Há 148 anos se iniciava um capítulo vergonhoso da história do Brasil | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Há 148 anos se iniciava um capítulo vergonhoso da história do Brasil



No dia 26 de dezembro de 1864 se iniciava a Guerra da Tríplice Aliança, mais conhecida no Brasil como Guerra do Paraguai (nome que ainda carrega a carga ideológica que a justificou). "Uma guerra de extermínio que se incorporou à história da América Latina como seu capítulo mais infame", nas palavras de Eduardo Galeano.


Por isso publicamos este trecho do livro de Galeano, As veias abertas da América Latina, que trata do assunto. Para não deixar que a "história oficial" conte uma única e mentirosa versão sobre algo que modificou tão profundamente os rumos de um país nosso irmão. Recentemente, um pupilo de Stroessner volta à presidência do Paraguai através de um golpe de Estado, mostrando como segue atual a necessária crítica a este episódio.

A guerra da tríplice aliança contra o Paraguai aniquilou a única experiência, com êxito, de desenvolvimento independente*

Eduardo Galeano [1976]

O homem viajava a meu lado, silencioso. Seu perfil, nariz afilado, altos pômulos, se recortava contra a forte luz do meio-dia. Íamos a Assunção, partindo da fronteira do sul, num ônibus para vinte pessoas que continha, não sei como, cinqüenta. Ao fim de algumas horas, fizemos uma parada. Sentamo-nos num pátio aberto, a sombra de uma árvore de folhas carnosas. A nossos olhos, se abria o brilho cegante da vasta, despovoada, intacta terra vermelha: de horizonte a horizonte, nada perturba a transparência do ar no Paraguai. Fumamos. Meu companheiro, camponês guarani, articulou algumas palavras tristes em castelhano: “Os paraguaios somos pobres e poucos”, me disse. Explicou-me que havia baixado a Encarnación para procurar trabalho, mas não tinha encontrado. Mal pudera juntar alguns pesos para a passagem de volta. Anos atrás, quando moço, tentara a sorte em Buenos Aires e no sul do Brasil. Agora vinha a colheita de algodão e muitos trabalhadores braçais paraguaios rumavam, como todos os anos, à Argentina. “Porém eu já tenho sessenta e três anos. Meu coração já não suporta mais este tipo de coisa”.

Somam meio milhão os paraguaios que abandonaram a pátria, definitivamente, nos últimos vinte anos. A miséria empurra os habitantes do país que era, há um século, o mais avançado da América do Sul. O Paraguai tem agora uma população que apenas duplica a que tinha, naquela época, e é, com a Bolívia, um dos dois países sul-americanos mais pobres e atrasados. Os paraguaios sofrem a herança de uma guerra de extermínio que se incorporou à história da América Latina como seu capítulo mais infame. Chamou-se a Guerra da Tríplice Aliança. Brasil, Argentina e Uruguai tiveram a seu cargo o genocídio. Não deixaram pedra sobre pedra nem habitantes varões entre os escombros. Embora a Inglaterra não tenha participado diretamente na horrorosa façanha, foram seus mercadores, seus banqueiros e seus industriais que se beneficiaram com o crime do Paraguai. A invasão foi financiada, do começo ao fim, pelo Banco de Londres, a casa Baring Brothers e banco Rothschild, em empréstimos com juros leoninos que hipotecaram o destino dos países vencedores [1].

