"A memória de Friedrich Engels, grande combatente e mestre do proletariado, viverá eternamente!" | Juventude Comunista Avançando

domingo, 5 de agosto de 2012

"A memória de Friedrich Engels, grande combatente e mestre do proletariado, viverá eternamente!"

Engels morreu em um 5 de agosto. Reproduzimos abaixo uma publicação em sua homenagem feita pelo PCP (Partido Comunista Português), de 2005.



A notícia necrológica que reproduzimos a seguir, por ocasião dos 120 anos da morte de Friedrich Engels, foi redigida por Lénine no tempo decorrido entre a morte de Engels em 5 de Agosto de 1885 e a sua prisão em Dezembro de 1885, e publicada, não antes de Março de 1896, nos n.os 1-2 da compilação não periódica Rabotnik [O Trabalho] editada fora da Rússia por iniciativa de Lénine.

Lénine sempre atribuiu à obra de Engels uma importância fundamental. Expressou-a de modo particularmente incisivo na Bibliografia no final do artigo que em 1914 escreveu sobre K. Marx: «Para apreciar correctamente as concepções de Marx, é absolutamente preciso tomar conhecimento das obras do seu mais próximo companheiro e colaborador, Friedrich Engels. É impossível compreender o marxismo e dar dele uma exposição completa sem ter em conta todas as obras de Engels.» (Oeuvres, t. 21, p. 87.)

Como o leitor terá oportunidade de verificar, no seu texto, Lénine acentua a contribuição de Engels como co-fundador do socialismo científico, teoria que radica na análise das contradições materiais de um mundo em devir e apela a agir pela sua transformação tomando partido pelo proletariado na sua luta de classe contra a burguesia exploradora.

Na concepção cientificamente fundamentada de Marx e Engels encontrou Lénine a arma teórica e o guia para a acção revolucionária nas condições da Rússia tsarista que culminaria com o triunfo em Outubro de 1917 da primeira revolução socialista da história e da qual se comemora este ano o 88.º aniversário.

Revolução que no seu decurso de mais de 70 anos marcou de forma indelével toda a história mundial posterior - pelo seu exemplo de clarividência, valentia e tenacidade revolucionárias, pelas suas grandiosas realizações no interesse dos trabalhadores e dos povos da URSS e que se repercutiram na conquista de direitos pela classe operária e os trabalhadores dos países capitalistas (que as políticas neoliberais hoje procuram retrogradamente destruir), pelo apoio solidário e internacionalista à luta emancipadora dos povos oprimidos pelos países imperialistas e, também, pelos seus erros e derrotas que requerem aprofundado estudo e reflexão, particularmente numa perspectiva de futuro revolucionária.

Para os revolucionários de todo o mundo, o nome de Lénine juntou-se por direito próprio ao de Marx e de Engels. Tendo em conta, como eles o fizeram, as condições históricas concretas em que nos foi dado viver e lutar, cabe-nos a nós, com razão e paixão revolucionárias, dar criativamente continuidade ao seu legado.


Friedrich Engels (1)
Que chama do espírito se apagou,
Que coração deixou de bater! (2)

Friedrich Engels faleceu em Londres a 5 de Agosto (24 de Julho) de 1895. A seguir ao seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado. Desde o dia em que o destino juntou Karl Marx e Friedrich Engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda a sua vida converteu-se numa obra comum. Assim, para compreender o que Friedrich Engels fez pelo proletariado, é necessário ter-se uma ideia precisa do papel desempenhado pela doutrina e actividade de Marx no desenvolvimento do movimento operário contemporâneo. Marx e Engels foram os primeiros a demonstrar que a classe operária e as suas reivindicações são um produto necessário do regime económico actual, que, juntamente com a burguesia, cria e organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado. Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores mas o objectivo final e o resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade actual. Toda a história escrita até aos nossos dias é a história da luta de classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de umas classes sociais sobre outras. E este estado de coisas continuará enquanto não tiverem desaparecido as bases da luta de classes e do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social anárquica. Os interesses do proletariado exigem a destruição destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada a luta de classe consciente dos operários organizados. E toda a luta de classe é uma luta política.

