Declaração do governo cubano analisa Cúpula das Américas | Juventude Comunista Avançando

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Declaração do governo cubano analisa Cúpula das Américas


Havana, 18 abr (Prensa Latina) Sob o título "Pela segunda independência", publica hoje o diário Granma uma Declaração do Governo Revolucionário de Cuba na qual se analisa a VI Cúpula das Américas em Cartagena de Índias, Colômbia.
EUA estiveram isolados na Cúpula de Cartagena, adverte Cuba
Por sua importância, Prensa Latina reproduz a seguir esse documento na íntegra: 

Declaração do governo revolucionário 

Pela segunda independência 

Na Colômbia, Cartagena de Índias, ficou demonstrado que há um abismo crescente entre "Nossa América" martiana e "o Norte convulso e brutal que nos despreza". Nesse encontro se produziu uma rebelião da América Latina e do Caribe contra a imposição de "um governo e meio", que exercia um veto imperial aos parágrafos do projeto de Declaração Final da chamada Cúpula das Américas, nos quais era exigido o fim do bloqueio e da exclusão de Cuba dos eventos hemisféricos.

Já na anterior Cúpula de 2009, se dissiparam as ilusões sobre a política do presidente Obama; ficou exposta a brecha entre seus discursos e suas ações; não aconteceu nenhuma grande mudança na política para a América Latina e o Caribe; o bloqueio à Cuba continuou e até piorou no setor financeiro - apesar da condenação internacional e o voto quase unânime da Assembleia Geral das Nações Unidas - com o objetivo de "provocar fome, desespero e a derrocada do governo" o que agora se conhece como "mudança de regime".

A ALBA se reuniu no dia 4 de fevereiro passado, em Caracas, para comemorar a heróica Rebelião Cívico-Militar de 1992 e adotou uma Declaração sobre a Soberania Argentina das Malvinas, outra sobre o bloqueio, e considerou injusta e inaceitável a imposição da exclusão de Cuba destes eventos. O presidente Rafael Correa afirmou com firmeza que se esta questão não fosse resolvida, o Equador não assistiria à Cúpula de Cartagena, o que sacudiu a região. Essa valente posição foi o prelúdio do que aconteceu depois.

O presidente Raúl Castro Ruz disse: "Eu quero agradecer vocês, presidente Correa, Evo e todos estas propostas... É um tema de vital importância, têm toda a razão. Nós jamais pedimos que fosse tomada uma medida como essa, mas não por isso vamos deixar de apoiar esta que consideramos muito justa".

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos - quem nos visitou de maneira respeituosa e recebeu como resposta do presidente Raúl Castro Ruz que Cuba, caso fosse convidada à Cúpula, assistiria como sempre com todo respeito e apego aos princípios e à verdade - teve o mérito de apresentar diretamente o tema do bloqueio e a exclusão de Cuba.

O presidente Evo Morales, que tinha sido o primeiro em questionar dita Cúpula na reunião de fevereiro da ALBA em Caracas, travou uma batalha em Cartagena e afirmou que "estamos em uma etapa de desintegração. Não é possível que um país possa vetar a presença de Cuba, por tanto, não há integração; e com a ausência do Equador, como uma ausência justa em protesto ao veto dos Estados Unidos à Cuba, de que integração podemos falar?".

O presidente Chávez, no passado dia 13 de abril, exclamou "agora, realmente, se estes dois governos dos Estados Unidos e Canadá, se negam a discutir temas tão profundamente ligados à identidade da América Latina e do Caribe, como o tema de Cuba, da irmã Cuba, da solidária Cuba; ou o tema das Ilhas Malvinas; para que mais Cúpulas das Américas então? Teria que acabar com essas Cúpulas". Antes tinha escrito: "Clamamos, igualmente, pelo fim do vergonhoso e criminoso bloqueio à irmã República de Cuba: bloqueio que, há mais de 50 anos, exerce o império com crueldade contra o heróico povo de José Martí".

