Apontamentos sobre a estratégia da Universidade Popular | Juventude Comunista Avançando

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Apontamentos sobre a estratégia da Universidade Popular


Fausto Moura Breda[1]

Após o importante passo dado pelo 1° SENUP – Seminário Nacional de Universidade Popular – na nacionalização do debate sobre Universidade Popular, tem sido comum o apontamento de várias críticas ao tema, inclusive por setores aliados da esquerda universitária. Sobre o objetivo dessas críticas poderia se especular em vários sentidos. Mas a questão fundamental é o reconhecimento de que as lutas educacionais (especialmente do ensino universitário) em nosso país estão marcadas nos últimos anos por um profundo caráter defensivo. O belo exemplo que os docentes das universidades federais, em conjunto com várias categorias de servidores públicos federais, têm dado nesta greve recoloca o debate de projeto de universidade com uma vitalidade inegável. A defesa de uma estratégia de universidade implica no esclarecimento das questões apresentadas em relação à Universidade Popular. Vamos a elas:

A luta pela Universidade Popular é um projeto pronto: é necessário a compreensão do que significa estratégia, esquecida ou considerada como um “debate superado” pela esquerda nos últimos tempos, mas que foi em vários casos da estratégia nacional-libertadora ao taticismo sem princípios, ou então, da primeira à defesa abstrata do socialismo como fórmula pronta. A luta estratégica significa o apontamento dos objetivos últimos do movimento, que só pode ser alcançado com a necessária vinculação entre as tarefas imediatas das lutas (salário, emprego, educação, saúde, terra, etc) com a apresentação do novo como alternativa. A estratégia é guia, no sentido que não considera cada luta independente entre si, mas articula todas ao objetivo comum, que não pode ser a simples negação do existente. A negação está sempre presa ao objeto de negação (lutar contra a privatização pressupõe a privatização, por exemplo), e a estratégia se apresenta como uma saída positiva, que se articula com a negação em uma interação recíproca, mas que não pode ser com ela confundida (denúncia e proposta se articulam profundamente, mas são distintas, e ambas são importantes). Além disso, tática e estratégia se articulam dialeticamente. A luta pela reforma agrária pode ser uma estratégia na luta pela democratização do acesso à terra, por exemplo, mas dentro da revolução socialista brasileira é uma estratégia parcial, logo uma tática, com vínculos sempre mais complexos com patamares superiores de luta. Assim, a luta pela Universidade Popular não é e nem pode ser um projeto pronto, pois é uma estratégia: ela possui princípios gerais[2] que devem ser constantemente apresentados como horizonte para a solução positiva dos problemas candentes (direitos estudantis, pesquisa e extensão, reformas curriculares, planos de carreira, isonomia salarial, etc), ou seja, como ponto de chegada de programas de ação viáveis e flexíveis. Estes mesmos problemas podem ser resolvidos de formas diferentes de acordo com o referencial estratégico de universidade que se tem, ou com a ausência deste. Podem, por exemplo, no caso da assistência estudantil, reforçar a organização estudantil e popular, ou serem simplesmente assistencialistas e paternalistas. O que determina é a concepção de universidade que se defende. Em suma, a estratégia deve ser corretamente antecipada, mas não é nunca um “passo a passo” ou uma cartilha. Sem ela, igualmente, corre-se sérios riscos de se cometer erros graves[3], que podem significar anos ou até décadas de história.