Até sua destruição, o Paraguai se erguia como uma exceção na América Latina: a única nação que o capital estrangeiro não tinha deformado. O longo governo de mão-de-ferro do ditador Gaspar Rodríguez de Francia (1814-1840) incubaram, na matriz do isolamento, um desenvolvimento econômico autônomo e sustentado. O Estado, onipotente, paternalista, ocupava o lugar de uma burguesia nacional que não existia, na tarefa de organizar a nação e orientar seus recursos e seu destino. Francia tinha-se apoiado nas massas camponesas para esmagar a oligarquia paraguaia e conquistado a paz interior estendendo um rigoroso cordão sanitário frente aos restantes países do antigo vice-reinado do rio da Prata. As expropriações, os desterros, as prisões, as perseguições e as multas não serviram de instrumentos para a consolidação do domínio interno dos fazendeiros e comerciantes senão que, pelo contrário, foram utilizados para sua destruição. Não existiam, nem existiriam mais tarde, as liberdades políticas e o direito de oposição, porém naquela etapa histórica só os nostálgicos dos privilégios perdidos sofriam a falta de democracia. Não havia grandes fortunas privadas quando Francia morreu, e o Paraguai era o único país da América Latina que não tinha mendigos, famintos nem ladrões [2]. Os viajantes da época encontravam ali um oásis de tranqüilidade, em meio das demais comarcas convulsionadas pelas guerras contínuas. O agente norte-americano Hopkins informava em 1845 a seu governo que no Paraguai “não tem menino que não saiba ler e escrever...”. Era também o único país que não vivia com o olhar cravado no outro lado do mar. O comércio exterior não constituía o eixo da vida nacional; a doutrina liberal, expressão ideológica da articulação mundial dos mercados, carecia de respostas para os desafios que o Paraguai, obrigado a crescer para dentro por seu isolamento mediterrâneo, estava se colocando desde os princípios do século. O extermínio da oligarquia possibilitou a concentração das alavancas econômicas fundamentais nas mãos do Estado, para levar em frente esta política autárquica de desenvolvimento dentro de suas fronteiras.

Os governos posteriores de Carlos Antonio López e de seu filho Francisco Solano continuaram e vitalizaram a tarefa. A economia estava em pleno crescimento. Quando os invasores apareceram no horizonte, em 1865, o Paraguai contava com uma linha telegráfica, uma ferrovia e uma boa quantidade de fábricas de materiais de construção, tecidos, lenços, ponchos, papel e tinta, louça e pólvora. Duzentos técnicos estrangeiros, muito bem pagos pelo Estado, prestavam sua colaboração decisiva. Desde 1850, a fundição de Ibycui fabricava canhões, morteiros e balas de todos os calibres; no arsenal de Assunção eram produzidos canhões de bronze, obuses e balas. A siderurgia nacional, como todas as demais atividades econômicas essenciais, estava em mãos do Estado. O país contava com urna frota mercante nacional, e tinham sido construídos no estaleiro de Assunção vários dos navios que ostentavam o pavilhão paraguaio ao longo do Paraná ou através do Atlântico e do Mediterrâneo. O Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior: a erva-mate e o tabaco abasteciam o consumo do sul do continente; as madeiras valiosas eram exportadas para a Europa. A balança comercial mostrava um grande superávit. O Paraguai tinha uma moeda forte e estável, e dispunha de suficiente riqueza para realizar enormes inversões públicas sem recorrer ao capital estrangeiro. O país não devia nem um centavo ao exterior e, além disso, estava em condições de manter o melhor exército da América do Sul, contratar técnicos ingleses que se punham a serviço do país em lugar de pôr o país a seu serviço, e enviar à Europa alguns jovens universitários paraguaios para aperfeiçoarem seus estudos. O excedente econômico gerado pela produção agrícola não se desperdiçava no luxo estéril de uma oligarquia inexistente, nem ia parar nos bolsos dos intermediários, nem nas mãos bruxas dos agiotas, nem no item de lucros que o Império britânico nutria com os serviços de fretes e seguros. A esponja imperialista não absorvia a riqueza que o país produzia. Noventa e oito por cento do território paraguaio era de propriedade pública: o Estado cedia aos camponeses a exploração das parcelas em troca da obrigação de povoá-las e explorá-las de forma permanente e sem direito de vendê-las. Tinha, além disso, 64 fazendas da pátria, diretamente administradas pelo Estado. As obras de regadio, represas e canais, e as novas pontes e estradas contribuíam em grau importante para a elevação da produtividade agrícola. Resgatou-se a tradição indígena das colheitas anuais, que tinha sido abandonada pelos conquistadores. O alento vivo das tradições jesuítas facilitava, sem dúvida, todo este processo criador [3].

