“Desorganização popular ainda é muito grande no Brasil”, afirma Anita Prestes | Juventude Comunista Avançando

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

“Desorganização popular ainda é muito grande no Brasil”, afirma Anita Prestes

Filha de Prestes e Olga, a historiadora Anita Prestes analisa os desafios para a esquerda na América Latina

25/10/2012

Vivian Virissimo,
do Rio de Janeiro (RJ)
Brasil de Fato

Filha dos militantes políticos Luís Carlos Prestes e Olga Benário, a historiadora e professora Anita Prestes palestrou no primeiro módulo do curso “Brasil de Fato – Atualidades e desafios das lutas na América Latina” realizado no dia 10 de outubro, na sede do Sindipetro, no Rio de Janeiro. Nesta entrevista, Anita destacou que transformações profundas na sociedade brasileira só serão possíveis por meio da organização dos setores populares. “Dessa organização popular surgirão lideranças que deverão construir um ou mais partidos que liderem esse processo”, defendeu.

Segundo ela, além da organização popular há necessidade de articulação de outro aspecto fundamental: a formação da consciência política dos movimentos, sobretudo de suas lideranças. “Porque se esses setores populares organizados não souberem para onde vão e para o que eles têm que lutar eles serão levados à derrota – na melhor das hipóteses”, lembra.



Brasil de Fato – O tema geral do curso do Brasil de Fato é “Atualidade e os desafios das lutas na América Latina”. Na sua visão, qual é o maior desafio das lutas na América Latina hoje?

Anita Prestes – É difícil dizer qual é o maior desafio. Parece-me que no momento é defender e assegurar a continuidade da revolução na Venezuela, que é o ponto mais avançado das lutas pelas transformações profundas, sociais e políticas, tendo em vista em longo prazo o socialismo. Essa eleição com a vitória do presidente Hugo Chávez foi um momento muito importante de reafirmação deste processo. Mas não se pode perder a vigilância porque se de um lado foi uma vitória, por outro lado, o inimigo, principalmente o imperialismo, vai fazer tudo para reverter essa vitória. Portanto é muito importante que as forças democráticas, progressistas, de esquerda no continente e diria mais, no mundo, estejam atentos para impedir qualquer provocação e qualquer retrocesso nesse processo que seria muito ruim não só para o povo venezuelano, mas para toda a América Latina.

O que falta no Brasil para termos estas transformações profundas?

Eu diria que só conseguiremos estas transformações profundas com o socialismo. Com o regime socialista, que é o exemplo de Cuba, isso ficou muito claro. A própria ONU e outras entidades internacionais reconhecem que em Cuba foi resolvido o problema da saúde pública, do ensino público. Um país pequeno, com limitações muito grandes do ponto de vista da economia, das suas riquezas naturais, ainda por cima com um bloqueio violento de 50 anos e conseguiu resolver esses problemas com o regime socialista. Claro que no Brasil não vamos conquistar o socialismo da noite para o dia, pois é um processo longo e demorado e acho que só chegaremos lá por meio da organização popular. Dessa organização popular surgirão lideranças que deverão construir um ou mais partidos que liderem esse processo. Eu vejo dessa maneira.

Como a senhora avalia a atuação das esquerdas na preparação das forças sociais nesse processo de organização popular? O que se avançou e o que precisa melhorar?

Avançou-se bastante em termos de organização popular principalmente com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Pela primeira vez no Brasil, temos realmente um movimento que abrange todo o território e que tem feito mobilização dos setores dos trabalhadores expulsos pelo agronegócio. Então esse movimento é um avanço, se a gente olha para o passado do Brasil em que as classes dominantes sempre conseguiram evitar e impedir a organização popular. Mas isso ainda é muito pouco. Os próprios companheiros do MST reconhecem que nas cidades – 90% da população brasileira é urbana – o movimento dos trabalhadores ainda está muito desorganizado, sob influência dos chamados pelegos: lideranças sindicais que invés de levar adiante a luta pelos interesses dos trabalhadores conciliam com os interesses dos patrões: essa é a realidade. Então o movimento sindical urbano deixa muito a desejar, a desorganização popular ainda é muito grande no Brasil, as chamadas esquerdas são muito esfaceladas e com pouquíssima penetração. Lembrando o que meu pai, Luís Carlos Prestes, sempre dizia, vai ser a partir das lutas populares que surgirão novas lideranças. A própria prática do MST mostra isso: na medida em que houve lutas, surgiram novas lideranças. E as mais lúcidas e comprometidas com os interesses populares inevitavelmente terão que marchar para aprofundar seus conhecimentos do marxismo, a única teoria que permite realizar transformações viáveis e que conduzam ao socialismo. Então essas lideranças terão que organizar partidos efetivamente revolucionários. O que, por enquanto, considero que não existe no Brasil.

