Nem revisionismo nem dogmatismo: A importância de se aproveitar todo o acúmulo do desenvolvimento do conhecimento humano | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Nem revisionismo nem dogmatismo: A importância de se aproveitar todo o acúmulo do desenvolvimento do conhecimento humano

Karl Marx é o melhor exemplo do quanto é importante aproveitarmos o acúmulo desenvolvido pelo conhecimento humano. Aproveitou a economia inglesa, a filosofia alemã, o socialismo utópico francês  que eram todas teorias limitadas, mas o que ele fez não foi simplesmente negar essas teorias, mas sim transcender elas. Ele aproveitou aquilo que nelas contribuía para um conhecimento da realidade concreta e negou aquilo que só mistificava a realidade.

Seguir a ortodoxia necessária do método materialista dialético, não significa negar que podem existir contribuições teóricas importantes mesmo em autores que podem possuir erros teóricos e políticos. Podemos - por exemplo - discordar da tese Trotskista, mas é inegável que Mandel trouxe contribuições importantes pra entender o capitalismo tardio (inclusive os piores trotskistas negam a contribuição de Mandel). Podem existir marxistas que veem problemas na trajetória política de Lukács e Mészáros, mas é inegável que a contribuição deles sobre a ontologia do ser social, o resgate do método de Marx, a crise estrutural do capital, a teoria da transição, etc. é essencial para uma atualização concreta e criativa do marxismo.

É possível apreendermos as principais contribuições de Lukács, Mészáros sem negar a essência do Leninismo, pois o essencial da contribuição de Lênin - a compreensão do imperialismo, a vanguarda como necessidade inevitável, o partido revolucionário, etc. - não é algo antagônico às contribuições de Lukács e Mészáros, pelo contrário, estão no campo do mesmo método e da mesma compreensão de totalidade. 

Podemos discordar de algumas posições políticas de Florestan Fernandes, como por exemplo a sua concepção de partido (embora em 1994 Florestan discordou seriamente do partido ter tido campanhas financiadas por grandes empresas e já cogitava sair do PT(1)). Luiz Carlos Prestes, reafirmando uma concepção revolucionária de partido, dizia: "Não se pode separar a elaboração de uma estratégia revolucionária da tarefa de construção de uma organização revolucionária" e nos anos 80 Prestes já percebia e afirmava que o PT - embora tivesse operários em sua base - era um partido burguês (2). Mas essa discordância não impediu Prestes de reconhecer que as análises concretas que Florestan fez sobre o capitalismo dependente brasileiro eram fundamentais para a elaboração da estratégia da revolução brasileira.

Se não tivermos essa capacidade de fazer sínteses e de transcender as contribuições existentes para chegar a formulações concretas e atuais, não daremos conta do nosso desafio histórico. Afinal, "sem teoria revolucionária não há prática revolucionária", e teoria revolucionária não se faz só na vontade ou no culto de algumas figuras, mas sim no desenvolvimento criativo do materialismo dialético.

Enfim, não podemos nem cair no dogmatismo de achar que o combate ao revisionismo se resume a cultuar algumas figuras (Stálin, Trotsky ou Mao) e negar todas as contribuições existentes, e nem cair no revisionismo de "jogar a criança fora junto com a água do banho" negando a essência do marxismo e do leninismo que seguem atualíssimas.

Davi Perez (JCA)


(1) Ver a entrevista com Florestan Fernandes no programa Roda Viva em 1994: http://www.youtube.com/watch?v=6pjiw0jrZbw

(2) Afirmação extraída de entrevista contida no livro "Prestes com a palavra: Uma seleção das principais entrevistas do líder comunista" de Denis de Moraes (1997). Ver página 342.