O Estado praticava um zeloso protecionismo, muito reforçado em 1864, sobre a indústria nacional e mercado interno; os rios interiores não estavam abertos às naves britânicas que bombardeavam com manufaturas de Manchester e Liverpool todo resto da América Latina. O comércio inglês não dissimulava sua inquietação, não só porque aquele último foco de resistência nacional no coração do continente era invulnerável, mas também, e sobretudo, pela força do exemplo que a experiência paraguaia irradiava perigosamente para os vizinhos. O país mais progressista da América Latina construía seu futuro sem inversões estrangeiras, sem empréstimos do banco inglês e sem as bênçãos do livre comércio.

Porém, à medida que o Paraguai ia avançando neste processo, sua necessidade de romper a reclusão se tornava mais aguda. O desenvolvimento industrial requeria contatos mais intensos com o mercado internacional e com as fontes de técnica avançada. O Paraguai estava objetivamente bloqueado entre Argentina e Brasil, e ambos países podiam negar o oxigênio a seus pulmões, fechando-lhe, como o fizeram Rivadavia e Rosas, as bocas dos rios, ou fixando impostos arbitrários ao trânsito de suas mercadorias. Para seus vizinhos, por outra parte, era uma condição imprescindível, para os fins de consolidação do estado oligárquico, acabar com o escândalo daquele país odioso que se bastava a si mesmo e não queria ajoelhar-se ante os mercadores britânicos.

O ministro inglês em Buenos Aires, Edward Thornton, participou consideravelmente nos preparativos da guerra. Às vésperas da explosão, tomava parte, como assessor do governo, nas reuniões do gabinete argentino, sentando-se ao lado do presidente Bartolomeu Mitre. Diante de seu atento olhar se urdiu a trama de provocações e de enganos que culminou com o acordo argentino-brasileiro e selou a sorte do Paraguai. Venâncio Flores invadiu o Uruguai, nas ancas da intervenção dos dois grandes vizinhos, e estabeleceu em Montevidéu, depois da matança de Paysandú, seu governo adjunto ao Rio de Janeiro e Buenos Aires. A Tríplice Aliança estava em funcionamento. O presidente paraguaio Solano López ameaçou com a guerra, se assaltassem o Uruguai: sabia que assim se estava fechando a tenaz de ferro em torno da garganta de seu país encurralado pela geografia e pelos inimigos. O historiador liberal Efrafin, Cardozo não acha inconveniente em estabelecer, todavia, que López se colocou frente ao Brasil simplesmente porque estava ofendido: o imperador lhe tinha negado a mão de uma de suas filhas. O conflito estava colocado. Porém era obra de Mercúrio, não de Cupido.

