas das áreas habitadas com retorno aos seus quartéis. Contudo, ignorou a exigência da Rússia de que a oposição síria se afastasse de grupos extremistas que cometiam violências e crimes contra civis. A segunda exigência russa que foi totalmente ignorada era que "grupos armados devem cessar ataques contra instituições do estado e públicas enquanto as forças armadas sírias estão a deixar as cidades". A recusa a incluir estas disposições na minuta da resolução significava apenas uma coisa: dissolução do estado sírio e uma "mudança de regime" total. 

Ao invés de pedirem desculpas, os co-autores da minuta começaram a atacar a integridade do governo russo. Exemplo: o representante do Marrocos acusou o governo russo de ignorar as "posições comuns árabes". O delegado da França chegou ao ponto de chamar a Rússia e a China de cúmplices em crimes cometidos pelo regime sírio. Para a Rússia e a China, que haviam visto as terríveis consequências na Líbia, só havia uma alternativa e esta era vetar a resolução. 

Desta vez, no caso da Síria, a China e a Rússia aprenderam sua amarga lição e resistiram a serem enganados uma segunda vez. Mas os EUA e seus aliados haviam arrumado o baralho de modo favorável a aprovar a resolução e fazer para a Síria o que fizeram para a Líbia. Mais significativo ainda é que os EUA não aceitaram qualquer alteração à minuta de resolução, o que forçou a China e a Rússia a vetá-la e derrotá-la. 

Já em Novembro de 2011, a NATO, em colaboração com os xeques árabes pró-imperialistas e reaccionários do Bahrain, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos (EAU) e ainda a Turquia planeavam invadir a Síria, estabelecer um regime colonial e derrubar o governo secular social-democrata. Segundo um artigo no Al Bawaba, um sítio web em árabe/inglês, altas fontes europeias revelaram que caças a jacto árabes e possivelmente aviões de guerra turcos, apoiados pela logística americana, imporiam uma zona de interdição de voo nos céus da Síria depois de a Liga Árabe emitir uma decisão apelando à intervenção armada. As fontes disseram ao diário al Raid, do Kuwait, que camiões, tanques e veículos militares sírios não seriam excluídos como alvos por parte dos jactos invasores. 

Os destinos da Líbia e da Síria não poderiam ser mais semelhantes. Dentro de uma profunda crise económica, os EUA e a Europa procuram regenerar o capitalismo através da guerra generalizada com países em desenvolvimento até ficarem prontos para a guerra com a Rússia e a China.


[*] Presidente do American Iranian Friendship Committee (AIFC), escritor e analista político. A AIFC foi criada em 2004 para promover a paz e o diálogo entre os EUA e o Irão, bem como impedir qualquer guerra instigada pela NATO contra o povo iraniano.


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