A luta pela Universidade Popular não tem viabilidade prática: tem sido comum após longas discussões com diferentes grupos e pessoas o questionamento taxativo: “então como se constrói a universidade popular na prática?”. Ora, troquemos universidade popular por socialismo e logo veremos o quanto essa pergunta é encharcada de imediatismo. Às vezes parece que é preciso colocar em tópicos ou em forma de lei, com artigos, parágrafos e incisos para que seja considerado prático ou viável. A construção prática é a orientação consciente da ação, de modo que uma mesma luta pode significar um acúmulo de forças ou não. Como não conquistaremos a universidade popular ou o socialismo amanhã, cada ação prática deve servir para ensaiar as relações futuras de forma antecipada. Acumular força significa elevar o nível de consciência do povo e criar meios para que esta elevação corresponda a formas de organização que sejam viáveis e duradouras e que impulsionem conquistas cada vez maiores. A consciência individual ou coletiva pode regredir (embora nunca volta a ser o que era antes), a sociedade atual tem muitos meios de difusão de sua ideologia. Mas não se tendo clareza da estratégia, não pode haver acúmulo de força. As lutas sempre existirão, pois a exploração e a opressão são a razão de ser deste sistema econômico.

Um paralelo interessante é a luta pela reforma agrária empreendida pelo MST e outros movimentos. Sem este horizonte – ou esta estratégia – não teria sido possível a construção e o acúmulo de forças que resultou num dos maiores movimentos sociais do mundo, e que já dura várias décadas, mesmo a reforma agrária no Brasil nunca tendo sido conquistada. Alguém perguntará como se faz a reforma agrária na prática, e a resposta mais óbvia será que se faz lutando, pois um programa escrito que proclame a divisão de terras não é o suficiente para dividi-las. Agora, lutar pela terra sem ter a reforma agrária como objetivo não poderá levar um movimento muito longe. É óbvio que a própria estratégia foi se desenvolvendo (a compreensão de reforma agrária hoje é muito mais complexa que a do início do movimento), o que não seria possível se não fosse apresentada desde o início. Existe ainda a questão de como a estratégia parcial (reforma agrária ou universidade popular, por exemplo) se insere dentro da estratégia geral (revolução socialista), que um movimento deve necessariamente desenvolver, pois a estratégia parcial, no processo de luta, logo apresenta suas limitações.

Universidade Popular não é a única estratégia de universidade existente: perfeitamente, há também a estratégia do capital para a universidade, que se expressa no conjunto da contra-reforma universitária[4]. Mas tem-se insistido em dizer que “Universidade Popular” e “universidade classista” ou “universidade para os trabalhadores” são projetos essencialmente diferentes – no sentido de estratégias –de universidade. Se a estratégia não é algo abstrato, mas algo concreto – está presente na tática, pois que interfere em cada decisão sobre o sentido imediato da luta – é necessário esclarecer essas questões, pois a estratégia não brota de mentes esclarecidas, antes é produto da análise da própria realidade concreta. Como dizia Florestan Fernandes “em uma sociedade de classes da periferia do mundo capitalista e de nossa época não existem ‘simples palavras’”[5], elas são recheadas de conteúdo.

Pois bem, hoje é quase consenso entre a esquerda brasileira que o desenvolvimento do capitalismo e a consolidação do poder burguês no Brasil se deu sem a realização das reformas democráticas – ou da revolução democrática – e que a burguesia nacional não estaria interessada em realizá-la, e com isso conclui-se que a polêmica entre revolução nacional-democrática/anti-imperialista e revolução socialista (ou revolução proletária) estaria superada, e devemos partir para a segunda. A coisa não é tão simples assim. Embora verdadeira, a afirmação acima exclui uma quantidade de mediações necessárias para avançar na luta socialista em nosso país, sem as quais os revolucionários não serão capazes de se inserir no movimento de massas e contribuir para levá-los até o fim em seus objetivos. A questão colocada é a de construção de uma hegemonia das forças populares (os trabalhadores e seus aliados) capaz de tomar o poder e abrir caminho para a transição socialista. O capitalismo no Brasil é dependente, não pode realizar as reformas democráticas dentro de sua própria lógica de desenvolvimento, que se dá dentro de um circulo vicioso ditado pela modernização conservadora. No entanto, isso não significa que não se deva lutar por reformas: o importante é que, apesar de se iniciarem em uma luta dentro da ordem, elas só podem se completar tendo desdobramentos contra a ordem e para além da ordem capitalista. Isso significa que a revolução democrática, nacional, anti-imperialista, deixa de ser uma luta independente da luta socialista, ou seja, deixa de ser uma etapa prévia, e se transforma em um momento interno da revolução socialista.

