O que nos devem, queremos em dobro | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O que nos devem, queremos em dobro

100 bi. Esta é a cifra anunciada pela revista Veja referente à quantia, em reais, que o governo federal "despejou na economia" (leia-se, entregou de mão beijada à burguesia) desde meados do ano passado (ver o número 29, ano 45, da revista Veja, caso esteja com o estômago bem preparado). Mas para a Veja ainda era pouco. A matéria, já elogiosa ao governo Dilma, ainda continha críticas direcionadas a ele, mantendo a tradição que a Veja vinha desenvolvendo desde a eleição de Lula, a saber: associar os governos do PT a uma imagem de esquerda, e fazer críticas ainda mais pela direita, deixando transparecer sua verdadeira face, de cunho evidentemente fascista. O mesmo fez até agora o PSDB, e tudo isso manteve no ar – por toda uma década – uma falsa aparência de polaridade. Mas bastou que o povo voltasse a se organizar de forma expressiva na reivindicação de seus direitos para que a máscara e o rosto trocassem de lugar. Veja, Globo, FHC e PSDB, todos se manifestaram nas últimas semanas em total apoio à forma como Dilma vem tratando as greves e anunciando mais e mais pacotes de privatização (maquiada de concessão), em um ritmo realmente frenético. 

O que está por trás de tudo isso não é nada senão puro desespero. A taxa de crescimento da economia brasileira esperada para 2012 (mesmo com os 100 bi!) não ultrapassa 2%. A crise rastejante está cruzando o oceanos e por certo seus movimentos nas profundezas criam na superfície uma certa "marolinha", que Lula curiosamente já havia avistado e feito dela pouco caso. Mas agora a maré começa a baixar e já sabemos o que vem depois: tsunami. A evidência da crise está nos cálculos econômicos mais complexos, mas também se manifesta no dia-a-dia dos brasileiros. Enquanto todas as metrópoles brasileiras estão travadas porque não há sistema viário que dê conta de tanto automóvel particular (emperrando também todo o sistema de transporte coletivo), a única solução apresentada pelo governo federal (não para resolver o problema de transporte de ninguém, mas sim para "aquecer a economia") é reduzir o IPI sobre a produção de automóveis, acelerando a manifestação de uma crise de superprodução que já está deixando com muita dor de cabeça aqueles que precisam vender seu carro usado, e mesmo assim (e mesmo com os 100bi!) a GM não faz outra coisa senão demitir seus trabalhadores. 

Cada medida que promete redenção fracassa em poucas semanas. A tão condenada taxa básica de juros, que supostamente era o único entrave para o desenvolvimento da economia brasileira, mostrou (ao chegar aos 8%, menor percentual da história) que todo aquele discurso era papo furado. E assim a justa indignação do povo vai crescendo e crescendo. Se foi possível conter por 10 anos os movimentos sociais através da aparência de que nosso governo é de esquerda e é do povo, isso se deveu muito mais ao fato de que se tratou de um período de relativo crescimento econômico do que propriamente aos discursos e à história de Lula e do PT. Com crise e desemprego, ou seja, sem as condições materiais de sobrevivência, não há demagogia que se sustente, e a frase célebre de Luiz Carlos Prestes nunca esteve tão viva: "o povo não se deixará matar de fome sem lutar". O fim da linha está próximo para este tipo de política. E como esta política já foi uma forma de requentar a velha autocracia, já muito desgastada, agora o sumo vai ficando deveras escasso, quase não há mais o que espremer. A crise da "era PT" é a expressão de uma dificuldade com a qual se depara a totalidade da classe dominante brasileira. 

Nunca foi tão evidente que o capitalismo está velho e cansado. Está vendo a cova e já não tem forças para saltar por cima dela. Não estamos nem um pouco interessados em pular nesta cova para salvá-lo, nem em pagar o preço da barbárie generalizada que seu colapso pode vir a acarretar. A questão é: não há saída para a burguesia. Aliás, a questão é: só há saída com a saída de cena da burguesia. Depois de tanto ter sido anunciado o fim das utopias, a morte do socialismo, e tantas outras baboseiras, é o seu inverso que se mostra verdadeiro: nunca foi tão necessário traçar uma estratégia que aponte para uma alternativa real para a humanidade. Não se pode seguir na luta apenas por conquistas pontuais, trata-se de construir um projeto que permita que cada luta esteja ligada à necessidade de que os próprios trabalhadores assumam o controle da sociedade. Esta estratégia precisa levar em conta que o capitalismo brasileiro tem suas particularidades, e a principal delas é que irá morrer deixando como herança uma série de problemas que ele próprio deveria ter resolvido. Nos deixará tendo que enfrentar, por exemplo, o latifúndio, inço que em outros países já foi enfrentado séculos atrás pela própria burguesia. Esta estratégia precisa levar em consideração que é preciso criar condições para o desenvolvimento do socialismo, que o socialismo será construído por gente, que essa gente precisa pegar o destino nas mãos, e que para isso é necessário partir das questões concretas e mais sentidas pelo povo. Cabe uma ressalva fundamental: partir das questões mais sentidas é completamente diferente de lutar apenas pelas questões mais sentidas, como se assim, "naturalmente", fôssemos chegar ao socialismo. Nosso dever histórico é lutar pelo socialismo, nossa condição histórica é partir da realidade concreta, do capitalismo como ele existe no Brasil. 

A últimas medidas do governo Dilma com relação às greves, e mais os 100 bi, constituem, de certa forma, a expressão de qual capitalismo é esse. Os 100 bi foram entregues pelo estado à burguesia porque o próprio estado é burguês (assim como o atual governo) e, no Brasil, autocrático. Eram 100bi que, em tempos "normais", a burguesia deixaria de expropriar diretamente do povo. Mas em tempos de crise ela não pode abrir mão de nada e a tendência é que sua posição de parasita se evidencie ainda mais. Nossa tarefa é reconquistar o que é nosso: "expropriar os expropriadores", porque adaptando aquele ditado popular (com o perdão pelo massacre da rima): expropriador que expropria expropriador tem 100 bilhões de perdão.

José Rodolfo Pacheco Thiesen - JCA