Milhares em Madrid contra as agressões à classe trabalhadora | Juventude Comunista Avançando

segunda-feira, 12 de março de 2012

Milhares em Madrid contra as agressões à classe trabalhadora

A grande manifestação convocada ontem em Madrid contra a última reforma laboral foi acompanhada por vários milhares de pessoas.

A enorme afluência deixou ver uma oposição maciça entre a sociedade contra os ataques às condições laborais que o governo do Partido Popular (ultradireita nacionalista espanhola). Porém, deram-se também signos de desconfiança e esgotamento na estratégia colaboracionista dos dois maiores sindicatos, ‘Comisiones Obreras’ (CCOO) e a ‘Unión General de Trabajadores’ (UGT).

O repórter do Diário Liberdade em Madrid informou de várias dúzias de milhares nas ruas da cidade, enquanto os números de assistência de polícia e sindicatos variam escandalosamente entre 30,000 e meio milhão de pessoas.

A oposição à nova agressão carimbada pelo executivo espanhol demonstrou não responder a qualquer mandado democrático, contando com um rejeitamento massivo: jovens, mulheres, desempregados, precárias, idosos... a heterogeneidade na multidão de ontem refletia que as reformas laborais de Rajoi e previamente de Zapatero não afetam apenas um grupo populacional, mas sim toda a classe trabalhadora.

O protesto partiu da Praça de Netuno pelas 12.00 horas, e no seu percurso até à Porta de Alacalá passou por vários prédios institucionais e financeiros, como a Cámara Municipal ou a Bolsa de Madrid. A polícia manteve os perímetros arrodeados por um forte dispositivo de fardados obedientes, que mantiveram os prédios inacessíveis para a população apesar do absoluto pacifismo da jornada.

A maioria das palavras de ordem foram contra a reforma laboral e o governo de Mariano Rajoi. Deixou-se sentir ainda uma prática onipresença de faixas criticas com a monarquia que, herdeira da ditadura franquista, ainda ostenta a Chefatura do Estado no Reino da Espanha –nome oficial daquele.

Após o ato central, membros do bloco critico, entre os quais muitos e muitas participantes do 15M, encaminharam-se para a Puerta del Sol com a intenção de ocupá-la. Inicialmente, os corpos policiais impediram o acesso ao local, mas perante a contínua chegada de pessoas tiveram que acabar por ceder. A praça não foi, porém, tomada de maneira permanente, mas sim durante uma ou duas horas, após as quais não houve continuidade na manifestação.

‘Obra Social’ de CCOO e UGT, que em adiante se dedicarão à consultoria

À imagem das grandes corporações bancárias, a convocatória de ontem de UGT e CCOO não passa de ser um ato de ‘obra social’. Estes dois ‘sindicatos’ avalizaram o ‘pacto social’ e os ataques de Zapatero (PSOE) em 2011.

Nesta intervenção estética também convocaram uma greve geral para 29 deste mês. Já tinham sido convocadas, várias semanas antes, na Galiza e no País Basco pelos sindicatos nacionalistas CIG e LAB.

Os líderes de UGT e CCOO, Méndez e Toxo, não perderam a oportunidade de demonstrar qual a sua intenção real. O primeiro deles, criticou que a Greve Geral seja vista como um confronto entre sindicatos e governo, indicando a irmandade existente: os sindicatos são, no mundo de Méndez, “o dedo democrático e constitucional que assinala os gravíssimos problemas da reforma laboral”.

Já temos a definitiva confissão, portanto, de que os sindicatos UGT e CCOO não servem a classe trabalhadora, mas sim são meras consultoras do governo espanhol. Mas não contentes com isso, chamaram ao reestabelecimento da ‘paz social’ e ao “diálogo” com o empresariado, entre outras pérolas discursivas.

Bloco crítico

Caso o ‘meio milhão’ imaginado por CCOO e UGT tivesse existido, haveria que registar, ainda, um bloco crítico muito numeroso, no que, entre outras entidades, estavam Izquierda Anticapitalista, a CNT, a ou a CGT. Protestaram contra a reforma laboral, mas também contra as entidades que convocavam a saída às ruas.

Longe de agitar bandeirinhas com o ‘logo’ das organizações capitaneadas por Toxo e Méndez –que estas se encarregaram de entregar em massa, à imagem das campanhas publicitárias das piores transnacionais-, o bloco crítico manteve uma posição de declarado enfrentamento contra Comissões e a União.

Toxo e Méndez, que falaram no final do percurso, foram assobiados e regalados com gritos de “Fora!” e “Desvergonhados” no final dos seus depoimentos pelo bloco crítico.

Decrescimento da assistência

UGT e CCOO, os dois maiores sindicatos amarelos no Estado espanhol, ofereceram uns dados de assistência absolutamente disparatados. Talvez ainda embriagados pela emoção de uma das poucas jornadas em que se decidiram a tomar a rua, as entidades falaram de um inacreditável meio milhão de pessoas nas ruas de Madrid.

O repórter do Diário Liberdade em Madrid pôde verificar a falsidade dessa estimativa, topando ainda com a generalizada impressão de um reduzido tamanho da massa manifestante a respeito de recentes mobilizações. É referencial o caso da manifestação que, convocada sem o enorme aparelho publicitário das entidades pseudosindicais para passado 15 de outubro, conseguiu mobilizar centos de milhares de pessoas –menos do meio milhão sonhado por UGT e CCOO, contudo- ocupando uma superfície várias vezes superior à que se encheu ontem.

A reforma laboral

O executivo de Mariano Rajoi vem de assinar em fevereiro, após pouco mais de 2 meses de ser elegido Primeiro Ministro com os votos favoráveis de apenas 25% do censo eleitoral, uma reforma laboral ainda mais agressiva que a que o seu predecessor, José Luís Rodríguez Zapatero, poucos meses antes.

O texto aprovado pela ultradireita espanhola com o apoio de CiU (direita católica autonomista catalá) avança para um despedimento praticamente livre e com indenizações que se reduzem para a metade das previstas no quadro laboral anterior.

Assim, entre os pontos mais contestados da nova legislação, estão que uma empresa possa realizar despedimentos coletivos registando apenas três trimestres de resultados negativos, a redução da indenização por despedimento para 12 dias por ano –em despedimentos ‘justificados’- e 20 dias para despedimentos improcedentes, o que se traduz numa redução de 50% sobre as quantidades anteriormente vigentes.

O empresariado assentado no Estado espanhol está com sorte: mesmo quando for declarada a ilegalidade de um despedimento num juízo, estará na mão do culpável escolher a sua condena (readmissão do trabalhador/a ou indenização), em vez de fazê-lo o trabalhador/a alvo de injustiça.

O novo ataque também aprofunda a temporalidade e instabilidade na contratação, a transferência de dinheiro público para as empresas –mediante subsídios em relação a políticas de contratação- e, em geral, o pioramento nas condições laborais com o objetivo, segundo Rajoi, empresariado, UE, FMI e afins, de ‘flexibilizar’ o mercado laboral.

Precariedade, protestos nas ruas, tensão e sindicatos amarelos descobertos. Isso acontece nestes dias num Estado com 23% de desemprego e serviços públicos desmantelados por via de urgência.

Fonte: Diário Liberdade