JCP fala sobre o golpe no Paraguai | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

JCP fala sobre o golpe no Paraguai

Entrevista cedida à JCA por Rolando Amarilla, durante o seminário internacional de solidariedade entre os povos, organizado pela União da Juventude Comunista (UJC-Brasil).

Conte-nos o que aconteceu em Curuguaty.

Rolando: Em Curuguaty morreram sete policiais e onze camponeses, em um massacre orquestrado pela oligarquia nacional para dar base ao golpe de estado, que depois se implementou. Na verdade houve uma terceira força de ataque, que não disseram os periódicos, nem a imprensa. Acreditamos que são paramilitares ligados ao narcotráfico e ao Partido Liberal. Os policiais mortos em Curuguaty foram assassinados com precisão, com tiros de longa distancia, com armas que os camponeses não possuíam. Em realidade foi um massacre, estamos muito seguros disso.

Emboscaram os policiais para que houvesse repressão, para matar os sete dirigentes – porque estes, dos onze assassinados, são dirigentes e quadros importantes do movimento camponês – e também para criar uma desculpa para o golpe de estado e desviar a atenção do parlamento.


Qual é a situação do campo e do latifúndio no Paraguai?


Rolando: O Paraguai é um país eminentemente rural, com 48% da população camponesa. 80% da terra, um total de aproximadamente dez milhões de hectares (dos 17 milhões que tem o país) estão concentradas nas mãos de 2% da população. Nós temos um sistema extrativista rural, um agronegócio dominado por um setor da oligarquia brasileira e por outro setor ligado ao narcotráfico. Somos o terceiro maior produtor de soja do mundo e, ao mesmo tempo, somos um dos menores países da América Latina. Não temos indústrias no Paraguai, por isso, acreditamos que o agronegócio é extrativista, porque extrai nossas riquezas e a única fonte de riquezas que temos é a terra, através disso, se geram muitas desigualdades dentro do nosso país.


O PCP vem denunciando a lei antiterrorista, de que se trata essa lei?


Rolando: Essa é uma lei que foi impulsionada pelo imperialismo norte americano, depois da farsa do 11 de setembro. É a mesma lei que foi aprovada na Colômbia e na Argentina, há aproximadamente um ano, com o repúdio dos movimentos sociais. Foi apresentada pela primeira vez na América Latina, no Paraguai em 2004/2005, quando os movimentos sociais conseguiram barrar, porque é uma lei que criminaliza as lutas sociais. Há artigos que dizem, inclusive, que qualquer pessoa que colabora, entendendo colaboração como provisão de água e alimentos ou mobilizações de fechamento de ruas, será considerada terrorista. Ou seja, todas as ações diretas, que são as armas do povo, essa lei estabelece como ações terroristas: a ocupação de terras, o fechamento de ruas... Então é uma criminalização da luta que o governo Lugo aprovou e implementou.

Depois de uma longa luta, ante a ascensão de Lugo, conseguiu-se trancar essa lei, mas Lugo conseguiu descabeçar os movimentos sociais, mais ou menos como fez Lula aqui no Brasil, e incluí-los no estado. Através disso foi possível apresentar novamente essa lei, às escondidas e pelas costas dos movimentos sociais.

Essa é uma lei imperialista, proposta pelos organismos de seguridade norte americanos, que criminaliza as lutas sociais e todos os seus mecanismos.


Ontem você falou do candidato a presidente pelo Partido Colorado...


Rolando: Um dos responsáveis pela organização do golpe junto com o oligarca Galaverna, é Oracio Cartes, o principal candidato a presidente do Partido Colorado, que provavelmente vencerá as eleições internas deste partido. É uma pessoa que está historicamente ligada ao narcotráfico e ao cultivo de maconha no país, foi perseguido pelo Primeiro Comando da Capital, o cartel narcotraficante brasileiro, já esteve preso por dois anos no Brasil por vínculos com o narcotráfico e tem, inclusive, cicatrizes no rosto feita pelos criminosos do PCC. Ele é a pessoa que maneja toda produção de maconha no Paraguai.

O WikiLeaks descobriu através da página na internet, que o DEA (Departamento de Estado Americano) o caracterizava como o terceiro maior narcotraficante da América Latina. Coincidentemente os EUA o declaravam como procurado, a DEA o procurava, ele estava proibido de entrar nos EUA por estar vinculado ao narcotráfico, mas em janeiro ele fez uma viagem aos EUA e teve a ficha limpa.

