Carta do Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP | Juventude Comunista Avançando

sábado, 10 de março de 2012

Carta do Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP


Carta do Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP


Timoleón Jiménez

É lamentável que diariamente se esteja a derramar sangue de colombianos humildes num longo confronto. Não deveriam morrer militares nem polícias. Também não tinham que morrer os guerrilheiros. Talvez fosse melhor que não existissem nem uns nem outros. Que não tivéssemos de falar de prisioneiros de ambos os lados. Que houvesse uma democracia autêntica na Colômbia. Que não fossem assassinados sindicalistas nem opositores políticos. Que não fossem deslocados milhões de camponeses.



Senhora:


Marleny Orjuela

ASFAMIPAZ, [1] Bogotá.



Estimada senhora:

Independentemente de a considerar especialmente pela sua condição de mulher colombiana que trabalha pela paz, dirijo-me à senhora na sua condição de líder do movimento de familiares de militares e polícias prisioneiros de guerra, pela liberdade dos quais travou durante anos uma incansável batalha. Sabemos que a senhora encarna a dor e a esperança de muitas famílias, a quem nos dirigimos por seu intermédio, e a todas procuramos satisfazer com as libertações prometidas.

O azedume característico dos comentaristas da grande imprensa, muito bem pagos para injuriar a nossa luta, repudia ferozmente, num acordo total com o governo, cada uma das nossas atitudes de reconciliação. As classes privilegiadas da Colômbia não só fizeram uma profissão de fé na guerra, como aspiram a que esse credo seja o único que alimenta a consciência de 46 milhões de compatriotas. Em contrapartida, nós sempre pensámos de modo diferente.

É lamentável que diariamente se esteja a derramar sangue de colombianos humildes num longo confronto. Não deveriam morrer militares nem polícias. Também não tinham que morrer os guerrilheiros. Talvez fosse melhor que não existissem nem uns nem outros. Que não tivéssemos de falar de prisioneiros de ambos os lados. Que houvesse uma democracia autêntica na Colômbia. Que não fossem assassinados sindicalistas nem opositores políticos. Que não fossem deslocados milhões de camponeses.

Se, como uma vez sentenciou Balzac, é verdade que detrás de qualquer grande fortuna há um crime, compreende-se por que no nosso país existe uma desigualdade social tão escandalosa. Foram tantos os mortos como gigantesca é a riqueza da elite financeira, industrial e latifundiária. Militares e polícias são doutrinados e treinados para defender os interesses dessa selecta minoria. Essa mesma minoria que se mostra insensível e soberba quando os vê na desgraça.

É por isso que permaneceram tantos anos em nosso poder. Ainda que não tantos como as guerrilheiras e guerrilheiros condenados a penas de 50 e 60 anos nas tenebrosas masmorras do Estado colombiano ou dos Estados Unidos. A realidade é dura, é um facto, mas tem duas faces. Os soldados e polícias que serão libertados tiveram melhor sorte que os milhares e milhares de desaparecidos, que os milhares de vítimas como falsos positivos [2]. Tiveram melhor sorte que os decapitados a moto-serra, que os colombianos a quem se abriu o ventre antes de serem arrojados aos rios, ou os que foram lançados nos viveiros de crocodilos. Tudo isto com a cumplicidade aberta das forças militares e da polícia colombianas. Com o patrocínio da classe política e o beneplácito dos sectores abastados. As marchas de aplauso organizadas pelo Presidente Juan Santos nas áreas controladas pelo para-militarismo não ressuscitam os dirigentes dos reclamantes de terras que estão a ser assassinados com absoluta impunidade.

É assombrosa a manobra mediática com que se perverte a realidade do nosso país. Toda a parafernália informativa foi posta ao serviço da máquina assassina do regime, fazendo parte integrante dos seus planos de guerra. Com ela pretende apoderar-se da consciência da cidadania, da partícula mais elementar da sua análise. A vós, cuja dor jamais foi sentida pelas altas instâncias do poder, é óbvio que tentaram usá-los para incrementar ainda mais o ódio e a guerra.