A imprensa de Buenos Aires chamava o presidente paraguaio López de “Átila da América”:  - É preciso matá-lo como um réptil, clamavam os editoriais. Em setembro de 1864, Thornton enviou a Londres um extenso informe confidencial, datado de Assunção. Descrevia o Paraguai como Dante ao Inferno, porém colocava acento onde correspondia: Os direitos de importação de quase todos os artigos são de 20 a 25% ad valorem; mas como este valor se calcula sobre o preço corrente dos artigos, o direito que se paga alcança freqüentemente 40 a 45% do preço da fatura. Os direitos de exportação são de 10 a 20% sobre o valor... Em abril de 1865, o Standard, jornal inglês de Buenos Aires, já celebrava a declaração de guerra da Argentina contra o Paraguai, cujo presidente “infringiu todos os usos das nações civilizadas”, e anunciava que a espada do presidente argentino Mitre “levará em sua vitoriosa carreira, além do peso de glórias passadas, o impulso irresistível da opinião pública numa causa justa”. O tratado com o Brasil e Uruguai foi assinado em 19 de maio de 1865; seus termos draconianos foram publicados um ano mais tarde, no diário britânico The Times, que o obteve dos banqueiros credores da Argentina e Brasil. Os futuros vencedores repartiam-se antecipadamente, no tratado, os despojos do vencido. A Argentina se assegurava todo o território de Misiones e o imenso Chaco; o Brasil devorava uma extensão imensa rumo a oeste de suas fronteiras. Ao Uruguai, governado por um títere de ambas as potências, não tocava nada. Mitre anunciou que tomaria Assunção em três meses. Porém a guerra durou cinco anos. Foi uma carnificina, executada todo ao longo dos fortins que defendiam, de lado a lado, o rio Paraguai. O “oprobioso tirano” Francisco Solano López encarnou heroicamente a vontade nacional de sobreviver; o povo paraguaio, que não sofria guerra desde meio século antes, se imolou a seu lado. Homens, mulheres, meninos e velhos; todos se bateram como leões. Os prisioneiros feridos se arrancavam as ataduras para que não os obrigassem a lutar contra seus irmãos. Em 1870, López, à frente de um exército de espectros, anciões e meninos que punham barbas postiças para impressionar de longe, se internou na selva. As tropas invasoras assaltaram os escombros de Assunção com o punhal entre os dentes. Quando finalmente o presidente paraguaio foi assassinado a bala e a lança na espessura do morro Corá, chegou a dizer: “Morro com minha pátria!” e era verdade. O Paraguai morria com ele. Antes, López tinha mandado fuzilar seu irmão e um bispo, que com ele marchavam naquela caravana da morte. Os invasores vinham para redimir o povo paraguaio: exterminaram-no. O Paraguai tinha, no começo da guerra, pouco menos população do que a Argentina. Só 250 mil paraguaios, menos da sexta parte, sobreviviam em 1870. Era o triunfo da civilização. Os vencedores, arruinados pelo altíssimo custo do crime, ficavam em mãos dos banqueiros ingleses que tinha financiado a aventura, O império escravista de Pedro II, cujas tropas se nutriam de escravos e presos, ganhou territórios, mais de 60 mil quilômetros quadrados, e também mão-de-obra, porque muitos prisioneiros paraguaios marcharam para trabalhar nos cafezais paulistas com a marca de ferro da escravidão. A Argentina do presidente Mitre, que esmagara seus próprios caudilhos federais, ficou com 94 mil quilômetros quadrados de terra paraguaia e outros frutos do butim, segundo o próprio Mitre tinha anunciou, quando escreveu: “Os prisioneiros e demais artigos de guerra nós os dividiremos da forma convencionada”. O Uruguai, onde os herdeiros de Artigas foram mortos ou derrotados e a oligarquia mandava, participou da guerra como sócio menor e sem recompensas. Alguns dos soldados uruguaios enviados à campanha do Paraguai tinham subido aos navios com as mãos atadas. Os três países sofreram uma bancarrota financeira que aguçou sua dependência frente a Inglaterra. A matança do Paraguai os marcou para sempre [4].

O Brasil cumpriu a função que o Império britânico lhe havia assinalado desde os tempos em que os ingleses transferiram o trono português para o Rio de Janeiro. A princípio do século XIX, tinham sido claras as instruções de Canning ao embaixador Lord Strangford: Fazer do Brasil um empório para as manufaturas britânicas destinadas ao consumo de toda a América do Sul. Pouco antes de lançar-se à guerra, o presidente da Argentina tinha inaugurado uma nova linha férrea britânica em seu país, e pronunciado um inflamado discurso: “Qual a força que impulsiona este progresso? Senhores: é o capital inglês!” Do Paraguai derrotado não só desapareceu a população; também as tarifas aduaneiras, os fornos de fundição, os rios fechados ao livre-comércio, a independência econômica e vastas zonas de seu território.Os vencedores implantaram, dentro das fronteiras reduzidas pelo despojo, o livre-cambismo e o latifúndio. Tudo foi saqueado e tudo foi vendido: as terras e os bosques, as minas, as plantações de erva-mate, os edifícios das escolas. Sucessivos governos títeres seriam instalados, em Assunção, pelas forças estrangeiras de ocupação. Nem bem terminou a guerra, sobre as ruínas ainda fumegantes do Paraguai caiu o primeiro empréstimo estrangeiro de sua história. Era britânico, logicamente. Seu valor nominal chegava a um milhão de libras esterlinas, porém ao Paraguai chegou apenas menos da metade; nos anos seguintes, os refinanciamentos elevaram a dívida a mais de três milhões. A guerra do ópio tinha terminado, em 1842, quando se firmou em Nanking o tratado de livre-comércio que assegurou aos comerciantes britânicos o direito de introduzir livremente a droga no território chinês. Também a liberdade de comércio foi garantida pelo Paraguai depois da derrota. Abandonaram-se os cultivos de algodão, e Manchester arruinou a produção têxtil; a indústria nacional não ressuscitou nunca mais.

