Mais um Congresso da UNE e a necessária reorganização do ME pela base | Juventude Comunista Avançando

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mais um Congresso da UNE e a necessária reorganização do ME pela base

Plenária final do 14º CONEB da UNE - Recife/PE 2013 | Foto: JCA
De 29 de maio à 02 de junho, em Goiânia, será realizado o 53º Congresso da União Nacional dos Estudantes. Fundada em 1937, a UNE já protagonizou diversas lutas em que os estudantes foram a ponta de lança na defesa da criação da Petrobras estatal, da universidade e da democratização do Brasil nos regimes civil-militares. No entanto essa entidade também passou por fases em que a direção de tal movimento estava colada com o bloco de poder burguês dominante, defendendo efusivamente políticas que aprofundam cada vez mais a dependência do Brasil. Dos anos 1990 até hoje podemos dizer que passamos por outra fase dessas, intensificada com a eleição de Lula e a cooptação que levou tal entidade à defesa quase que irrestrita das medidas da contrarreforma universitária em curso, e ao padrão dependente da educação brasileira. 

No CONEB de janeiro desse ano, em Recife, a UNE novamente empunhou a bandeira da defesa da “reforma universitária”. Desde meados da década de 2000 é levantada em seus congressos a defesa desse projeto, referendando, por exemplo, medidas aprovadas pelos governos Lula/Dilma. Trata-se, na verdade, de uma contrarreforma, pois vem para aprofundar o distanciamento da universidade das demandas efetivas do povo brasileiro. 

As políticas mais ofensivas ao que resta de público às universidades, como o Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ver Jornal Avançando nº IX), a precarização das universidades com a expansão sem qualidade do REUNI, o arrocho salarial e o fim da carreira dos professores evidenciado pela greve das federais de 2012, e nas diversas estaduais nos últimos anos, são temas renegados nesses encontros. A direção majoritária da UNE tem estado do outro lado da trincheira, do lado que defende tais políticas. 

Mas como reverter tal contexto em que as eleições para tiragem de delegados da UNE se burocratizaram de tal modo que o processo não é mais realizado por base (Centros Acadêmicos e Diretórios Acadêmicos) e sim por universidades, que os eventos são praticamente todos financiados pelo governo federal, que a despolitização é forçada pela diminuição progressiva dos debates em seus congressos (nos últimos anos a programação tem sido restringida em até dois dias e a plenária final)? Além disso tudo, nesse ano o CONUNE foi antecipado para fim de maio – geralmente é em julho –, onde o regimento para as eleições de tiragens de delegados foi tirado em 10 de março. Ou seja, um processo super atropelado de menos de três meses que praticamente suprime o debate político nas bases e estabelece a disputa pragmática por delegados. 

O movimento estudantil brasileiro encontra-se hoje em grande parte inerte e apático em relação às questões políticas do país. Há muitos anos o ME em geral deixou de pautar as lutas reais dos estudantes, deixou de travar a luta por outro projeto de universidade e passou a priorizar a disputa por cargos e por estruturas, deixando de lado a organização real da base. Este processo desarticulou o ME em nível nacional, aumentou a apatia dos estudantes e elevou absurdamente o nível de burocratização de entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE), mas que se reproduz também, muitas vezes, em cada entidade específica de base: CA’s/DA’s, DCE’s, Executivas, etc. 

Acreditamos que devemos centrar todos os nossos esforços para reconstruir o Movimento Estudantil desde a base. Para reorganizá-lo é necessário retomar o debate estratégico, que potencialize a luta dos estudantes em cada sala de aula, curso, universidades, pelas suas questões mais sentidas. A burocratização foi construída pela falta de um projeto estratégico para o ME. Portanto, a solução não se dará trocando a direção da UNE por outra e nem criando de imediato uma “nova entidade”, como é a proposta da ANEL. Ambas as opções seriam como começar um edifício pelo telhado. Para começarmos a colocar as estacas do edifício devemos superar a burocratização que permeia as instituições estudantis. 


A fragmentação da esquerda que resiste às políticas privatizantes do governo só pode ser superada em torno de uma unidade programática e prática, que avance por outro patamar organizativo. O projeto de uma Universidade Popular que analise concretamente o papel da ciência e tecnologia em nossa condição dependente e associada ao movimento geral do capital, e que construa uma estratégia de superação dessa ordem, aliada à luta geral por uma sociedade emancipada, é nosso desafio. A disputa, portanto, tem que ser realizada em todas as esferas do movimento estudantil, desde as mais aderentes e combativas até aquelas em que reina a burocratização e a despolitização, como os Congressos da UNE. Não podemos nos contentar com o atual nível de organização do Movimento Estudantil e adaptar nossas ações ao que está dado, precisamos nos empenhar para elevar o máximo possível o nível de organização e de consciência dos estudantes. Ainda falta muito para o ME combativo consolidar um movimento real articulado nacionalmente e essa reorganização não se dará da noite para o dia.


Publicado originalmente no JA X