Síria: contagem regressiva | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Síria: contagem regressiva

Por Ángel Guerra Cabrera

Estava anunciado desde que Obama falou de sua famosa linha vermelha. Teria que ser muito ingênuo para não perceber então que a suposta utilização de armas químicas pelo “regime de Assad” seria o pretexto para atacar a Síria, equivalente as inexistentes armas de destruição em massa do Iraque. Que falta de imaginação! Sempre as mesmas mentiras descaradas. Lembrem-se o já distante incidente do Golfo de Tonkin, embuste utilizado por Washington para iniciar a guerra contra o Vietnam heróico.

Obama e sua camarilha toparam em mais de uma ocasião com o veto russo e chinês no Conselho de Segurança da ONU, pois ambas as potências foram castigadas depois da utilização do seu voto para esmagar a Líbia. E isso é Síria, que é um osso muito duro de roer, e é o que tem atrasado a intervenção direta dos estadunidenses. Mas a pressão de Israel e dos falcões tem dobrado, novamente, o braço do pregador da Casa Branca, arrastando-o para outra agressão de corte nazi, à margem do Conselho de Segurança e, consequentemente, do direito internacional como já fez contra Trípoli e fizeram os seus antecessores contra Sérvia e Iraque.

Não há uma única prova de que Damasco tenha usado armas químicas no bairro distrital de Ghouta. A "notícia" veio dos esquadrões da morte estadunidenses na Síria, financiados pelas democráticas Arábia Saudita, Qatar e demais petromonarquias do Golfo Pérsico. Que operam sob o nome de Exército Livre Sírio e são formados por franquias da Al-Qaeda, como os assassinos da Al Nusra e mercenários jordanianos, iraquianos, líbios, chechenos, entre outros. Além disso, a urgência do ataque parece responder ao temor de que os recém-chegados inspetores da ONU emitam um parecer contrário ao discurso repisado sem parar pela matilha midiática. 

Quem que não está no limbo pode acreditar que o presidente Bashar al-Assad, um político sagaz e astuto cometa a estupidez de usar armas químicas apenas a alguns quilômetros do hotel onde se hospedam os inspetores da ONU precisamente quando se conseguiu virar o curso da guerra civil a seu favor?

O servilismo perante os EUA do multimilionário Cameron e do incolor Hollande, contrasta com a independência de vários líderes da Nossa América, onde temos figuras como a de Evo Morales. Quando da tentativa de dobrá-lo em seu vôo de volta à Bolívia pôde-se observar claramente a sua grandeza de estadista e confirmar a insignificante condição moral e intelectual de quase todos os governantes europeus.

O secretário John Kerry discorre sobre a "obscenidade moral" de Assad ao usar armas químicas "contra seu próprio povo." Terá esquecido Kerry que foi o seu governo que facilitou as informações e as fotos de satélites a Saddam Hussein para orientar os seus projéteis com armas químicas contra as tropas iranianas? Terá esquecido o uso massivo de urânio empobrecido em Falluja (2004) pelo seu exército e em Basra pelos seus cúmplices britânicos? 
Em Falluja, hoje, nascem crianças sem cabeça, com um só olho, sem braços, com as vísceras fora do ventre, com leucemia. As crianças de Falluja sofrem mais deformações ao nascer do que seus iguais de Hiroshima e Nagasaki, onde, aliás, Estados Unidos queimou em segundos centenas de milhares de civis japoneses sem nenhuma justificativa militar. Por acaso Obama se alterou diante do uso de fósforo branco por Israel contra os densamente povoados bairros palestinos de Gaza durante a Operação Chumbo Fundido?

O senhor que ordena pessoalmente cada alvo dos drones que quase sempre matam inocentes não pode vir até nós com histórias de moral e tampouco de democracia quando o próprio ex-presidente Carter disse que "os Estados Unidos não têm uma democracia funcional".

O que busca o imperialismo é balcanizar o mundo árabe para evitar movimentos democráticos, proteger Israel e ficar com os hidrocarbonetos e a água da região. Como no Iraque exacerbar banho de sangue confessional ou como na Líbia entregá-la aos assassinos das milícias fundamentalistas. Pecado da Síria é não se submeter a Washington, apoiar a heróica resistência do Hezbollah e ao lado deles e do Irã se opor aos planos de dominação imperialista na região. Também, semear o veneno terrorista no mundo islâmico para levá-lo às áreas muçulmanas da Rússia e da China, sustentadores de um mundo multipolar detestado pelos neoconservadores.

Obama inicia uma irresponsável e desnecessária provocação contra Moscou, Teerã e Pequim de consequências inimagináveis.

Tradução: Polo Comunista Luiz Carlos Prestes (PCLCP)

FONTE: http://www.jornada.unam.mx/2013/08/29/opinion/028a1mun