O partido Colorado, que hoje governa o Paraguai, especula alegremente com a memória dos heróis, porém ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de vinte e dois traidores do marechal Solano López, “legionários” a serviço das tropas brasileiras de ocupação. O ditador Alfredo Stroessner, que há vinte anos, converteu o Paraguai num grande campo de concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o devolveram a seu país com altas qualificações e calorosos elogios: “É digno de grande futuro...”. Durante seu reinado, Stroessner deslocou os interesses anglo-argentinos em beneficio do Brasil e dos norte-americanos. Desde 1870, o Brasil e a Argentina, que libertaram o Paraguai para comê-lo com duas bocas, se alternam no usufruto dos despojos do país derrotado, porém sofrem, por seu turno, o imperialismo da grande potência do momento. O Paraguai padece, ao mesmo tempo, o imperialismo e o subimperialismo. Antes, o Império britânico constituía o elo maior da cadeia das dependências sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que não ignoram a importância geopolítica deste país enervado no centro da América do Sul, mantêm em solo paraguaio assessores inumeráveis, cozinham os planos econômicos, reestruturam a universidade como querem, inventam um novo esquema político democrático para o país e retribuem com empréstimos onerosos os bons serviços do regime [5]. Porém, o Paraguai é também colônia de colônias. Utilizando a reforma agrária como pretexto, o governo de Stroessner derrogou, fazendo-se de distraído, a disposição legal que proibia a venda a estrangeiros de terras em zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios fiscais caíram em mão de latifundiários brasileiros do café. A onda invasora atravessa o rio Paraná com a cumplicidade do presidente, associado aos fazendeiros que falam português. Cheguei à movediça fronteira do nordeste do Paraguai com notas que tinham estampado o rosto do vencido marechal Solano López, porém ali descobri que só têm valor as que luzem a efígie do imperador vencedor Pedro. O resultado da Guerra da Tríplice Aliança ganha, transcorrido um século, ardente atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaporte aos cidadãos paraguaios para circularem em seu próprio país; são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial de energia de toda América Latina, que hoje se chamam, em português, Sete Quedas, e a zona de Itaipu, onde o Brasil constrói a maior central hidrelétrica do mundo.

O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, se expressa de mil maneiras. Quando o presidente Johnson decidiu submergir em sangue os dominicanos, em 1965, Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos, para que colaborassem na faina. O batalhão se chamou, piada sinistra, “Marechal Solano López”. Os paraguaios atuaram sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil quem recebeu as honras da traição: o general Panasco Alvim encabeçou as tropas latino-americanas cúmplices da matança. Da mesma maneira, poder-se-iam citar outros exemplos. O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão petrolífera em seu território, mas o negócio da distribuição de combustíveis e da petroquímica está no Brasil, em mãos norte-americanas. A Missão Cultural Brasileira é dona da Faculdade de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, porém os norte-americanos influem na universidade do Brasil. O Estado-Maior do exército paraguaio não só recebe assessoria dos técnicos do Pentágono, mas também dos generais brasileiros, que por sua vez estudaram em escolas militares nos EUA. Pela via aberta do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, porém muitas das fábricas que produzem em São Paulo são, desde a avalancha desnacionalizadora destes últimos anos, multinacionais.

