Há 50 anos era deflagrada a "Greve do Um Terço" do Movimento Estudantil | Juventude Comunista Avançando

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Há 50 anos era deflagrada a "Greve do Um Terço" do Movimento Estudantil

Há 50 anos (no dia 01/06/1962) era deflagrada a Greve do Um Terço. Uma das maiores greves da história do Movimento Estudantil brasileiro. Na época lutava-se pela Reforma Universitária que, desde a redação da Carta do Paraná (também de 1962) figurava entre as reivindicadas "reformas de base". Ou seja, a luta dos estudantes se fundia com a luta de todo o povo pela transformação da sociedade brasileira.

A principal pauta da Greve do Um Terço era a democracia universitária. E esta luta deve servir de exemplo aos dias de hoje, pois ainda há muito o que batalhar para superar a estrutura autoritária da universidade brasileira (reflexo de uma universidade que não é pensada para servir à demandas populares).

Em homenagem a este acontecimento histórico, publicamos um trecho do livro "O Poder Jovem", de Arthur Poerner, que conta a história da UNE e do ME brasileiro:


A GREVE DE UM TERÇO
A ação concreta pela reforma se iniciou ainda na gestão de Aldo Arantes, mediante a exigência de participação, com direito a voto, nos órgãos colegiados de administração da universidade: Congregação, Conselho Universitário e conselhos técnicos. Essa participação era reivindicada na base de um terço, conforme decisão do Seminário de Curitiba, e deveria ser regulamentada pelos estatutos das faculdades e universidades, uma vez que já estava assegurada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Federal nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961). Tratava-se de conquistar a proporção de um terço, objetivo que levou a gestão de Aldo – uma chapa de unidade da AP, do PCB e da POLOP (Organização Revolucionária Marxista Política Operária), criada em 1961 – a desencadear uma campanha de propaganda em todo o país, percorrido em três meses, num avião da Varig, pelas caravanas denominadas de UNE-Volante, que utilizavam, para facilitar a compreensão de suas mensagens, encenações teatrais, como o Auto dos 99%.
Como dispusessem de um prazo curtíssimo para a consecução do fim colimado – pois até 27 de junho de 1962 as faculdades teriam de entregar seus estatutos, já reformados, ao Conselho Federal de Educação –, os líderes da UNE, assim impedidos de se esmerar na preparação do movimento, decidiram confiar na sua capacidade de mobilização das bases: o dia 1º de junho foi fixado como data-limite para o atendimento da reivindicação de um terço. Caso contrário, haveria greve geral.
Esgotado o prazo, sem que obtivesse o terço de participação, a UNE decretou uma greve geral nacional, de amplitude inusitada até então, pois chegou, a certa altura, a paralisar a maior parte das 40 universidades brasileiras da época (23 federais, 14 particulares e três estaduais), além de ser pontilhada de grandes manifestações públicas, entre elas a ocupação, pelos universitários do Rio, do Ministério da Educação, de onde só foram desalojados com a intervenção da Polícia do Exército.
O sucesso inicial do movimento levou as lideranças a determinarem, por decisão unânime, o seu prosseguimento, já decorrido mais de um mês de sua deflagração, durante o 25º Congresso Nacional dos Estudantes, em julho de 1962, em Petrópolis, no hotel Quintandinha. O congresso, que deveria eleger o sucessor de Arantes, foi atacado a tiros por militantes do Movimento Anticomunista (MAC) e oficiais do Exército, que feriram dois estudantes. Foi, segundo o jornalista e escritor Elio Gaspari (A ditadura envergonhada, p. 251), a inauguração do terrorismo na política brasileira.
A profícua atividade de Arantes fez com que a escolha recaísse, de novo, num líder estudantil católico, o mineiro Vinícius Caldeira Brant – que teria de recorrer ao exílio em Paris, após a deposição do presidente Goulart (Arantes, por sua vez, seria preso e torturado posteriormente, já sob o governo do general Ernesto Geisel, e, depois da anistia, iniciaria, em 1982, brilhante carreira parlamentar). Era a consolidação da hegemonia da AP no movimento estudantil brasileiro, sempre coligada com o PCB. A Caldeira Brant cumpria fortalecer, ainda mais, essa hegemonia, extrapolando, se possível, a crescente influência da liderança católica revolucionária, do plano da política estudantil para o da política nacional. Para isso, ele tinha, de início, que conduzir a continuação da greve do um terço, já voltada, naquele momento, não mais contra as congregações das faculdades, mas contra o próprio Conselho Federal de Educação.
Registrava-se, simultaneamente, o agravamento da crise política nacional. O Brasil vivia sua malograda experiência parlamentarista e o gabinete de Francisco Brochado da Rocha, empossado em 9 de julho, se viu compelido a solicitar poderes especiais ao Congresso Nacional, com o intuito, inclusive, de acolher a pretensão dos estudantes em greve. Estes, já contando com um pronunciamento favorável do ministro da Educação, professor Roberto Lyra, resolveram pressionar o Congresso, em pleno clima de radicalização das tensões políticas nacionais. Surgiram, logo, os indícios de que velhos grupos golpistas, ligados a interesses antinacionais, tentavam se aproveitar do movimento estudantil, utilizando-o como pretexto para suas manobras contra o governo. A constatação deste perigo e o desgaste que o desdobramento da greve acarretava para a liderança estudantil – despreparada para sua repercussão – induziram a UNE a um recuo, concretizado no Conselho Extraordinário que, em meados de agosto, suspendeu o movimento.
Embora sem alcançar seus objetivos iniciais, a greve do um terço não pode ser considerada um fracasso total, pois, no seu decurso, contribuiu, sem dúvida, para aumentar a consciência política do estudante e para sensibilizar a opinião pública em torno dos problemas da universidade no Brasil. Falharam, todavia, os seus organizadores, quando mistificaram os liderados com a iminência do triunfo grevista ou quando manifestaram exagerada confiança na atuação isolada do movimento estudantil. Essas falhas bastaram para produzir um certo desgaste das lideranças, o que resultou, em conjunto, no enfraquecimento da atuação política, mesmo se computados os sucessos parciais ou regionais da greve, como o obtido no Paraná, cuja universidade adotou a proporcionalidade de um terço de representação estudantil na composição de seus órgãos colegiados.