Mariátegui já teria clareza disso muito cedo, quando apresentou seu “ponto de vista antiimperialista” na 1° Conferência Comunista Latinoamericana, em 1929:

“o antiimperialismo não constitui nem pode constituir, sozinho, um programa político, um movimento de massas apto para a conquista do poder”[6]

Acrescentando:

“Nem a burguesia, nem a pequena burguesia no poder podem realizar uma política antiimperialista”[7]

E no fim do texto, conclui:

“Em suma, somos antiimperialistas porque somos marxistas, porque somos revolucionários, porque contrapomos ao capitalismo o socialismo como sistema antagônico”[8]

 O avanço da revolução socialista depende, então, da capacidade do movimento de deslocar na prática seu centro político de gravidade sob a hegemonia do proletariado. É por isso que a Revolução Cubana se converteu rapidamente de uma revolução nacional anti-imperialista em uma revolução socialista: se não o fizesse seria limitada inclusive em suas tarefas democráticas. Lenin mostrou claramente que a revolução democrática é uma revolução popular e que seria tanto mais profunda quanto mais o proletariado assumisse a frente do processo[9]. Isso não excluía a necessidade de fazer a diferenciação das classes que engloba o conceito de “povo”[10]. Acontece que na Russia, a revolução democrática era uma revolução burguesa quando analisada por Lenin nas Duas táticas da social-democracia na revolução democrática. No Brasil, onde a revolução burguesa ocorreu desvinculada da revolução democrática, esta só pode se dar como momento interno da revolução socialista. Assim, aqui a revolução socialista traz embutido um caráter proletário e popular e é de interesse das classes exploradas e oprimidas pelo bloco de poder dominante formado pelo imperialismo, pelos monopólios e pelo latifúndio, tendo como seu núcleo mais contundente e decidido o proletariado, especialmente o proletariado produtivo. Se não compreendermos isso, não seremos capazes de construir uma contra-hegemonia capaz de fazer a revolução, pois não teremos clara a definição do próprio inimigo[11], que precisa ser isolado. Povo, aqui, exclui a burguesia, e engloba os setores anti-imperialistas, anti-monopolistas e anti-latifundiários.
Fidel compreendeu isso, e assim caracterizava este bloco:

“quando falamos de povo não entendemos por tal os setores acomodados e conservadores da nação, aos que convém qualquer regime de opressão, qualquer ditadura, qualquer despotismo (...) Nós chamamos povo se de luta se trata”[12]

A partir deste trecho do texto, Fidel passa a descrever todas as classes e frações de classes que engloba no interior da categoria “povo”, indo do proletariado urbano e rural aos pequenos agricultores, comerciantes e profissionais liberais. É com isso também que Florestan Fernandes conclui (em uma frase tão reproduzida que é difícil encontrar a fonte):

"Ou os estudantes se identificam com o destino de seu povo, como ele sofrendo a mesma luta, ou se dissociam do seu povo e, nesse caso, serão aliados daqueles que exploram o povo".

Che também identificaria o objetivo que deveria nortear a atuação da universidade:

“É evidente que um dos grandes deveres da universidade é fazer suas práticas profissionais no seio do povo”[13]

"Que se pinte de negro, que se pinte de mulato, não só entre os alunos, mas também entre os professores; que se pinte de operário e de camponês, que se pinte de povo, porque a universidade não é patrimônio de ninguém e pertence ao povo de Cuba”[14]