Numa segunda oportunidade, em junho, ele volta a viajar para os Estados Unidos. Estamos seguros de que essas viagens foram feitas para articular o golpe e, se ele se pusesse a disposição para encabeçá-lo, em troca teria a ficha limpa.

Como está o movimento contra o golpe de estado?

Rolando: Criou-se uma Frente em Defesa da Democracia (FDD), onde o Partido Comunista Paraguaio está, com todos os setores progressistas e movimentos sociais. Nós não reconhecemos o governo de Frederico Franco. O Partido Comunista não apoia Fernando Lugo, retirou seu apoio em 2010, mas reconhecemos ele como único presidente legitimamente eleito. O golpe de estado, além de tirar Lugo do poder, é uma mensagem clara à esquerda, de que a direita não vai deixar que se aprofundem os processos democráticos e a reforma agrária.


O PCP havia acabado de conquistar o reconhecimento legal e o direito de participar nas eleições paraguaias. O que isso significa para vocês, o que muda na política do partido com essa conquista?


Rolando: O PCP atingiu essa conquista depois de 76 anos de ilegalidade, em abril conseguimos voltar a legalidade, mas também entendemos e não nos iludimos. É uma ferramenta a mais para lutar, mas sabemos que não é a única ferramenta, porque fomos aceitos sob uma legalidade totalmente burguesa. O PCP está lutando contra o sistema, não somos eleitoralistas, embora acreditemos que, em abril de 2013, se definirá o futuro do país, com a eleição presidencial. Saberemos se o país irá virar um pouco mais à direita, se o governo vai se tornar fascista ou se poderá seguir com um processo um pouco mais democrático.

Nós temos a legalidade agora, mas acreditamos que não é momento de nos apresentarmos sozinhos, por isso, acreditamos que a frente Guaçu, que em guarani quer dizer Frente Ampla, é a saída para esse momento eleitoral. A legalidade nos serve para o trabalho para fora e para o reconhecimento, para propaganda, mais que qualquer outra coisa.


Como está o movimento de solidariedade internacional com a luta do povo paraguaio?


Rolando: O movimento de solidariedade internacional sente-se completamente paraguaio. Como partido, acreditamos e estamos seguros de que se não fosse pelo apoio internacional, inclusive dos governos socialdemocratas da região, neste momento estaria acontecendo um desmantelamento físico e assassinatos da direção partidária e dos movimentos sociais.

O apoio internacional é fundamental, ao não reconhecer este governo, e é fundamental para militância revolucionária também, para dar proteção política. A única ferramenta e o fio que nos sustenta é a solidariedade internacional.

Vocês estão sofrendo ou temem por perseguições, ameaças e tentativas de assassinato a membros do PCP?

Rolando: Esse é o objetivo final do golpe, além de derrubar Lugo, como disse a pouco, é uma perseguição à esquerda e também uma tentativa de enfraquecer a esquerda para as próximas eleições, porque, como todos sabem, ao ter a maquina estatal, se tem mais força eleitoral, então acreditamos que tudo depende de 2013. Esse processo de Frederico Franco, onde a embaixada está metida no Ministério de Interior, fazendo um trabalho de inteligência e identificação, acreditamos que se a direita chega de volta ao poder, irão começar os desmantelamentos e perseguições. Não como uma ditadura ou como um genocídio, mas seletivamente. Estamos seguros de que, depois de 2013, se voltar a direita, vão começar os assassinatos à direção, tanto comunista como social.


Como vocês veem essa tentativa golpista que se construía na Bolívia?


Rolando: Está totalmente ligado, o golpe de estado no Paraguai é uma cópia, com suas particularidades, do golpe em Honduras. É um plano de desestabilização, um aviso do imperialismo norte americano à região, o que aconteceu no Paraguai não é só um aviso aos movimentos sociais no Paraguai, mas ao movimento internacional de integração, é um golpe muito forte para a classe, um golpe muito forte para o MERCOSUL. A direita paraguaia está apresentando, neste momento, projetos de lei para sair do MERCOSUL e da UNASUR, por isso acreditamos que o objetivo final da embaixada norte-americana é fortalecer uma segunda Colômbia, uma segunda base de operações, tanto militar, quanto ideológica no Paraguai e promover o isolamento de nossos povos, como sempre tentou fazer o imperialismo. 

Publicado originalmente no JA no. VIII