Todo o proletariado que luta pela sua emancipação tornou hoje suas estas concepções de Marx e Engels; mas nos anos 40, quando os dois amigos começaram a colaborar em publicações socialistas e a participar nos movimentos sociais da sua época, eram inteiramente novas. Então, eram numerosos os homens de talento e outros sem talento, honestos ou desonestos, que, no ardor da luta pela liberdade política, contra a arbitrariedade dos reis, da polícia e do clero, não viam a oposição dos interesses da burguesia e do proletariado. Não admitiam sequer a ideia de os operários poderem agir como força social independente. Por outro lado, um bom número de sonhadores, algumas vezes geniais, pensava que seria suficiente convencer os governantes e as classes dominantes da iniquidade da ordem social existente para que se tornasse fácil fazer reinar sobre a terra a paz e a prosperidade universais. Sonhavam com um socialismo sem luta. Finalmente, a maior parte dos socialistas de então e, de um modo geral, os amigos da classe operária, não viam no proletariado senão uma chaga a cujo crescimento assistiam com horror à medida que a indústria se desenvolvia. Por isso todos procuravam o modo de parar o desenvolvimento da indústria e do proletariado, parar a «roda da história». Contrariamente ao temor geral ante o desenvolvimento do proletariado, Marx e Engels punham todas as suas esperanças no contínuo crescimento numérico deste. Quanto mais proletários houvesse, e maior fosse a sua força como classe revolucionária, mais próximo e possível estaria o socialismo. Podem exprimir-se em poucas palavras os serviços prestados por Marx e Engels à classe operária dizendo que eles a ensinaram a conhecer-se e a tomar consciência de si mesma, e que substituíram os sonhos pela ciência.

É por isso que o nome e a vida de Engels devem ser conhecidos por todos os operários; é por isso que, na nossa compilação, cujo fim, como o de todas as nossas publicações, é acordar a consciência de classe dos operários russos, devemos dar um apanhado da vida e da actividade de Friedrich Engels, um dos dois grandes mestres do proletariado contemporâneo.