A necessidade histórica da luta pela Universidade Popular, como estratégia parcial no âmbito da educação superior, está colocada pelo caráter dependente do capitalismo no Brasil, onde a revolução burguesa ocorre sem revolução democrática e nacional, o que acaba deslocando o eixo desta para a revolução socialista. A revolução socialista é assim, uma revolução proletária e popular, pois as necessidades de todos os setores explorados e oprimidos pelo bloco de poder dominante somente podem ser satisfeitas de modo permanente e profundo se inseridas dentro da construção do socialismo. “Universidade classista” ou “universidade para os trabalhadores” são estratégias para a universidade que não levam em conta essas particularidades, não apelam a todos os aliados históricos do proletariado e, logo, são limitadas para a construção do bloco de forças sociais revolucionárias. Não são capazes de construir hegemonia e poderá levar ao isolamento das forças revolucionárias. Os próprios estudantes, ou a maioria deles, estão inseridos dentro de alguns “setores populares” como parte de uma “classe média” que engloba pequenos agricultores, pequenos empresários e comerciantes, intelectuais, funcionários públicos, profissionais liberais, entre outros. Obviamente os setores que compõe essa “classe média” estão cada vez mais proletarizados (embora possa haver recomposições conjunturais das classes intermediárias), mas é um erro crasso não levá-los em consideração. E como dizia Lenin, isso não significa que abdicaremos da necessária direção política dada pelos trabalhadores e sua vanguarda. Parece-se esquecer, quando se fala em “universidade classista”, que a revolução não se faz dentro da universidade, que os trabalhadores necessitarão de seus próprios organismos de organização, como uma central das classes trabalhadoras, que tenha como eixo a centralidade do trabalho, e que organize somente aqueles que vendem sua força de trabalho ao capital. Assim, não há contradição entre a estratégia da Universidade Popular e a “universidade classista” ou “universidade para os trabalhadores”, mas estas duas ultimas se tornam limitadas na medida em que não explicitam a necessária ligação do movimento proletário com todo o povo na disputa da universidade.

A esquerda ainda não tem acúmulo suficiente para definir uma estratégia de universidade (e logo, eleger a Universidade Popular como sua estratégia): esta quarta afirmação até seria mais compreensível no passado. No entanto, atualmente, ela possui dois problemas: 1) não leva em consideração a história do movimento universitário e 2) pode ser facilmente convertida em uma forma de impedir o avanço do debate, assim como tática de alguns setores para impedir perda de espaço no movimento, com o crescimento de um debate que talvez não conheçam e não queiram conhecer. Aqui nos interessa o primeiro ponto, pois ele pode ser superado com o conhecimento da história, e a história não é patrimônio de ninguém, mas da humanidade.

Florestan assim se referia ao movimento da Reforma Universitária dos anos 60:

“Reforma universitária é indissociável da destruição da monopolização do poder pelos estratos conservadores das classes altas e médias. Por isso, quando falam ou lutam pela reforma universitária não querem apenas ‘reorganizar’ formalmente o ensino superior. Visam construir uma universidade totalmente nova – educacionalmente criadora, intelectualmente crítica e socialmente atuante, aberta ao povo e capaz de exprimir politicamente os seus anseios mais profundos”[15]

Na verdade, já em 1938 os documentos do segundo Congresso Nacional de Estudantes (1938) representam as primeiras formulações de maior expressão do movimento estudantil brasileiro. Neles está presente “a necessidade de libertar a economia nacional da exploração imperialista”, tratando problemas nacionais como o da siderurgia e de outras riquezas naturais; a luta pela nacionalização do ensino, com “a difusão da cultura pela integração da Universidade na vida social popular” através de “cursos de extensão e divulgação dos conhecimentos científicos e artísticos, realizados nas cidades e nos campos e dirigidos diretamente ao povo” e da “criação de universidades populares, onde, ao lado de ensinamentos de ofícios manuais, sejam ministradas às classes de povo noções de ciência, artes e letras”[16].

