Os dezoito do forte – Homenagem aos seus 90 anos | Juventude Comunista Avançando

sábado, 7 de julho de 2012

Os dezoito do forte – Homenagem aos seus 90 anos


Comemora-se, em 2012, 90 anos desta que foi a revolta que inaugurou o movimento tenentista. Movimento este de caráter popular que contestava a forma com que a República se portava diante dos problemas sociais do país.

Em meio às dificuldades vividas pelas classes populares, a república velha mantinha-se em pé. As práticas anti-democráticas da República, que não era res publica – nem no século XXI o é –, faziam crescer nas camadas mais baixas o desejo de uma revolução que efetivamente cumprisse o que prometeu o golpe de 1889, principalmente no que concernia às diretrizes liberais inspiradas na Revolução Francesa. As práticas do conhecido governo oligárquico do café-com-leite, a democracia falseada pelo coronelismo, e a monocultura cafeeira gestaram o sentimento de revolta popular, inclusive entre os militares de baixa patente.

O aparelho estatal montado para a manutenção e defesa das oligarquias econômicas, eram o contra-caminho do que se propunha a república. Praticamente todos os atos no campo econômico empreendidos pelo governo tinham por intuito a defesa do agronegócio cafeeiro, mesmo que isso representasse relegar a maioria da população à miséria.

O presidente então eleito, mediante flagrantes fraudes eleitorais, Arthur Bernardes, representava não apenas os interesses das oligarquias, mas eminentemente daquelas estabelecidas em São Paulo e Minas Gerais, de maior poder econômico e político.

Em 05 julho de 1922, houve então a tentativa revolucionária de subversão da ordem que culminou no que ficou conhecido como a revolta dos dezoito do forte de Copacabana. A princípio a intenção seria a de criar uma grande revolta que acabaria com a república velha e o início de uma grande reforma democrática conectada às aspirações populares. Todavia, apenas o forte de Copacabana e a Escola Militar sublevaram-se, tornando-se alvos fáceis à repressão das tropas fiéis ao governo. Após os bombardeios sofridos pela Fortaleza – que vitimou também dezenas de cidadãos que viviam próximos ao Forte, por conta da imprecisão da artilharia – no qual se entrincheiraram os militares sublevados, e perante a perspectiva de derrota iminente, os dois principais líderes do movimento, o capitão Euclides Hermes da Fonseca e o tenente Siqueira Campos, propuseram, aos que desejassem, que se entregassem, o que pouparia suas vidas.

Dos cerca de 300 militares que iniciaram a revolta, restaram 29. Para efetuar uma possível negociação, Euclides saiu do Forte, sendo preso em seguida. Os 28, decididos a resistir, rasgaram a bandeira que se encontrava no Forte, e dividiram-na em 28 partes, as quais foram presas ao lado esquerdo do peito de cada um. Decididos a morrer como mártires da luta democrática, deixaram o Forte e marcharam pela avenida Atlântica, combatendo destemidamente as tropas governistas, embora sem condições reais de triunfar. Daqueles 28, dez dispersaram no tiroteio, restando apenas 17, contando com a adesão de um civil, totalizando os 18 do Forte, contra centenas de irmãos de farda que se mantiveram na defesa dos opressores do povo.

Sobreviveram apenas Siqueira Campos e Eduardo Gomes, mesmo que gravemente feridos. A revolta foi então contida, e a República velha pôde agonizar por mais alguns anos, e testemunhar e reprimir todos os outros levantes tenentistas.

Mais do que nunca, nestes tempos, é necessária a lembrança de acontecimentos históricos, como esse, muito pouco lembrados pelos historiadores correntes, e muito menos recordados pelos manuais de história.

Tal lembrança, também por parte dos jovens militares que ingressam nessa carreira é de grande valia para que seus exemplos não sejam esquecidos nestes tempos em que os militares – que antes de serem patentes semoventes são homens do povo – pouco se compadecem das lutas populares e das graves violações democráticas que eles próprios empreendem. A politização dos membros militares, principalmente nas camadas mais baixas da instituição, sempre foi visto como um problema pela oficialidade militar, que reage buscando castrar o pensamento crítico dentro da caserna, impondo uma educação cuja finalidade sempre foi a manutenção da hierarquia e da ordem estabelecida.

A revolta de 1922 é um belo exemplo de coragem e dignidade não pode ser esquecido.

Publicado originalmente no JA no. VI