Daniel Ortega, em ato massivo e juvenil de solidariedade à Cuba no dia 14 de abril em Manágua propôs: "eu acho que é o momento para o governo dos Estados Unidos escutar todas as nações latino-americanas das mais diversas ideologias, dos mais diversos pensamentos políticos. Dos pensamentos mais conservadores até os pensamentos mais revolucionários, estão todos coincidindo em que Cuba deve estar presente nestas reuniões ou não haverá próxima Cúpula, chamadas ou mau chamadas, das Américas".

Resultou impressionante a sólida postura unitária da Nossa América em torno do bloqueio, da exclusão de Cuba e das Malvinas. Foi essencial a firmeza e a dignidade da Presidenta da Argentina na defesa enérgica dessas causas.

Sentimos orgulho quando a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, defendeu com serena dignidade perante Obama que a Pátria Grande só pode ser tratada como igual e confirmou a postura comum em apoio à Argentina e a Cuba.

Os líderes dos países caribenhos demonstraram a solidez da Comunidade do Caribe (CARICOM) e que, como a América Latina, são igualmente indivisíveis. Sua defesa da soberania argentina das Malvinas e seu tradicional e categórico apoio a Cuba foi transcendental.

As forças de esquerda, os movimentos populares, as organizações sindicais, juvenis e estudiantis, as organizações não governamentais reunidas todas no Congresso dos Povos, em Cartagena, expressaram emotiva solidariedade com Cuba. A Reunião Interparlamentária das Américas adotou uma condenação à exclusão e o bloqueio a nosso país.

Os Estados Unidos subestimaram o nascimento da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) no dia 2 de dezembro do 2011 em Caracas - no Bicentenário da Independência, sob a liderança de Chávez, no também 55 aniversário do Desembarco do Granma. Essa força já tinha sido antecipada pelo líder da Revolução Fidel Castro Ruz que, em fevereiro de 2010, escreveu que "nenhum outro fato institucional de nosso hemisfério, durante o último século, reflete similar transcendência".

Quando, nessa primeira Cúpula, Cuba foi eleita Presidente da CELAC para 2013, o General de Exército Raúl Castro Ruz declarou: "com as decisões que aqui adotamos e com o trabalho conjunto dos últimos três anos, reivindicamos mais de dois séculos de lutas e esperanças. Chegar tão longe nos custou esforço, mas também sangue e sacrifício. As metrópoles coloniais de outrora e as potências imperiais de hoje têm sido inimigas deste esforço".

Obama também não parece entender o significado da vitória bolivariana de 13 de abril de 2002, nem que, precisamente agora, se cumprem dez anos do golpe de estado organizado por seu predecessor - com o apoio da OEA e do governo espanhol de Aznar - contra o presidente Hugo Chávez, golpe que pretendia aniquilar a Revolução Bolivariana e assassinar seu líder. Como lembrou o chanceler venezuelano Nicolás Maduro, olhando nos seus olhos em memorável discurso na Cúpula de Cartagena, o governo estadunidense persiste na conduta de intervir nos assuntos internos da Venezuela e de apoiar os golpistas convertidos agora em candidatos eleitorais.

O presidente Obama deveria perceber que a Cúpula de Cartagena não foi propícia para dar conselhos de democracia a Cuba. Menos ainda quando quem pretende fazê-lo esteve ali totalmente isolado, obrigado a exercer um veto imperial por falta de argumento e de autoridade política e moral; dedicando-se à demagogia, a caminho de umas eleições escabrosas. Melhor seria se preocupar com suas guerras, crises e politicagem, que de Cuba nos encarregamos os cubanos.

Estados Unidos nunca quis debater sobre as terríveis consequências do neoliberalismo para a América Latina e o Caribe, nem sobre os imigrantes nos Estados Unidos e da Europa separados de suas famílias, devolvidos cruelmente ou assassinados em muros como o do Rio Bravo. Também não aceitou jamais falar dos pobres que são a metade da Humanidade.

