Secundaristas colombianos: "Estamos em um processo de mobilização permanente dos estudantes, de tomada dos colégios" | Juventude Comunista Avançando

domingo, 15 de setembro de 2013

Secundaristas colombianos: "Estamos em um processo de mobilização permanente dos estudantes, de tomada dos colégios"

Entrevista com Deisy Aparicio, representante da Associação Nacional de Estudantes Secundaristas ANDES-Colômbia, e militante da Juventude Comunista da Colômbia (JUCO).

Qual é a leitura da Associação Nacional de Estudantes Secundaristas (ANDES) sobre esse momento que a Colômbia está vivendo?

Desde a Assembleia Nacional de Estudantes Secundaristas vemos em nosso país, primeiro, a questão do recrudescimento do conflito social e armado e, segundo, a questão da repressão, digamos assim, por meio das políticas neoliberais implantadas, como nas áreas da saúde, educação, quer dizer, as 'não garantias' dos direitos de cidadãos e cidadãs. Além disso o conflito, mesmo entre setores de classe, que chamaríamos em algum momento de bipartidismo. Há uma espécie de ruptura no processo de dominação entre Santos e Uribe, o que não significa que esteja garantido um canal ou uma possibilidade, já que a repressão contra os movimentos sociais e populares continua.
Existe uma mobilização constante, que está no auge. Um processo de crítica, de proposição, a partir dos movimentos dos setores estudantil e juvenil. Além disso, vemos como hoje existe, digamos, um cenário de maior unidade latino americana, de unidade social e popular num marco que permite criar algumas ferramentas que podem possibilitar a construção da paz com justiça social. Esse é um plano geral do que a Colômbia vive hoje.

Quais são as principais bandeiras de luta dos estudantes secundaristas colombianos?

A ANDES, desde seu surgimento, há vinte anos, tem muitas bandeiras como a questão do acesso à educação pública, garantida pelo Estado e sem intermediários; da democracia nas escolas, que passa pela questão da autonomia; a luta contra o autoritarismo; a defesa do pensamento crítico; de uma pedagogia crítica, que construa sujeitos autônomos e reflexivos; e a bandeira da paz como construção social, que passa pelo espaço da escola, que passa pela não militarização do espaço escolar a nível nacional: da inserção da polícia na escola, no marco também de um projeto que vem avançando, que é a questão da prestação de serviço social do/as estudantes através de colaboração com a polícia e o exército colombiano.

Aí existe também a questão do recrutamento militar... 

Existe uma ação sistemática de recrutamento ilegal através de batidas, que são ações de recrutamentos que não estão previstas na norma nacional, que é a lei 48/94. O que vemos sobretudo é a violação sistemática de direitos humanos dos/as jovens, já que mais de 3 mil jovens foram recrutados dessa forma ilegal este ano, e que além disso não tem outra possibilidade. É uma chantagem econômica, os meninos não conseguem ingresso na universidade e não veem outra possibilidade de garantir o sustento de suas famílias além de prestar serviço militar. Se entregam como carne de canhão a esse conflito que sangra não apenas seus corpos, mas a nação inteira.

Quais são os debates dos secundaristas sobre o modelo de educação na Colômbia? 

Estamos em um processo de mobilização permanente dos estudantes, de tomada dos colégios em razão de um projeto de concessão de projetar escolas mistas, de propriedade pública e privada, o que é de fato privatizar a educação. Estamos propondo fóruns, ações, cartas ao ministério, mobilizações com o magistério, com o sindicatos dos professores e também ações para fora, que podem repercutir e mudar a forma de concessão da educação para uma educação realmente pública e gratuita. Logo teremos um debate junto à UNESCO sobre os Objetivos do Milênio frente à educação básica e média a nível latino americano, aonde pretendemos chegar e como anda a educação. Queremos para possibilitar um debate aberto sobre o que está acontecendo na Colômbia, há 5 milhões de vagas sob concessão, quer dizer entregues à agentes privados multinacionais, ou seja, privatização e mercantilização direta da educação escolar.

A ANDES reivindica participação nos diálogos de paz?

Nós saudamos o processo que vem se dando entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o governo colombiano, mas acreditamos que ele deve ser ampliado, não só para às outras insurgências, que são o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Exército Popular de Libertação (EPL), mas também a toda a sociedade colombiana, ao conjunto de jovens e estudantes. Frente a isso a ANDES está inserida no processo de paz, através dos sistemas de constituintes populares regionais e setoriais pela paz, no sentido de que os secundaristas possam debater, construir, incidir e refletir sobre o processo. Além disso nos somamos ao chamado de uma assembleia constituinte para referendar os acordos feitos em Havana.
Termino convidando todos e todas para mostrar que existe um grito internacionalista pela paz da Colômbia.

Publicado originalmente no JA no. XI