Já em 1961, com o 1° Seminário Nacional de Reforma Universitária, o movimento estudantil volta a se debruçar em um estudo mais aprofundado da realidade brasileira e da universidade. Com a Declaração da Bahia aprovada neste seminário, o Brasil já é considerado uma “nação capitalista em fase de desenvolvimento”, no entanto “deformada em sua base econômica, porquanto subdesenvolvida, estratificada quanto à distribuição dos benefícios econômicos e sociais, democrática apenas formalmente”. Em relação à reforma universitária, o documento ressalta que ela “só não será um mero retoque de fachada, desde que seja vista como um momento do processo mais vasto, que é a Revolução Brasileira”. Para isso, o documento propõe “a democratização do ensino”, a “abertura da Universidade ao povo” e “a condução dos universitários a uma atuação política em defesa dos interesses operários”. Propõe-se, ainda a “socialização dos setores fundamentais da economia”, a “superação da alienação do proletário”, entre outras coisas. Com o 2° Seminário Nacional de Reforma Universitária (1962), foi aprovada a Carta do Paraná. Além de reafirmar as formulações do primeiro seminário diz que “para que a universidade possa atingir a sua missão revolucionária deverá”, entre outras coisas “ser a expressão do povo”, como “única maneira de ser positivamente democrática”. Propõe também que a luta pela Reforma Universitária seja parte da luta pelas Reformas de Base: a luta pela universidade ganharia, então, uma amplitude de luta popular jamais vista antes na história do Brasil. Esse documento serviu também de baliza para a realização da “greve de um terço”, uma greve nacional estudantil que exigia a participação mínima de 1/3 dos estudantes nos órgãos colegiados das universidades.

O problema central de todas essas formulações hoje é mais claro: não era a forma de articulação da estratégia parcial com as demandas mais sentidas pelos estudantes e pelo povo. Era sim, a forma como a estratégia parcial se articulava com a estratégia geral: ela tinha em sua essência a necessidade de uma revolução nacional-democrática/antiimperialista, onde uma suposta burguesia nacional progressista seria a condutora do processo de libertação que superasse a dependência e o subdesenvolvimento, pois estes eram vistos como ausência de desenvolvimento capitalista, e não como parte de sua natureza de desenvolvimento desigual. Estes documentos do movimento estudantil, protagonista na luta pela reforma universitária, impressionam pela seriedade e profundidade, muito embora os erros. No entanto, é preciso reconhecer que aquele foi um dos poucos momentos em que o movimento universitário – com um grande protagonismo do movimento estudantil – colocou em pauta o seu próprio projeto de universidade para o debate e a partir dele deu orientação às lutas de massas. Aqueles eram documentos essencialmente programáticos que foram ganhando adesão e se transformando em uma ampla luta popular.

Mais recentemente, a partir dos anos 80, o ANDES-SN assumiu papel importante na formulação da Proposta do Andes-SN para a Universidade Brasileira, um documento programático de acúmulo de debates de diversos simpósios, reuniões, congressos e assembleias que culminaram nos Conselhos Nacionais de Associações Docentes (CONAD). O ANDES-SN, com esse documento e outros, tem feito uma combinação interessante entre a crítica ao modelo atual de universidade e a contra-reforma universitária e a apresentação de uma nova proposta da educação superior. Tal sistematização contribui muito para o estabelecimento de uma mediação prática entre os elementos da estratégia e a luta cotidiana. As propostas de universidade que não se ampararem na crítica ao modelo implementado no Brasil pelas últimas administrações FHC-Lula-Dilma, que nada mais são do que o aprofundamento de um padrão de ensino amparado nas orientações de diversos organismos internacionais imperialistas, não serão mais que uma farsa visando confundir e enfraquecer o movimento universitário que pretende a transformação profunda da universidade.

Em 2011, reunidos no SENUP – Seminário Nacional de Universidade Popular, diversas entidades, organizações e militantes sociais aprovaram a Carta de Porto Alegre, mais um documento programático que visa servir de base ao amadurecimento de uma proposta que dê sustentação à construção de um Movimento Nacional de luta pela Universidade Popular, que consiga fundir as três categorias da universidade às demandas do conjunto das classes trabalhadoras e camadas populares e suas organizações. O estabelecimento de um movimento deste tipo é uma necessidade para coordenarmos as lutas para além das questões corporativas, visando um acúmulo de forças sociais real e permanente, que seja capaz de no futuro romper com a dinâmica estabelecida pelo mundo social conservador incrustado nas instituições acadêmicas.