Stroessner se considera herdeiro dos López. O Paraguai de um século atrás pode ser impunemente cotejado com o Paraguai de agora, empório do contrabando na bacia do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato político onde o partido do governo reivindicava ao mesmo tempo, entre vivas e aplausos, a um e outro Paraguai, um rapazola vendia, bandeja no peito, cigarros de contrabando: a fervorosa audiência pitava nervosamente Kent, MarIboro, Camel e Benson & Hedges. Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine’s em vez de tomar cachaça paraguaia. Se descobrem os últimos
modelos dos mais luxuosos automóveis fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país de contrabando ou pagamento prévio de minguados impostos, ao mesmo tempo que se vêem, pelas ruas, carros puxados por bois que levam lentamente frutos ao mercado; a terra é trabalhada com arados de madeira e os táxis são Impala 70. Stroessner diz que o contrabando é “o preço da paz”. A indústria, logicamente, agoniza antes de crescer. O Estado nem sequer cumpre o decreto que manda preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições públicas. Os únicos triunfos que o governo exibe, orgulhoso, na matéria, são as fábricas de Coca Cola, Crush e Pepsi Cola, instaladas desde fins de 1966 como contribuição norte-americana ao progresso do povo paraguaio.

O Estado manifesta que só intervirá diretamente na criação de empresas “quando o setor privado não demonstrar interesse” [6], e o Banco Central comunica ao Fundo Monetário Internacional que decidiu implantar um regime de mercado livre de moedas e abolir as restrições ao comércio e às transações de divisas; um folheto editado pelo Ministério da Indústria e Comércio adverte os investidores que o país outorga concessões especiais para o capital estrangeiro. Exime-se as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de direitos alfandegários, para criar um clima propício para os investimentos. Um ano depois de se instalar em Assunção, o National City Bank de Nova Iorque recupera integralmente o capital investido. O sistema bancário estrangeiro, dono da poupança interna, proporciona ao Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação econômica e hipotecam ainda mais sua soberania. No campo, 1,5% dos proprietários dispõe de 90% das terras exploradas, e se cultiva menos dos 2% da superfície total do país. O plano oficial de colonização no triângulo de Caaguazú oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que prosperidade [7]. A pátria nega a seus filhos o direito ao trabalho e ao pão de cada dia: os paraguaios emigram em massa.

A Tríplice Aliança continua sendo um êxito total.

Os fornos de fundição de Ibycuí, onde se forjaram os canhões que defenderam a pátria invadida, se erguem num lugar que agora se chama “Mina-cuê” - que em guarani significa “foi mina”. Ali, entre pântanos e mosquitos, junto aos restos de um muro em ruína, jaz ainda a base da chaminé que os invasores estouraram, há um século, com dinamite, e se podem ver pedaços de ferro podre nas instalações desfeitas. Vivem, na zona, uns poucos camponeses em farrapos, que nem sequer sabem qual foi a guerra que destruiu tudo isto. Todavia, eles dizem que em certas noites se escutam, lá, vozes de máquinas e trovões de martelos, estampidos de canhões e alaridos de soldados.

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[1] Para escrever este capitulo, o autor consultou as seguintes obras: Juan Bautista Alberdi, Historia de la guerra del Paraguai (Buenos Aires, 1962); Pelham Horton Box, Los orígenes de la Guerra de la Triple Alianza, (Buenos Aires-Assunção, 1958); Efraím Cardozo, El Império del Brasil y el Rio de la Plata (Buenos Aires, 1961); Júlio Cesar Chayes, El presidente López (Buenos Aires, 1955); Carlos Pereyra, Francisco Solano López e la guerra del Paraguay (Buenos Aires, 1945); Juan F. Pérez Acosta, Carlos António López, obrero máximo. Labor administrativa y constructiva (Assunção, 1948); José Maria Rosa, La guerra del Paraguay y las montoneras argentinas (Buenos Aires, 1965); Bartolomeu Mitre e Juan Carlos Gómez, Cartas polémicas sobre la guerra del Paraguay, com prólogo de J. Natalicio Gonzalez (Buenos Aires, 1940). Também um trabalho inédito de Vivian Trías sobre o tema.