Engels nasceu em 1820 em Barmen, na Província renana do reino da Prússia. O pai era um fabricante. Em 1838, Engels teve de abandonar por motivos familiares os estudos no liceu e de entrar como empregado numa casa de comércio de Bremen. Este trabalho no negócio não o impediu de completar a sua instrução científica e política. Foi desde o liceu que ele ganhou ódio ao absolutismo e à arbitrariedade da burocracia. Os seus estudos de filosofia levaram-no ainda mais longe. Predominava então na filosofia alemã a doutrina de Hegel, e Engels tornou-se seu discípulo. Embora Hegel fosse, por seu lado, um admirador do Estado prussiano absolutista, ao serviço do qual se encontrava na qualidade de professor na Universidade de Berlim, a sua doutrina era revolucionária. A fé de Hegel na razão humana e nos seus direitos e o princípio fundamental da filosofia hegeliana, segundo o qual o mundo é teatro de um processo permanente de mudança e desenvolvimento, conduziram os discípulos do filósofo berlinense, que não queriam acomodar-se à realidade, à ideia de que a luta contra a realidade, a luta contra a iniquidade existente e o mal reinante, também procede da lei universal do desenvolvimento perpétuo. Se tudo se desenvolve, se certas instituições são substituídas por outras, por que é que o absolutismo do rei da Prússia ou do tsar da Rússia, o enriquecimento de uma ínfima minoria à custa da imensa maioria, o domínio da burguesia sobre o povo, hão-de perdurar eternamente? A filosofia de Hegel tratava do desenvolvimento do espírito e das ideias; era idealista. Do desenvolvimento do espírito a filosofia de Hegel deduzia o desenvolvimento da natureza, do homem e das relações entre os homens no seio da sociedade. Retomando a ideia hegeliana de um processo perpétuo de desenvolvimento*, Marx e Engels rejeitaram a sua preconcebida concepção idealista; analisando a vida real, viam que não é o desenvolvimento do espírito que explica o da natureza, mas que, pelo contrário, é necessário explicar o espírito a partir da natureza, da matéria... Contrariamente a Hegel e outros hegelianos, Marx e Engels eram materialistas. Partindo de uma concepção materialista do mundo e da humanidade, verificaram que, tal como todos os fenómenos da natureza têm causas materiais, igualmente o desenvolvimento da sociedade humana é condicionado pelo desenvolvimento de forças materiais, as forças produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas dependem as relações que se estabelecem entre os homens no processo de produção dos objectos necessários à satisfação das necessidades humanas. E são estas relações que explicam todos os fenómenos da vida social, as aspirações do homem, as suas ideias e as suas leis. O desenvolvimento das forças produtivas cria relações sociais que se baseiam na propriedade privada; mas vemos hoje esse mesmo desenvolvimento das forças produtivas privar a maioria dos homens de toda a propriedade e concentrar esta nas mãos de uma ínfima minoria; ele destrói a propriedade, base da ordem social contemporânea, e tende ele próprio para o objectivo que se fixaram os socialistas. Estes últimos devem apenas compreender qual é a força social que, pela sua situação na sociedade actual, está interessada na realização do socialismo, e incutir nesta força a consciência dos seus interesses e da sua missão histórica. Esta força é o proletariado. Engels conheceu-o na Inglaterra, em Manchester, centro da indústria inglesa, onde se fixou em 1842 como empregado de uma firma comercial de que seu pai era um dos accionistas. Aí Engels não se limitou a permanecer no escritório da fábrica: percorreu os bairros sórdidos em que viviam os operários e viu com os seus próprios olhos a miséria e os males que os afligiam. Não se limitando à sua observação pessoal, Engels leu tudo o que antes dele se tinha escrito sobre a situação da classe operária inglesa e estudou minuciosamente todos os documentos oficiais que pôde consultar. O resultado dos seus estudos e observações foi um livro que saiu em 1845: A Situação das Classes Trabalhadoras na Inglaterra. Já atrás assinalámos o principal mérito de Engels como autor dessa obra. É certo que antes dele muitos tinham descrito os sofrimentos do proletariado e indicado a necessidade de lhe prestar ajuda. Engels foi o primeiro a declarar que o proletariado não é só uma classe que sofre mas que a miserável situação económica em que se encontra empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar pela sua emancipação definitiva. E o proletariado em luta ajudar-se-á a si mesmo. O movimento político da classe operária levará inevitavelmente os operários à consciência de que não há para eles outra saída senão o socialismo. Por seu lado, o socialismo só será uma força quando se tornar o objectivo da luta política da classe operária. Tais são as ideias fundamentais do livro de Engels sobre a situação da classe operária em Inglaterra, ideias hoje aceites por todo o proletariado que pensa e luta, mas que eram então absolutamente novas. Estas ideias foram expostas numa obra escrita num estilo cativante, onde abundam os quadros mais verídicos e impressionantes da miséria do proletariado inglês. Este livro era uma terrível acusação contra o capitalismo e a burguesia. Produziu uma impressão muito grande. Em breve, por toda a parte começaram a referir-se a ele como o quadro mais fiel da situação do proletariado contemporâneo. E, com efeito, nem antes nem depois de 1845 apareceu uma descrição tão brilhante e tão verdadeira dos males sofridos pela classe operária.

