Um retrato do trabalho precário no Brasil | Juventude Comunista Avançando

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Um retrato do trabalho precário no Brasil

O sociólogo Ruy Braga fala das condições de trabalho no setor de telemarketing, área que ele vem pesquisando em detalhes. Segundo ele, se somarmos os call centers terceirizados e próprios, o Brasil deve fechar o ano com quase 1 milhão e 700 mil trabalhadores nesse setor


21/11/2013
Antônio David,
especial para o Brasil de Fato
(A íntegra desta entrevista encontra-se emwww.brasildefato.com.br)

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Neste sentido, gostaria de colocar algumas questões referentes à pesquisa que você fez nos últimos anos, sobre o trabalho no setor de telemarketing. Qual é o tamanho desse setor?

A indústria brasileira do call center cresce desde meados dos anos de 1990, em grande medida, por conta do avanço do ciclo das terceirizações empresariais associado ao processo de privatizações da era FHC. Já no início dos anos 2000, o setor do telemarketing já havia se transformado na principal porta de entrada no mercado formal de trabalho do jovem trabalhador à procura do primeiro emprego. Uma característica interessante desse setor, desde meados da década de 2000, é que hoje a região onde o telemarketing mais se expande é a região nordeste do país. Estimativas realizadas pelos profissionais da própria indústria afirmam que, muito provavelmente, se somarmos os call centers terceirizados e próprios, o Brasil deve fechar o ano com quase 1 milhão e 700 mil trabalhadores nesse setor. Isto faz dos teleoperadores o segundo maior grupo ocupacional do país, perdendo apenas para os trabalhadores domésticos.

Ao analisar o setor, você diferencia “profissão” de “emprego de empreitada”. No que consiste a diferença?

Na realidade, uma profissão supõe certas características em termos de qualificação, prestígio, estabilidade e remuneração, que, em linhas gerais, estão ausentes no telemarketing. Uma “profissão” implica a existência, em algum grau, de uma “carreira”, isto é, de possibilidades reais de progresso ocupacional. O telemarketing é uma atividade que, por suas características estruturais, bloqueia ou dificulta enormemente a progressão ocupacional, assim como se trata de um setor que paga muito mal e não exige qualificações especiais. Como as taxas de rotatividade são muito elevadas na indústria do call center, entendo ser mais correto falar em uma atividade realizada por meio da “empreitada”, ou seja, intermitente, terceirizada e precária.

Em seu livro, você mostra que as empresas do setor de telemarketing adotam estratégias de recrutamento de trabalhadores considerados “problemáticos ou diferenciados”, “mais sensíveis e pacientes” e com “certa inclinação a subordinar-se ao despotismo”. Qual é o perfi l dos trabalhadores inseridos nesse setor e quais são as estratégias que as empresas utilizam para recrutá-los?

A indústria do call center há tempos tem recrutado preferencialmente jovens, não brancos, mulheres e gays. Trata-se de uma estratégia cuja finalidade é promover um comportamento mais dócil no tocante ao ajuste do trabalhador ao regime de mobilização permanente do trabalho apoiado em altas taxas de rotatividade, na estratégia da terceirização, no controle despótico do trabalho e na pressão das metas sempre mais difíceis de serem alcançadas. Quando o grupo de trabalho é formado majoritariamente por jovens arrimos de família, por exemplo, ou por aqueles que historicamente ocupam os postos mais discriminados ou sub-remunerados do mercado de trabalho brasileiro, como gays e mulheres negras, a expectativa das empresas é que estes trabalhadores comportem-se de maneira mais dócil, subordinando-se ao despotismo das gerências. Trata-se de uma situação instrumentalizada pela indústria do call center e cuja característica menos visível, porém mais “enraizada” na subjetividade operária, é a reprodução de um poder simbólico fortemente associado ao reforço da condição de subalternidade oriunda da discriminação racial, sexual ou da orientação sexual. No entanto, esta situação tem sido revertida desde 2008, ao menos, quando greves passaram a eclodir com muita frequência na indústria de call center protagonizadas por mulheres negras e por grupos discriminados. De certa maneira, o feitiço está virando contra o feiticeiro e uma experiência coletivamente compartilhada de discriminação racial ou por orientação sexual, além das lições retiradas da relação com o despotismo gerencial, empurram os teleoperadores na direção da auto-organização nos locais de trabalho e dos sindicatos que atuam no setor.

Então, como se dá o assédio moral no telemarketing?

O problema do assédio moral está diretamente associado ao problema do manejo degradante da força de trabalho. Como o setor trabalha por metas e estas tendem a se tornar cada vez mais duras é muito comum que coordenadores de operação ou supervisores descontrolem-se com os teleoperadores, cobrando-os aos berros. Além disso, existe um assédio mais dissimulado que se esconde por trás de brincadeiras, como o nariz de palhaço, o martelinho de plásticos ou a camiseta de mico, cujos alvos preferenciais são aqueles que não alcançaram as metas. Isso sem mencionar a humilhação do tempo exíguo do intervalo e as negativas pra ir ao banheiro etc.

Ao estudar o setor, você conclui que parte dos riscos recai sobre os trabalhadores. Por que e como?

Por força do despotismo empresarial que vigora no setor, os ajustes anticíclicos à flutuações recaem sempre sobre os trabalhadores que são sumariamente demitidos e percebem sua remuneração variável cair. Ou seja, como não há praticamente nenhum obstáculo sério à demissão dos teleoperadores, é o trabalho que assume a maior parte dos riscos do negócio...

Nesse mesmo artigo, você afirma haver uma “tendência de despolitização geral do mundo do trabalho”. Gostaria que você explicasse no que consiste essa tendência.

Esta tendência é produto da consolidação de um tipo de regime fabril que se apoia sobre a desconstrução das formas de solidariedade classistas tipicamente fordistas. Quando o desmanche do grupo operário fordista efetivou-se por meio das terceirizações, do aumento da concorrência entre os próprios trabalhadores, das reestruturações da base técnica das companhias, da informatização domeio ambiente fabril, das privatizações, da crise do sindicalismo militante, do aumento do desemprego (anos de 1990) etc. Durante os anos FHC, a formação de um novo proletariado pós-fordista acantonado no setor de serviços e composto por jovens, mulheres, não brancos etc., representou uma descontinuidade política em relação à classe trabalhadora do período do nacional-desenvolvimentismo.

No entanto, não devemos exagerar neste argumento, pois, este grupo pós-fordista está se politizando rapidamente e já alcançou um patamar respeitável em termos de conquistas sindicais expressas pelo número de greves que ocorrem no país desde 2008.

A íntegra desta entrevista encontra-se em: www.brasildefato.com.br