O fascismo ressurge disfarçada e declaradamente | Juventude Comunista Avançando

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O fascismo ressurge disfarçada e declaradamente


Para muitos, falar em fascismo é falar de um período histórico que já ficou para trás, lá no início do século XX, quando a Europa viveu os terríveis anos dos regimes de Hitler, Mussolini, Salazar e Franco. Porém, cada vez mais os acontecimentos da atualidade retomam expressões desse tempo e trazem à tona o debate sobre a permanência do fascismo em suas distintas formas. 

As recentes eleições na Grécia alertaram o mundo todo que o fascismo não só ainda existe como tem ganhado expressão na população em geral. O partido grego Aurora Dourada, declaradamente fascista, chama a atenção por obter 6,9% dos votos e conseguir a posição de quinta força mais votada. Não podemos inferir, sem uma análise mais abrangente, que esse aumento no número de votos corresponda a uma identificação plena com o fascismo, mas, por outro lado e não menos preocupante, podemos concluir que esses são votos de pessoas que não rechaçam essa ideologia e tudo pelo que ela foi responsável na história da humanidade. Nesse sentido, estudos como os do comunista italiano Antônio Gramsci nos mostram que as experiências fascistas do século passado contaram com uma aceitação de massa, pois habilmente jogavam com propostas que faziam a mediação com as necessidades do povo ao mesmo tempo em que com mãos de ferro impediam qualquer forma de contestação, o que era necessário para garantir a consolidação do capitalismo monopolista como forma de superar a grave crise enfrentada naquela época e que culminou na II Guerra Mundial. 

Para compreendermos a experiência histórica do fascismo é fecundo o esforço teórico-prático militante de Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano (PCI), que em setembro de 1920 já percebia a ascensão do fascismo ao poder do Estado na Itália. Uma de suas tantas contribuições foi identificar a relação entre a democracia burguesa e o fascismo como aspectos de uma mesma realidade, duas formas diversas de uma mesma ação, a ação promovida pela classe burguesa para deter o avanço da classe proletária. Em 1924, afirma que "a democracia organizou o fascismo quando sentiu que não podia mais resistir, mesmo num quadro de liberdades apenas formais, à pressão da classe trabalhadora"[1]. 

Essas reflexões são fundamentais para auxiliar na compreensão do momento histórico atual marcado pela crise estrutural do sistema do capital, que vem sendo delineada desde a década de 1970 e de forma mais evidente a partir de 2008. As recentes ondas de manifestações na Europa em rechaço aos pacotes de austeridade, somados à precarização das condições de trabalho e ao crescente desemprego são expressão desse momento em que é visível o desespero da burguesia em buscar formas de garantir seus lucros, levando assim a maioria da população a um nível insuportável de exploração. 

Outro elemento importante é que essa crise afeta principalmente o país hegemônico desse sistema: os EUA. O que explica porque é também esse o país que mais fabrica falsos motivos para iniciar guerras pelo globo inteiro, como a ideologia da "guerra contra o terrorismo", própria de um sistema econômico que não sabe como sair da crise que ele mesmo criou. Como coloca o filósofo húngaro István Mészáros, na crise estrutural geral das instituições do capitalismo, as "instituições capitalistas são edificadas sob a premissa de guerra se fracassam os métodos de expansão"[2] – já que os graves problemas da acumulação e concentração do capital são irremediavelmente adiados e transferidos ao terreno militar. 

Para o autor, a ‘solução’ fascista não pode ser adotada facilmente pelos grupos de poder, “por acarretar uma terceira guerra mundial, e porque a atual estrutura de produção de mercadorias exige um superconsumo sempre crescente de produtos em grande parte indesejados, que não pode ser provocado sob a mira de um revolver”, o que não impede em médio prazo a fascistização crescente das práticas imperialistas, e a combinação de formas de autocracia burguesa, além da possível repetição de casos como a dos países "sob a tutela dos EUA – de Espanha e Portugal até vários países latino-americanos –, que puderam adotar um tipo de solução fascista para seus problemas, por serem sem uma única exceção, não somente economicamente subdesenvolvidos, como também impotentes para afirmar uma política externa independente”. A crise ideológica atual, comenta o autor, "faz parecer insignificante a 'crise da democracia' que antes havia provocado o fascismo como 'solução' para garantir as necessidades da produção de mercadorias e encerra em si o perigo de provocar uma III Guerra Mundial", mesmo que o resultado não atenue os efeitos gerados pelo antagonismos da crise do capital, o que não torna muito arriscado afirmar aqui que disse o comunista português Miguel Urbano (tomando as devidas ressalvas acima elencadas), de que os EUA pode ser sim o candidato ao título de IV Reich.


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[1] GRAMSCI, Antônio. Escritos políticos. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, pag. 284.
[2] MÉSZÁROS, István. A Crise Estrutural do Capital. São Paulo: Ed. Boitempo, 2011, pag. 65.

Publicado originalmente no JA no. VIII