Engels só se tornou socialista em Inglaterra. Em Manchester pôs-se em contacto com os militantes do movimento operário inglês de então e começou a escrever para as publicações socialistas inglesas. Em 1844, ao passar por Paris de regresso à Alemanha, conheceu Marx, com quem se correspondia já há algum tempo, e que se tinha igualmente tornado socialista durante a sua estada em Paris, sob a influência dos socialistas franceses e da vida em França. Foi aí que os dois amigos escreveram em conjunto A Sagrada Família ou Crítica da Crítica Crítica. Este livro, escrito na sua maior parte por Marx, e saído um ano antes de A Situação das Classes Trabalhadoras na Inglaterra, contém as bases do socialismo materialista revolucionário de que atrás expusemos as ideias essenciais. A Sagrada Família é uma denominação jocosa dada a dois filósofos, os irmãos Bauer, e aos seus discípulos. Estes senhores pregavam uma crítica que se colocava acima de toda a realidade, acima dos partidos e da política, repudiava toda a actividade prática e limitava-se a contemplar «criticamente» o mundo circundante e os acontecimentos que nele se produziam. Os senhores Bauer qualificavam desdenhosamente o proletariado de massa desprovida de espírito crítico. Marx e Engels opuseram-se categoricamente a esta tendência absurda e nefasta. Em nome da verdadeira personalidade humana, do operário espezinhado pelas classes dominantes e pelo Estado, Marx e Engels exigiam não uma atitude contemplativa mas a luta por uma melhor ordem social. Era, evidentemente, no proletariado que eles viam a força capaz de travar esta luta e directamente interessada nela. Já antes do aparecimento de A Sagrada Família, Engels tinha publicado na revista Anais Franco-Alemães (4), editada por Marx e Ruge, o seu Estudo Crítico sobre a Economia Política (5), em que analisava, de um ponto de vista socialista, os fenómenos essenciais do regime económico contemporâneo como consequências inevitáveis da dominação da propriedade privada. As suas relações com Engels contribuíram incontestavelmente para que Marx se decidisse a ocupar-se do estudo da economia política, ciência em que os seus trabalhos iriam operar uma verdadeira revolução.

De 1845 a 1847 Engels viveu em Bruxelas e em Paris, aliando os estudos científicos com uma actividade prática entre os operários alemães destas duas cidades. Foi aí que Marx e Engels entraram em contacto com uma associação secreta alemã, a Liga dos Comunistas (6), que os encarregou de expor os princípios fundamentais do socialismo elaborado por eles. Assim nasceu o célebre Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels, publicado em 1848. Este pequeno livrinho vale por tomos inteiros: ele inspira e anima até hoje todo o proletariado organizado e combatente do mundo civilizado.

A revolução de 1848, que rebentou primeiro em França e se propagou em seguida aos outros países da Europa ocidental, permitiu a Marx e Engels regressarem à sua pátria. Aí, na Prússia renana, tomaram a direcção da Nova Gazeta Renana(7), jornal democrático que se publicava em Colónia. Os dois amigos eram a alma de todas as tendências democráticas revolucionárias da Prússia renana. Defenderam até ao fim os interesses do povo e da liberdade contra as forças da reacção. Estas últimas, como é sabido, acabaram por triunfar. A Nova Gazeta Renana foi proibida. Marx, que enquanto se encontrava na emigração tinha sido privado da nacionalidade prussiana, foi expulso. Quanto a Engels, tomou parte na insurreição armada do povo e combateu em três batalhas pela liberdade, e, após a derrota dos insurrectos, fugiu para Londres através da Suíça.