O império e as outrora metrópoles coloniais não escutam os "indignados", seus cidadãos e minorias que vivem na pobreza nessas sociedades opulentas, enquanto seus governos salvam banqueiros corruptos e especuladores com somas exorbitantes. Na superpotência, 10% das famílias controlam 80% da riqueza. Esses recursos são suficientes para resolver os problemas do planeta.

A novidade em Cartagena é que boa parte dos governos, com naturais diferenças e diferentes enfoques, exigiram um modelo alternativo que privilegie a solidariedade e a complementariedade frente à competição fundada no egoísmo; que tente a harmonia com a natureza e não o saque dos recursos naturais nem o consumismo desenfreado. Pediram que fosse preservada a diversidade cultural e não a imposição de valores e estilos de vida alheios a nossos povos; que se consolide a paz e sejam evitadas as guerras e a militarização.

Fizeram um chamado a recuperar a condição humana de nossas sociedades e a construir um mundo onde se reconheça e respeite a pluralidade de ideias e modelos, a participação democrática da sociedade nos assuntos de governo; que inclua consultas populares a políticas econômicas e monetárias; que seja combatido o analfabetismo, a mortalidade infantil e materna, as doenças curáveis. Foi também reivindicado o acesso tanto à informação livre e veraz como à água potável; foi reconhecida a existência da exclusão social e a importância de que os direitos humanos são para o exercício de todos e não para serem usados como arma política dos poderosos.

O governo dos Estados Unidos desta vez teve que escutar, não uma voz quase única como foi durante décadas, nem uma escassa minoria até pouco tempo. Agora, foram maioria os povos que falaram na Cúpula através de seus próprios Presidentes e Chefes de Delegações para dar este debate imprescindível, ou através da atitude dos que não foram. A Cúpula teve que ser censurada porque o império escuta com ouvidos surdos.

Em Cartagena, ficou evidente a Doutrina Monroe "da América para os (norte) americanos". Como se ninguém lembrasse do equívoco que foi a Aliança Para o Progresso, em 1961; ou a iniciativa de Aliança Para as Américas ou ALCA, em 1994; pretenderam nos manipular agora com a "Aliança Igualitária".

Como predisse o Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz em um evento internacional na mesma Cartagena em 14 de junho de 1994: as chamadas Cúpulas das Américas só beneficiam o Norte.

José Martí, quando avaliou uma reunião similar, em Washington há 105 anos, escreveu: "após ver com olhos judiciais os antecedentes, causas e fatores do convite, é necessário dizer, porque é a verdade, que chegou para a América espanhola a hora de declarar sua segunda independência".

Durante o próprio evento, a ALBA afirmou oficial e publicamente que, sem uma mudança radical na natureza destas Cúpulas, não assistirá mais. Outros líderes continentais também o advertiram.

Sobre a OEA, esse cadáver insepulto, nem há nada a dizer.

A República Argentina tem seu direito inalienável à soberania sobre as Ilhas Malvinas, Georgias do Sul e Sandwich do Sul e os espaços marítimos circundantes.

Cuba lembra que a Pátria Grande não estará completa até que o povo irmão portorriquenho exerça também seu direito inalienável à autodeterminação e que o Porto Rico, essa nação latino-americana e caribenha submetida pelos Estados Unidos ao colonialismo, atinja sua plena independência.

Com um sólido consenso de soberania regional e defesa de nossa cultura, dentro da nossa rica diversidade; com quase 600 milhões de habitantes; e com enormes recursos naturais; Nossa América tem uma oportunidade para resolver os graves problemas de extrema desigualdade na distribuição da riqueza e pode, com sua força já evidente, contribuir ao "equilíbrio do mundo", à defesa da paz e à preservação da espécie humana.

Para isso, frente às tentativas que virão de nos dividir e desviar, Nossa América precisará se manter unida.

Ninguém pode se esquecer que no Norte, há 51 anos, o povo cubano defendia já, a estas mesmas horas, uma Revolução Socialista nas areias ensangrentadas de Praia Girón, e que, desde então, "todos os povos da América foram um pouco mais livres".

Havana, 18 de abril do 2012 

rmh/cc
Modificado el ( miércoles, 18 de abril de 2012 )