O que temos hoje são de um lado, setores completamente subservientes e na rabeira do governo federal e, por outro, setores combativos que ainda tem sido incapazes de apresentar seu próprio projeto, se limitando a lutas conjunturais que, mesmo com toda sua importância, em muitos momentos tem dificuldade de apresentar um acúmulo real que possibilite lutas ainda mais decisivas e estruturais. O que o SENUP fez, e depois decidindo pela criação do Grupo de Trabalho Nacional de Universidade Popular, nada mais é do que um tentativa séria de compreender o fio histórico da luta nacional por uma universidade que sirva ao povo brasileiro e, com seus erros e acertos, impulsionar a marcha da história para a frente. Não é monopólio de nenhuma organização ou grupo político.

A luta pela Universidade Popular é reformista: esta afirmação possui um fundo essencialmente conjuntural, que leva em consideração que há setores do PT, por exemplo, que tem defendido essa bandeira. Ora, primeiro é necessário saber qual parte do PT, segundo que nada podemos fazer se não só parte do PT utiliza universidade popular, como também se diz “dos trabalhadores”, assim como nada podemos fazer se o PCdoB se diz comunista, se o PSB se diz socialista, além de muitos outros exemplos. Ou melhor, podemos sim fazer uma coisa: disputar o conteúdo das palavras na luta real. Atualmente mesmo, vários partidos “socialistas” estão caindo na Europa, ou passam por crises graves, pois os trabalhadores não veem mais neles condições de levar suas aspirações adiante, de serem consequentes com sua luta. Se necessário – e é bem possível que será – no Brasil, teremos que derrubar muitos “socialistas”, “comunistas”, “trabalhadores”, “populares”, mas não se pode com isso concluir que devemos simplesmente inventar palavras novas: precisamos sim, é resignificá-las, e isso somente será possível em um amplo processo de luta.

Por fim, não há caminhos fáceis. A condição para o crescimento de nossa luta é traçar desde já um estratégia clara, que vá se aperfeiçoando conforme a luta e o estudo da realidade, que vá balizando cada ação do movimento no sentido do acúmulo de forças, que aponte um norte para além da ordem: e por aí, pelo difícil e gratificante caminho da luta revolucionária, construir sobre as ruínas da universidade a serviço do capital, uma Universidade Popular, em toda beleza de sua forma, e em toda profundidade de seu conteúdo.



[1] Militante da Juventude Comunista Avançando (JCA).

[2] Universidade crítica ao modo de produção capitalista e à exploração de uma classe por outra, criadora de ciência e tecnologia para a resolução dos problemas sociais e para a criação das bases para uma sociedade socialista, construída com o povo e para o povo, radicalmente democrática em sua forma e seu conteúdo, etc.

[3] A derrota da esquerda em 64 se deu em grande parte pela equivocada estratégia em duas etapas: primeiro, revolução nacional-democrática ou nacional-libertadora, depois revolução socialista. Este equívoco levou a alianças equivocadas que resultaram no imobilismo do movimento proletário e popular: ele ficou na cauda de uma suposta fração progressista da burguesia nacional que empreenderia as tarefas de uma revolução democrática. Veio o golpe e o movimento não pôde se defender.

[4] A contra-reforma universitária inicia em resposta ao amplo movimento pela reforma universitária da década de 60, tendo como marco a chamada “reforma consentida” de 68. Após uma breve desaceleração com o movimento pela democratização da década de 80, a contra-reforma voltou com força total após o “Consenso de Washington” e a “Declaração de Bolonha”, se intensificando ainda mais nos governos do PT.

[5] “em uma sociedade de classes da periferia do mundo capitalista e de nossa época não existem ‘simples palavras’.”[5] (...) Se a massa de trabalhadores quiser desempenhar tarefas práticas específicas e criadoras, ela tem de se apossar primeiro de certas palavras-chave (...). Em seguida, deve calibrá-las cuidadosamente, por que o sentido daquelas palavras terá de confundir-se, inexoravelmente, com o sentido das ações coletivas envolvidas pelas mencionadas tarefas históricas.” (FERNANDES, Florestan. “O que é Revolução?”, em Teoria da Organização Política II.Ademar Bogo (org.) São Paulo: Expressão Popular, 2006, p. 354 e 355).