Foi igualmente em Londres que Marx veio fixar-se. Engels em breve voltou a ser empregado, e mais tarde sócio, da mesma casa comercial de Manchester onde tinha trabalhado nos anos 40. Até 1870 Engels viveu em Manchester e Marx em Londres, o que não os impediu de estar em estreito contacto espiritual: escreviam-se quase todos os dias. Nessa correspondência, os dois amigos trocavam as suas ideias e os seus conhecimentos, e continuaram a elaborar, em conjunto, a doutrina do socialismo científico. Em 1870, Engels veio fixar-se em Londres, e a sua vida intelectual conjunta, cheia de uma actividade intensa, prosseguiu até 1883, data da morte de Marx. Esta colaboração foi extremamente fecunda: Marx escreveu O Capital, a mais grandiosa obra de economia política do nosso século, e Engels toda uma série de trabalhos, grandes e pequenos. Marx dedicou-se à análise dos fenómenos complexos da economia capitalista. Engels escreveu, num estilo simples, obras muitas vezes polémicas em que esclarecia os problemas científicos mais gerais e os diversos fenómenos do passado e do presente, inspirando-se na concepção materialista da história e na teoria económica de Marx. De entre esses trabalhos de Engels citaremos: a sua obra polémica contra Dühring (onde analisa as questões capitais da filosofia, assim como das ciências naturais e sociais) *, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (tradução russa saída em Sampetersburgo, 3.a edição, 1895), Ludwig Feuerbach (tradução russa anotada por G. Plekhánov, Genebra, 1892), um artigo sobre a política externa do governo russo (traduzido em russo na Sotsial-Demokrat (10) de Genebra, n.os 1 e 2), notáveis artigos sobre o problema da habitação (11), e, finalmente, dois artigos curtos mas de grande interesse, sobre o desenvolvimento económico da Rússia (Friedrich Engels sobre a Rússia, tradução russa de Vera Zassúlitch, Genebra, 1894) (12). Marx morreu sem ter conseguido completar a sua obra monumental sobre o capital. Contudo, esta obra estava já terminada em rascunho e Engels, após a morte do amigo, assumiu a pesada tarefa de redigir e publicar os volumes II e III de O Capital. Editou o volume II em 1885 e o volume III em 1894 (não teve tempo de redigir o volume IV (13). Estes dois volumes exigiram um trabalho enorme da sua parte. O social-democrata austríaco Adler observou muito justamente que, editando os volumes II e III de O Capital, Engels ergueu ao seu genial amigo um grandioso monumento no qual, involuntariamente, tinha gravado também o seu próprio nome em letras indeléveis. Estes dois volumes de O Capital são, com efeito, obra de ambos, de Marx e Engels. As lendas da Antiguidade contam exemplos comoventes de amizade. O proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada por dois sábios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos. Engels, em geral com toda a razão, sempre se apagou diante de Marx. «Ao lado de Marx», escreveu ele a um velho amigo, «fui sempre o segundo-violino.» (14) O seu carinho por Marx enquanto este viveu e a sua veneração à memória do amigo morto foram ilimitados. Este militante austero e pensador rigoroso tinha uma alma profundamente afectuosa.

Durante o seu exílio, depois do movimento de 1848-1849, Marx e Engels não se dedicaram unicamente ao trabalho científico. Marx fundou em 1864 a «Associação Internacional dos Trabalhadores» (15), de que assegurou a direcção durante dez anos. Engels desempenhou nela igualmente um papel considerável. A actividade da Associação Internacional, que unia, de acordo com os ideais de Marx, os proletários de todos os países, teve uma enorme importância no desenvolvimento do movimento operário. Mesmo após a sua dissolução, nos anos 70, continuou o papel de Marx e Engels como unificadores da classe operária. Melhor: pode dizer-se que a sua importância como dirigentes espirituais do movimento operário não cessou de crescer, pois o próprio movimento se desenvolvia sem parar. Após a morte de Marx, Engels, sozinho, continuou a ser o conselheiro e o dirigente dos socialistas da Europa. A ele vinham pedir conselhos e indicações tanto os socialistas alemães, cuja força crescia contínua e rapidamente apesar das perseguições governamentais, como os representantes dos países atrasados, por exemplo, os espanhóis, romenos, russos, que meditavam e mediam então os seus primeiros passos. Todos eles corriam ao riquíssimo tesouro dos conhecimentos e experiência do velho Engels.