[2] Francia integra, como um dos exemplares mais horrosos, o bestiário da história oficial. As deformações óticas impostas pelo liberalismo não são um privilégio das classes dominantes na América Latina; muitos intelectuais de esquerda, que costumam olhar com lentes alheias a história de nossos países, também compartilham certos mitos da direita, suas canonizações e suas excomunhões. O Canto general, de Pablo Neruda (Buenos Aires, 1955), esplêndida homenagem poética aos povos latino-americanos, exibe claramente este deslocamento. Neruda ignora Artigas e Carlos Antonio e Francisco Solano López; em compensação, se identifica com Sarmiento. A Francia qualifica de “rei leproso, rodeado/pelas extensões das plantações de erva-mate”, que “fechou o Paraguai como um ninho/de sua majestade” e “amaffou/tortura e barrou as fronteiras”. Com Rosas não é mais amável: clama contra os “punhais, gargalhadas de mazorca/sobre o martírio” de uma “Argentina roubada a lançadas/no vapor da alba, castigada/até sangrar e enlouquecer, vazia,/cavalgada por rudes capatazes”.

[3] Os fanáticos padres da Companhia de Jesus, “guarda negra do Papa”, tinham assumido a defesa da ordem medieval ante as novas forças que irrompiam no cenário histórico europeu. Porém, na América hispânica, as missões dos jesuítas desenvolveram-se, sob um signo progressista. Vinham para purificar, mediante o exemplo da abnegação e do ascetismo, uma Igreja católica entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista tinha posto à disposição do clero. Foram as missões do Paraguai as que alcançaram o maior nível; em pouco mais de um século e meio (1603-1768), definiram a capacidade e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da música, os índios guaranis, que tinham buscado amparo na selva ou que nela tinham permanecido sem se incorporarem ao processo civilizatório dos encomenderos e donos de terra. Cento e cinquenta mil índios guaranis puderam, assim, reencontrar sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas próprias técnicas nos oficios e nas artes. Nas missões não existia o latifúndio; a terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos de trabalho necessário, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas, se tornavam músicos e artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. Não se conhecia o dinheiro; estava proibida a entrada de comerciantes, que deviam negociar a partir dos hotéis instalados a certa distância. A Coroa sucumbiu finalmente às pressões dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os latifundiários e os escravistas se lançaram à caça dos índios. Os cadáveres pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou foram utilizadas para fazer cartuchos de pólvora. (Jorge Abelardo Ramos, Historia de Ia nación latino-americana, Buenos Áires, 1968.)

[4] Solano López arde ainda na memória. Quando o Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro anunciou, em setembro de 1969, que inauguraria uma vitrina dedicada ao presidente paraguaio, os militares reagiram. O general Mourão Filho, que desencadeou o movimento militar de 1964, declarou à imprensa: “Um vento de loucura varre o país... Solano López é uma figura que deve ser apagada para sempre de nona história, como paradigma do ditador uniformizado sulamericano. Foi um sanguinário que destruiu o Paraguaio, levando-o a urna guerra impossível”.

[5] Pouco antes das eleições de começo de 1968, o general Stroessner visitou os Estados Unidos: “Quando me entrevistei com o presidente Jolinson - declarou à France Press -, lhe manifestei que já doze anos que desempenho funções de primeiro magistrado por mandato das urnas. Johnson me respondeu que isto constituía uma razão a mais para continuar exercendo estas funções no período que vem.”

[6] Presidência da Nação, Secretaria Técnica de Planificação, Plan nacional de desarrollo económico y social, Assunção, 1966.

[7] Muitos dos camponeses optaram finalmente por voltarem à região minifundista do centro do país ou foram a caminho do novo êxodo para o Brasil, onde seus braços baratos são oferecidos às plantações de erva-mate do Paraná e Mato Grosso ou às plantações de café do Paraná. É desesperadora a situação dos pioneiros que se encontram de frente à seiva, sem a menor orientação técnica e sem nenhuma assistência creditícia, com terras concedidas pelo governo, às quais terão de arrancar frutos suficientes para se alimentarem e poder pagá-las - porque se o camponês não paga o preço estipulado, não recebe o título de propriedade.

* Extraído de GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. 20 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. pp. 204-214