Numa perspectiva histórica, a senhora analisa que até mesmo lideranças progressistas desestimulam a organização popular no Brasil. Por que isso ocorreu?

Esse período muito extenso de mais de vinte anos de ditadura impediu o surgimento de novas lideranças e as antigas foram morrendo: Arraes, Brizola, o próprio Prestes. Hoje em dia no Brasil temos muito poucas lideranças. Uma grande liderança atual que nós temos é o Lula. Fora disso não existe outra liderança. E essas lideranças que faleceram eram todas lideranças burguesas que, portanto, não tinham interesse em organizar os trabalhadores. Com exceção do Prestes, que era do PCB, partido que cometeu muitos erros, mas que também foi muito combatido e reprimido. Fora esse caso, o Arraes, Brizola e o próprio Jango eram políticos que tinham enraizamento popular, tinham influência, mas não estavam interessados em organizar as massas populares porque eram caudilhos que temiam que o movimento popular pudesse passar por cima deles. Aí os interesses burgueses se sobrepõem. Só lideranças que estejam comprometidas com os interesses populares serão capazes de se empenhar na organização popular. E, lamentavelmente, não é o caso do Lula.

Não se trata simplesmente ter uma base popular, mas organizar essa base.

Organizar essa base para lutar. E organizar não só do ponto de vista de unificar e ter uma estrutura orgânica, mas também lhe dar consciência política e revolucionária. Há necessidade de articulação desses dois aspectos: organização e consciência porque se esses setores populares organizados não souberem para onde vão e para o que eles têm que lutar eles serão levados à derrota – na melhor das hipóteses. Então isso só pode ser feito por um partido político que tenha clareza disso e, na minha opinião, nós não temos esse partido. E Lula, lamentavelmente, também não quis cumprir esse papel. Ele mesmo diz que repudia os livros e, além disso, ele sofreu muita influência de intelectuais que o levaram pelo caminho do reformismo, da conciliação, de ter o poder pelo poder. Fazer doação aos pobres, no fundo, é uma atitude populista e paternalista que não rompe com as estruturas existentes. Acabou distribuindo migalhas para os trabalhadores.

A senhora falou do MST como um exemplo de movimento que consegue ter o mínimo de organicidade e citou o entrave que é a dificuldade de organizar os trabalhadores nas cidades. Por que é tão difícil organizar o povo nas cidades?

É difícil porque historicamente não temos no Brasil tradição de organização popular. Pela própria formação histórica do Brasil, tivemos essa classe dominante de senhores de terra e de escravos durante séculos. A escravidão só acabou no final do século 19 e essa classe dominante brasileira conseguiu construir um aparato de Estado extremamente unificado e repressor que impediu qualquer movimento. Olhando a história do século 19 pipocaram movimentos populares, todos esmagados com uma violência gigantesca. Se olharmos para o século 20 a mesma coisa. Pelo estudos que eu fiz, o único movimento brasileiro que teve algumas características populares e que não foi derrotado, embora não tenha sido vitorioso, foi a Coluna Prestes. Eles não conseguiram derrotar, mas também não se conseguiu o objetivo que era tomar o poder, derrubar o presidente, mas conseguiu sair do Brasil sem ter sido derrotada e derrotou 18 generais do Exército brasileiro. Eu não conheço nenhum outro movimento de caráter popular que não tenha sido derrotado com muita violência. Então essa tradição é um peso muito grande que a gente carrega, dificulta muito. O brasileiro urbano não tem tradição de organização, já no campo surgiu o MST com o apoio da igreja com as comunidades de base, nos anos de 1980, que desempenharam um papel muito importante.

Nas cidades, os sindicatos brasileiros eram muito organizados e combativos. Em que momento houve foi essa ruptura?

Com o golpe de 1964, o que havia de combativo foi esmagado também. Aí os pelegos tomaram conta. Hoje a gente vê o movimento sindical basicamente na mão de setores que ao invés de serem lideranças dos trabalhadores acabam sendo defensores dos interesses da burguesia e do Estado. Esse é um problema muito sério que vai ter que ser vencido. Eu considero que que há algo novo nas greves que têm acontecido no último ano, greves importantes nas usinas do PAC que estão sendo construídas na Amazônia com a paralisação de trinta mil trabalhadores. Mas o que falta a esses movimentos grevistas? Lideranças de um partido revolucionário que estivesse lá para liderar esse movimento. São explosões. Explosões espontâneas acontecem, acabam e não vão pra frente.