Marx e Engels, que conheciam o russo e liam obras publicadas nessa língua, interessaram-se vivamente pela Rússia, seguiam com simpatia o movimento revolucionário do nosso país e mantinham relações com os revolucionários russos. Ambos eram já democratas antes de se tornarem socialistas e tinham profundamente arraigado o sentimento democrático de ódio à arbitrariedade política. Este sentimento político nato, aliado a uma profunda compreensão teórica da relação existente entre a arbitrariedade política e a opressão económica, assim como a sua riquíssima experiência da vida, tinham tornado Marx e Engels extraordinariamente sensíveis precisamente no sentido político. Por isso, a luta heróica de um pequeno punhado de revolucionários russos contra o poderoso governo tsarista encontrou a mais viva simpatia no coração dos dois experimentados revolucionários. Inversamente, toda a veleidade de voltar as costas, em nome de pretensas vantagens económicas, à tarefa mais importante e mais imediata dos socialistas russos — a conquista da liberdade política — parecia-lhes naturalmente suspeita, vendo mesmo nisso uma traição à grande causa da revolução social. «A emancipação do proletariado deve ser obra do próprio proletariado», eis o que ensinavam constantemente Marx e Engels (16). E para lutar pela sua emancipação económica, o proletariado deve conquistar certos direitos políticos. Além disso, Marx e Engels viram com toda a clareza que uma revolução política na Rússia teria também uma enorme importância para o movimento operário na Europa ocidental. A Rússia autocrática foi sempre o baluarte de toda a reacção europeia. A situação internacional excepcionalmente favorável em que a Rússia se encontrou depois da guerra de 1870 (17), que semeou durante muito tempo a discórdia entre a França e a Alemanha, não podia evidentemente deixar de fazer aumentar a importância da Rússia autocrática como força reaccionária. Só uma Rússia livre, que não tivesse necessidade de oprimir os Polacos, os Finlandeses, os Alemães, os Arménios e outros pequenos povos, nem de lançar incessantemente a França e a Alemanha uma contra a outra, permitiria à Europa contemporânea respirar aliviada do peso das guerras, enfraqueceria todos os elementos reaccionários da Europa e aumentaria as forças da classe operária europeia. Por isso mesmo, Engels advogou calorosamente a instauração da liberdade política na Rússia no próprio interesse do movimento operário do Ocidente. Os revolucionários russos perderam nele o seu melhor amigo.

A memória de Friedrich Engels, grande combatente e mestre do proletariado, viverá eternamente!


