Unidade Popular: uma das maiores experiências de construção do poder popular na América Latina | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Unidade Popular: uma das maiores experiências de construção do poder popular na América Latina



O marxismo-leninismo nutre-se da própria história concreta da humanidade para apontar o caminho até uma sociedade sem classes. Desde as obras dos próprios Marx e Engels que podemos encontrar substancialmente esses apontamentos. Formulações que ainda eram um tanto abstratas no Manifesto Comunista só puderam ser enriquecidas vinte e três anos depois pela análise concreta da Comuna de Paris. Da mesma maneira, para os comunistas de hoje é de suma importância analisar as tentativas de tomada do poder pelo povo organizado – liderado pelo proletariado – que ocorreram no passado (revolução russa, chinesa, cubana, etc.).

Na América Latina não faltam exemplos a serem estudados. A partir do grande exemplo do povo cubano, que em 1959 tomou o poder expulsando um ditador capacho dos EUA, o povo chileno avançava a passos largos em direção ao socialismo no início dos anos 1970. A experiência cubana mostrou que só o socialismo poderia tornar irreversível a luta anti-imperialista. Prova disso foi a reação dos EUA aos processos que se construíam na América Latina. Golpes preventivos foram impostos em El Salvador (1960), República Dominicana (62), Equador (63), Brasil (64), Argentina (66), Panamá (69), Bolívia (71), e novamente no Equador (72), entre outros. O Chile seria o próximo, em 1973. Mas havia ali algo de diferente: o povo chileno já estava muito mais organizado, e por isso mesmo é que a ditadura militar chilena, liderada por Augusto Pinochet, cujo objetivo era desmantelar toda esta organização popular, foi talvez a mais violenta da história recente da América Latina.

A frente política que organizou, lutou e elegeu Salvador Allende em 1970 chamava-se “Unidade Popular”. Dela faziam parte desde democratas anti-imperialistas até comunistas. Allende não pertencia ao Partido Comunista, mas era um lutador corajoso, honesto e incansável, defensor da necessidade do socialismo, e possuidor de amplo respaldo das massas populares. Já nos primeiros anos de seu governo restituiu ao controle nacional praticamente toda a base econômica do país, tirando grandes empresas das mãos dos monopólios estrangeiros. Por outro lado, conforme avançavam as medidas progressistas do governo, as classes burguesas e reacionárias começaram a boicotar setores estratégicos da economia e a fazer uma campanha de difamação do governo através da grande mídia. Tudo isso gerou um forte clima de instabilidade que era favorável aos militares golpistas.

Diante dos boicotes, no entanto, os trabalhadores passaram a se organizar ainda mais: nas fábricas cuja ordem dos patrões era parar de produzir para prejudicar a economia nacional, os trabalhadores iam ao trabalho para produzir e dirigir a produção. Cordões industriais foram criados pelos trabalhadores de diferentes indústrias para garantir os insumos para a produção nas fábricas ocupadas. Nos bairros onde os suprimentos não chegavam por conta do boicote das transportadoras, organizavam-se centros de distribuição sob controle popular. O latifúndio era combatido não só por camponeses sem terra, mas também por proletários urbanos, que prestavam solidariedade concreta seguindo em caravanas para as ocupações. Tratava-se da luta de classes em sua forma mais evidente. E assim o povo ia aprendendo que podia organizar-se sem a existência parasitária da classe burguesa e das oligarquias. Até mesmo nas minas e empresas nacionalizadas os trabalhadores passaram a exigir sua participação efetiva nas decisões, questionando as estruturas de controle de produção e compreendendo seu próprio papel político nesse processo. O que unificava as ações do povo era o programa da construção do socialismo, o mesmo programa que gerava o desespero da burguesia.

O desespero chegou ao seu ápice quando no dia 11 de setembro o Palácio de La Moneda, sede do governo, foi bombardeado por aviões caça “Hawker Hunter” e Allende morto. A quantidade de presos políticos era tamanha que foi necessário levá-los para o Estádio Nacional, em Santiago. Em seu discurso final, Allende dirigia-se aos lutadores de hoje. “Lhes digo que tenho certeza de que a semente que temos entregue à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente”. E completou: “Sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor”. Faz apenas quarenta anos, e por toda a América Latina já é possível ver novamente homens e mulheres tomando grandes avenidas com ânsia de fazer história. As experiências do passado nos deixam inúmeras lições, assim como a história que pretendemos fazer deixará lições aos lutadores que virão.

Publicado originalmente no JA no. XI