A EXPULSÃO! Vergonha para os Carrascos: libertação para quem luta com coerência | Juventude Comunista Avançando

domingo, 29 de setembro de 2013

A EXPULSÃO! Vergonha para os Carrascos: libertação para quem luta com coerência


Por Sargento Amauri Soares

Neste sábado, 28 de setembro de 2013, um grupo de pessoas que por ironia da história responde pela direção estadual do PDT (direção provisória, prorrogável ad eternum), se reuniu para deliberar pela expulsão deste deputado do partido que já foi de Leonel Brizola, de Darcy Ribeiro e de tantos outros abnegados. Eu, Sargento Amauri Soares - praça, fundador e primeiro presidente da APRASC; militante marxista e dirigente do Polo Comunista Luiz Carlos Prestes, eleito por duas vezes deputado estadual sufragado não só pela categoria dos praças catarinenses, mas também por amplos setores do povo trabalhador - recebo esta expulsão como uma agressão política: covarde e traiçoeira. Por outro lado, paradoxalmente, nas circunstâncias concretas em que ocorre, tal ato que só pode cobrir de vergonha os que o perpetraram, é um ataque vil à minha coerência e, assim, para mim uma honra e uma libertação.

Minha filiação ao PDT ocorreu em 2006, mediante acordo político entre o presidente deste partido em Santa Catarina e o Polo Comunista Luiz Carlos Prestes (PCLCP), organização política revolucionária de caráter partidário, mas sem registro eleitoral. Neste acordo ficou claramente reafirmada a total autonomia organizativa do PCLCP em relação ao PDT e garantido o total respeito deste pela preservação da independência política do então candidato para a atuação parlamentar, caso eleito; pautada na linha programática de defesa dos interesses, direitos reais e objetivos históricos emancipatórios das classes trabalhadoras. Por outro lado, nos comprometíamos em não intervir nas questões internas organizativas do PDT. Cumprimos rigorosamente o acordo. A recíproca não foi verdadeira: a direção estadual do PDT rompeu o acordo.

Devo explicar porque, de certo modo, é para mim uma honra ser vitima deste ato covarde de expulsão.

Em primeiro lugar, porque ele é um ataque extremado dos que, apesar de traficar com seu próprio ideário herdado, sabem que nunca iriam nos desviar de nossas convicções político-ideológicas e de uma prática coerente com a sólida identidade proletária de um ativista marxista. Contra as ideias da força dos dominantes e da manipulação, lutamos com a força das ideias libertadoras ligadas à força da organização popular autônoma. Lutamos ao lado do povo trabalhador, que está cansado de “democracias de fachada” (restrita aos interesses dos ricos) e quer uma democracia social real. Lutamos ao lado dos oprimidos e explorados.

Em segundo lugar, porque as pessoas que decidiram me expulsar abandonaram há muito tempo o melhor da tradição trabalhista: o legado brizolista, a batalha pelos interesses do povo brasileiro, a luta contra o imperialismo e qualquer verniz de luta pelo socialismo. É coerente que os que traem o melhor do seu passado, também reneguem as suas alianças e amizades mais saudáveis. Estas pessoas não têm nada a ver com a legião de valentes que em 1961 com Brizola enfrentou de metralhadoras nas mãos a tentativa de golpe contra a posse de Jango; não honram os patriotas do trabalhismo brasileiro que estiveram em Caparaó lutando contra a ditadura; não aprenderam nada da altivez política de líderes como e Leonel Brizola e de aliados como Luiz Carlos Prestes (homenageado pelo primeiro com o título simbólico de presidente de honra do PDT, embora nunca tenha se filiado a este partido). Coerente com sua estatura histórica, Brizola sempre cumpriu os acordos verbais que estabeleceu com Prestes. Homem honrado, Brizola sempre respeitou integralmente a total autonomia dos candidatos organizados em torno das posições revolucionárias de Luiz Carlos Prestes, eleitos parlamentares pela legenda do PDT entre 1982 e 1990.

Lá em novembro de 2012, quando surgiram os primeiros rumores da felonia da direção do PDT, o PCLCP lançou uma nota alertando para o que poderia acontecer, nota da qual transcrevo aqui uma parte:

“O mandato do Deputado Sargento Soares tem sido uma ferramenta de luta não apenas dos praças de Santa Catarina, mas também de todas causas das classes trabalhadoras, de todas as justas lutas do povo catarinense e brasileiro. A atuação de Amauri Soares não é simplesmente crítica, ela é militante; e sua implicação é a prática política de negação e transformação desta ordem autocrática, de luta para construir o poder real da classe trabalhadora para alcançar os seus objetivos essenciais, o verdadeiro ponto de partida da transição para o socialismo. A ameaça de expulsão do Deputado Sargento Amauri Soares do PDT é uma manifestação estranha de alguns dirigentes estaduais do PDT, que ofende abertamente o povo trabalhador de Santa Catarina. Trata-se de um desrespeito à política de defesa dos interesses do povo catarinense levada a cabo pelo mandato do deputado e pela CCLCP. O velho PTB foi vítima do golpe contra o presidente João Goulart em 1964, da cassação de Brizola e diversos representantes do povo pela ditadura; inclusive do vice-governador de Santa Catarina Francisco Dall'Igna (cassado em 1966 pelo AI-3 e ilegalmente substituído pelo banqueiro e oligarca Jorge Bornhausen) e dos deputados catarinenses Armindo e Lígia Doutel de Andrade (esta última, pelo AI-5, em 1968-69, já no MDB). É estranho que o PDT, herdeiro das tradições trabalhistas, agora ameace recorrer a uma medida antidemocrática e ilegítima deste tipo; a partir de pretextos falsos e ridículos.” (CCLCP Nota sobre o mandato do Deputado Estadual Amauri Soares, 15 de novembro de 2012).