Notas

* Marx e Engels declararam várias vezes que, em grande medida, o seu desenvolvimento intelectual era devido aos grandes filósofos alemães, e designadamente a Hegel. «Sem a filosofia alemã», declara Engels, «o socialismo científico nem sequer existiria.» (3)
* É um livro notavelmente rico de conteúdo e altamente instrutivo (8). Lamentavelmente, apenas foi traduzida em russo uma pequena parte, a que contém a história do desenvolvimento do socialismo (O Desenvolvimento do Socialismo Científico, 2.a ed., Genebra, 1892 (9)).
(1) Reproduzido de V. I. Lénine, Obras Escolhidas em seis tomos, Edições «Avante»-Edições do Progresso, Lisboa-Moscovo, t. 1, 1984, pp. 9-17.
(2) As palavras em epígrafe ao artigo Friedrich Engels pertencem ao poema À Memória de Dobroliúbov, do poeta russo N. Nekrássov.
(3) Cf. F. Engels, «Aditamento ao prefácio de 1870 para a 3.a edição de l875» de A Guerra dos Camponeses Alemães, in Obras Escolhidas em três tomos de K. Marx/F. Engels, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, t. 2, p. 186.
(4) Lénine tem em vista a revista Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-Alemães), fundada por Karl Marx juntamente com A. Ruge em Paris. Publicou-se apenas um numero (duplo) em Fevereiro de 1844, em alemão. A causa principal da interrupção da edição foram as divergências irreconciliáveis de Marx com o radical burguês Ruge.
(5) Lénine tem em vista a obra de F. Engels Esboços para Uma Crítica da Economia Nacional.
(6) Liga dos Comunistas: primeira organização comunista internacional do proletariado, criada sob a direcção de Marx e Engels em Junho de 1847 em Londres.
Os princípios programáticos e organizativos da Liga foram elaborados com a participação directa de Marx e Engels. Foram também eles que escreveram o documento programático, o Manifesto do Partido Comunista, publicado em Fevereiro de 1848. As personalidades mais destacadas da Liga dos Comunistas desempenharam mais tarde um papel dirigente na I Internacional.
(7) A Nova Gazeta Renana (Neue Rheinische Zeitung) publicou-se diariamente em Colónia de 1 de Junho de 1848 a 19 de Maio de 1849. Os editoriais, que definiam a posição do jornal sobre as questões mais importantes da revolução alemã e europeia, foram no fundamental escritos por Marx e Engels.
(8) Trata-se do livro de Engels Revolucionamento da Ciência pelo Senhor Eugen Dühring («Anti-Diihring»).
(9) Foi com este título que foi publicada a edição russa de 1892 da obra de F. Engels Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, redigida com base em três capítulos do livro de Engels Anti-Dühring. Ver Friedrich Engels, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Edições «Avante!», 2.a edição, Lisboa, 1978.
(10) Lénine tem em vista o artigo de F. Engels A Política Externa do Tsarismo Russo, publicado nos primeiros dois números da Sotsial-Demokrat sob o título A Política Estrangeira do Tsarismo Russo.
Sotsial-Demokrat: revista política e literária publicada no estrangeiro (Londres-Genebra) pelos primeiros marxistas russos em 1890-1892; desempenhou um grande papel na difusão das ideias do marxismo na Rússia.
(11) Lénine tem em vista o artigo de F. Engels Para a Questão da Habitação. Ver Obras Escolhidas em três tomos de K. Marx/F. Engels, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, t. 2. pp. 322-406.
(12) Trata-se do artigo de F. Engels Do Social na Rússia e do posfácio a este artigo, publicado no livro Friedrich Engels sobre a Rússia, Genebra, 1894. Ver Obras Escolhidas em três tomos de K. Marx/F. Engels. Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, t. 2. pp. 417-444.
(13) Lénine, de acordo com a indicação de Engels, chama quarto volume de O Capital à obra de Marx Teorias sobre a Mais-Valia. No prefácio ao segundo volume de O Capital escreveu Engels: «Reservo-me publicar a parte crítica deste manuscrito [Teorias sobre a Mais-Valia], após eliminação das numerosas passagens já resolvidas nos livros II e III, como livro IV de O Capital». No entanto, Engels não pôde preparar a edição do volume IV de O Capital. A referida obra foi publicada pela primeira vez em alemão em 1905-1910 sob a redacção de K. Kautsky. Nesta edição foram deturpadas uma série de teses do marxismo.
(14) Carta de F. Engels a J. P. Becker de 15 de Outubro de 1884.
(15) Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional): primeira organização internacional do proletariado, fundada por K. Marx em Londres em 1864. A criação da I Internacional foi o resultado de uma luta tenaz e de muitos anos de Marx e Engels por um partido revolucionário da classe operária. A I Internacional dirigiu a luta económica e política dos operários de diferentes países e reforçou a sua solidariedade internacional. A I Internacional desempenhou um enorme papel na difusão do marxismo e na união do socialismo com o movimento operário.
Nas condições de reacção política e de terror policial dos anos 70 do século XIX nos países europeus, a actividade da I Internacional interrompeu-se. Foi formalmente dissolvida em 1876.
(16) Ver K. Marx, Estatutos Provisórios da Associação dos Trabalhadores, Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores; F. Engels, prefácio à edição alemã de 1890 do Manifesto do Partido Comunista. Ver Obras Escolhidas em três tomos de K. Marx/F. Engels, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, t. 2, pp. 14-17, e 1982, t. 1, pp. 99-102.
(17) Trata-se da guerra franco-prussiana de 1870-1871 entre a França, que aspirava a conservar a sua hegemonia sobre a Europa e criava obstáculos à unificação da Alemanha, e a Prússia, que agia juntamente com uma série de outros Estados alemães. No decurso da guerra caiu o Segundo Império em França e concluiu-se a unificação da Alemanha sob a direcção da Prússia. As tropas prussianas ocuparam uma parte importante do território francês e participaram na repressão da Comuna de Paris de 1871. A guerra franco-prussiana terminou com o Tratado de Paz de Frankfurt de 1871, gravoso para a França.


«O Militante» - N.º 279 Novembro/Dezembro 2005