[6] MARIATEGUI, José Carlos. “Ponto de Vista Antiimperialista”, em Teoria da Organização Política II. São Paulo: Expressão Popular, 2006, p. 29.

[7] Ibidem.

[8] Ibidem, p. 33 e 34.

[9] Trotsky também compreendeu isso, ao afirmar que a Rússia, com um capitalismo tardio, forjou uma classe dominante sem projeto nacional: “O capital financeiro da Europa industrializou a economia russa em um ritmo acelerado. A burguesia industrial adquiriu em pouco tempo um caráter de grande capitalismo inimigo do povo [grifos nossos]. Além disso, os acionistas estrangeiros viviam fora do país. Ao contrário, os operários eram, evidentemente, russos. Uma burguesia numericamente fraca, que não possuía nenhuma raiz nacional, encontrava-se, dessa forma oposta a um proletariado relativamente forte e com profundas raízes no povo.” TROTSKY, Leon. “O que foi a Revolução Russa?”, em Teoria da Organização Política III. SP: Expressão Popular, 2008, p. 144 e 145.

[10] “A social-democracia [quer dizer, os comunistas da época] lutou e luta, com pleno direito, contra o abuso democrático-burguês da palavra povo. Exige que com esta palavra não se encubra a incompreensão dos antagonismos de classe no seio do povo. Insiste categoricamente na necessidade de uma completa independência de classe do partido do proletariado. Mas divide o “povo” em ”classes” não para que a classe avançada se encerre em si mesma, se confine em limites estreitos, castre a sua atividade com considerações como a de que não se afastem os donos econômicos do mundo, mas para que a classe avançada, não sofrendo das vacilações, da inconsistência, da indecisão das classes intermediárias, lute com tanto maior energia, com tanto maior entusiasmo pela causa de todo o povo, à frente de todo o povo.” LENIN, V.I. “Duas táticas da social-democracia na revolução democrática”, em Obras Escolhidas T. I. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1979, p. 451 e 452.

[11] “Se o movimento socialista está na frente, por enquanto, ele exige algo de todos nós, uma tática política, qualquer que seja a nossa posição. Podemos ser gradualistas, reformistas; podemos ser revolucionários, até ultra-revolucionários; pacientes ou impacientes. Podemos até pensar que as nossas ideias criam a história, podemos pensar o que quisermos. Mas qualquer que seja o nosso grau de paciência ou de impaciência, o movimento está na frente e ele exige de todos que a definição intransigente do inimigo seja uma definição correta.” FERNANDES, Florestan. “Movimento socialista e Partidos Políticos”, em Teoria da Organização Política III. SP: Expressão Popular, 1° Ed., 2008, p. 422.

[12] CASTRO, Fidel. “La historia me absolverá”, em Selección de documentos, entrevistas y artículos (1952-1956). La Havana: Editora Política, 2007, p. 26 e 27.

[13]GUEVARA, Ernesto Che. Reforma Universitária y Revolución. Disponível em: http://marxists.org/espanol/guevara/59-17oct.htm, acesso em 29/03/2012.

[14] Idem. Discurso al recibir el doctorado honoris causa de la Universidad Central de las Villas. Disponível em: http://marxists.org/espanol/guevara/59-honor.htm, acesso em 29/03/2012.

[15] FERNANDES, Florestan. “Balanço da situação atual do ensino superior”, em Universidade Brasileira: Reforma ou Revolução?. São Paulo: Alfa-omega, 1975, p. 60)

[16] Sobre o tema ver: POERNER, Artur José. O Poder Jovem – história da participação política dos estudantes brasileiros. RJ: Civilização Brasileira, 2° Ed.