Agora, consumada a decisão de expulsão; devo dizer que não deixa de ser um alívio desvincular totalmente nosso nome de uma legenda que proporciona mais manchetes por episódios de suspeita de corrupção envolvendo dirigentes do que pela defesa de qualquer posição respeitável. Sempre nos demarcamos destas práticas, nítida e publicamente; mas conviver na mesma legenda com certas pessoas já vinha causando confusão: estamos nos libertando de um pesado e desnecessário fardo! Estas pessoas praticam hoje uma “política de negócios”, são suspeitas de envolvimento em tenebrosas transações (que cabe à justiça investigar). Deixaram de ser uma boa companhia para nós! Os fatos falam por si!

Entretanto, já não vale a pena gastar tempo falando deles, pois a luta da classe trabalhadora e do povo brasileiro coloca novos problemas e necessidades. Seguimos nosso rumo, explicitando claramente como sempre nossas tomadas de posições diante dos desafios históricos. É evidente que manteremos nossa coerência de defesa das lutas das classes trabalhadoras, que, desde já, precisa ser também a luta pela construção do socialismo. Continuamos trilhando nossa luta, tendo como horizonte a eliminação do domínio dos que exploram os trabalhadores e oprimem nosso povo e a construção de uma efetiva sociedade humana que supere a atual pré-história desumanizada. Seguimos na luta: contra a dominação dos monopólios privados, internos ou estrangeiros; contra o latifúndio (tradicional ou com sua roupa nova de agronegócio); contra o imperialismo, que não apenas parasita a economia absorvendo a parte do leão de nossas riquezas nacionais, mas produz terrível degradação social através das imposições capilares do capital financeiro sobre as decisões dos governos e em nosso cotidiano. Junto com todos os setores explorados e oprimidos da sociedade, seguiremos marchando em busca da emancipação humana do domínio do capital e pelo socialismo.

Formar o bloco histórico das forças sociais comprometidas com a transformação socialista da sociedade brasileira é a necessidade mais urgente. Dedicaremos todos os esforços nesta direção, em todas as trincheiras onde pudermos vir a atuar, na luta cotidiana das classes trabalhadoras e do povo oprimido; e também em todos os espaços institucionais públicos, combinando a luta parlamentar e extraparlamentar.

O que mais faz falta no Brasil de hoje é organizar um sujeito coletivo que possa dizer NÃO à aceitação dos ditames do grande capital que quer se impor como “pensamento único”. É preciso reunir mulheres e homens que não vejam na política uma forma de alcançar alguma vantagem pessoal egoísta; mas tenham disposição para dedicar esforços e até mesmo fazer sacrifícios para participar ativamente nos assuntos da coletividade, na alegria cívica de construir uma efetiva democracia popular. É preciso construir uma alternativa política e programática que garanta desenvolvimento com soberania e elevação do nível de vida do povo. É necessário reconduzir o povo brasileiro à luta pelas transformações sociais que anseia e pelo poder político de que necessita, criando um novo patamar de luta pela construção da sociedade nova, socialista.

Queremos agradecer aos pedetistas coerentes com a linha histórica de luta pelo socialismo, com os quais tivemos o privilégio de conviver nestes anos de luta comum. Seguiremos juntos na luta; juntos com os que sofrem e se revoltam contra as injustiças sociais. Contudo, vale lembrar por fim, que o mandato não é da direção do PDT e de ninguém em particular. O mandato é uma ferramenta política popular, conquistado com milhares de votos dos trabalhadores catarinenses. O mandato é de todos trabalhadores, e em especial, dos praças catarinenses. O mandato é dos lutadores do povo; é dos que lutam por justiça social, por direitos e garantias sociais para os trabalhadores, por transporte público e direito à cidade, por moradia, por emprego, por terra, pela saúde e educação pública, por segurança e dignidade. Temos certeza que estas pessoas lutarão para garantir este mandato; para que ele continue cumprindo de modo destemido a sua função. O povo e a classe trabalhadora de Santa Catarina não permitirão que seu mandato seja usurpado, não admitirá que ele seja transformado em peça venal de um “balcão de negócios”, tal como parece ser a pretensão de alguns.

Florianópolis, 28 de setembro de 2013.

Deputado Sargento Amauri Soares

Fonte: http://www.cclcp.org/index.php/inicio-pclcp/organizacao/445-a-expulsao-vergonha-para-os-carrascos-libertacao-para-quem-luta-com-coerencia