Para que outros militares e polícias continuem a morrer, continuem a ser feridos ou continuem a ficar prisioneiros. Nós acreditamos que vale a pena tentar romper este círculo maldito e apostar cada vez mais na reconciliação e na paz. Um ministro da Defesa que presume ter sido criado nos quartéis por ser filho de um oficial, talvez tenha ido a umas saunas do Clube Militar tirar as guayabas, [3] mas não faz a menor ideia do que é um combate.

Esse, sofrem-no os filhos, os irmãos, os pais dos humildes polícias e soldados que, por um soldo miserável, todos os dias arriscam a vida. Quando publicamente assumimos o compromisso de não fazer retenções com fins financeiros, culminámos um processo interno promovido pelo camarada Alfonso Cano, e por ele encaminhado para pôr fim definitivamente a essa prática. Os mesmos predicadores da guerra saem agora a desqualificar-nos com rebuscados pretextos.

Recentemente brotam frequentes notícias sobre o emprego pela nossa parte de toda a classe de atentados contra a população civil. Um transeunte em Cauca supostamente activou uma mina quando caiu da sua bicicleta precisamente em cima do engenho. Um estranho camponês apareceu com os lábios cosidos com arame porque recusou activar uma bomba por nós preparada. Uma suposta mina por nós colocada atingiu em El Tarra as crianças de uma escola.

Semelhantes barbaridades são criação da inteligência militar. Nenhuma delas resistiria a mais elementar investigação probatória. Mas os media repetem-nas centenas de vezes em obediência á sua referida tarefa. Observamos que agora se tenta converter a Senhora em responsável da luta pela libertação de não sei quantas centenas de sequestrados. Todos esses números são igualmente falsos. As percentagens que o País Libre atribui às FARC obedecem talvez a elaborações preconcebidas.

Até a expressão usada no nosso comunicado a convidar a Senhora a fazer parte da comissão que receberá os prisioneiros na data acordada, isto é, na que se vier a acordar depois dos necessários protocolos, foi maliciosamente manipulada por alguns, para insinuar que já existe um acordo prévio sobre o assunto entre nós e a Senhora. Assim são estes miseráveis. Os piores inimigos da paz procuram agora a maneira de se aproveitaram dos senhores.

E converter em crime qualquer tentativa para encontrar uma saída diferente da rendição e entrega que pressiona Juan Santos. Não há que deixá-los cumprir os seus planos.

Fraternalmente

Timoleón Jiménez
(Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP
Montanhas da Colômbia, 3 de Março de 2012.

Notas do Tradutor:


[1] Associação Colombiana de familiares de Membros da Força Pública Presos e Libertados pelos Grupos Guerrilheiros



[2] Falsos positivos foi o nome dado aos largos milhares de colombianos assassinados por militares (muitos oficiais superiores) e paramilitares para receberem o prémio chorudo que o governo dava por cada guerrilheiro morto, comprovado com a apresentação do corpo. Foram milhares e milhares de jovens e menos jovens das camadas mais pobres da Colômbia que foram assassinados. Embora, de forma muito esporádica, os media ocidentais refiram o termo nunca explicam o que são os falsos positivos: cadáveres de falsos guerrilheiros, assassinados para que os assassinos recebam o chorudo prémio pecuniário atribuído pelo governo colombiano. Também os governos dos EUA e da UE nunca falaram do comprovadíssimo caso dos falsos positivos quando abordam o tema dos Direitos Humanos.


[3] Refere-se ironicamente às camisas tropicais de 4 bolsos de chapa que existem, embora com ligeiras diferenças, por toda a América Latina tropical.


Este texto foi publicado em www.farc-ep.co/?p=1120
Tradução de José Paulo Gascão