Declaração Política do GTNUP | Juventude Comunista Avançando

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Declaração Política do GTNUP


“Eu sei dos caminhos que não devemos percorrer. Primeiro: o movimento pela Universidade Popular não pode ser um movimento partidário. Se for um movimento partidário, nós vamos ficar trocando santinhos com as mesmas caras de sempre. Segundo: os partidos e as organizações políticas não podem lavar as mãos diante disso. Isso é contraditório? Não, em absoluto.[...] Quem me conhece, sabe que eu trago a foice e o martelo na testa. Mas esse movimento, não pode ser um movimento comunista! Essa luta, não pode ser uma luta segmentar, [...] ela só ganha sua efetiva dimensão se formos capazes de estruturar uma pauta que não nos deixe isolados.”
José Paulo Netto, trecho de sua intervenção no 1° SENUP.

Em setembro de 2011 realizou-se em Porto Alegre o primeiro Seminário Nacional de Universidade Popular (SENUP). Obviamente que a luta por uma universidade dos “de baixo” não começou ali e vem sendo travada ao longo da nossa história. Todavia, o SENUP chamou atenção para a necessidade de alçar as lutas a um outro patamar. De articular uma contraofensiva, saindo da mera reatividade em relação aos projetos privatistas em curso. De formular na práxis cotidiana o projeto da universidade popular, ao mesmo passo da luta para implementá-lo.

O leque amplo de organizações, coletivos e movimentos que o construíram indicava que não era só mais um evento. E como boa novidade que surge, não se deixou levar pelos caminhos fáceis, mas já viciados, das práticas políticas naturalizadas no meio universitário. Na diversidade se formaram consensos, e o sectarismo não teve espaço para crescer.

Mesmo estando muito satisfeitos com o resultado desse esforço coletivo, os participantes do SENUP sabiam que era necessário ir além, mantendo um fórum permanente de articulação e atuação. Daí surge o Grupo de Trabalho Nacional Universidade Popular (GTNUP), como uma rica síntese organizativa para dar continuidade ao legado do SENUP e avançar ainda mais. Desde lá foram quatro reuniões do GTNUP, sediadas em diferentes regiões do país (sul, sudeste, centro-oeste e nordeste), nas quais se buscou dar forma política às demandas elencadas no SENUP. O que se materializou em campanhas contra a EBSERH; contra o Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação; por Democracia nas instâncias universitárias; articulação dos grupos de extensão popular; entre outras.

Agora, mostrou-se necessário novamente dar um salto de qualidade nesse movimento político. Por isso, a última reunião do GT, realizada de 18 a 20 de outubro em João Pessoa (PB), apontou a organização do segundo SENUP para agosto de 2014. E deixou para a próxima reunião do GTNUP a definição do local e programação. Segundo a “Carta da Paraíba”, os objetivos desse 2° SENUP eram:

que o II SENUP seja um instrumento, não apenas de reflexão e necessários debates estratégicos sobre a luta por um outro modelo de universidade e educação, mas sim um encontro que expresse a consolidação, a pluralidade, a unidade e a massificação das lutas por uma Universidade Popular. Nesse sentido, não se trata de uma luta que seja patrimônio ou que sirva para a construção de uma ou outra organização política. O seminário priorizará o contato dos estudantes e trabalhadores independentes, movimentos populares e indivíduos, bem como a consolidação da relação construtiva entre os coletivos construtores do GTNUP.
(disponível em http://gtnup.wordpress.com/2013/11/11/carta-da-paraiba/)

A data acordada coletivamente para tal reunião era de 29/11 a 1º/12 na cidade do Rio de Janeiro, ficando sob responsabilidade dos grupos e militantes locais a convocatória oficial com no mínimo um mês de antecedência. A convocação em tempo hábil era fundamental para permitir a participação de um maior número de organização e militantes, que inclusive não haviam podido participar da reunião anterior porque a divulgação foi feita apenas uma semana antes.

Não tendo sido cumprido esse prazo para a divulgação, a proposta feita pelos camaradas do Rio era de que a nova data fosse de 20 a 22/12, com a qual houve acordo das demais organizações, desde que a divulgação fosse feita levando em conta um prazo razoável. Novamente não houve a divulgação nesse tempo e mais uma vez se discutiu na lista de e-mails sobre o adiamento, dessa vez para janeiro.

Desse modo, recebemos com estranheza a notícia visualizada nas redes sociais, da marcação e realização de uma reunião de universidade popular no Rio (até agora não se sabe com quem) mesmo sem o consenso no GTNUP, bem como da posterior divulgação de um manifesto “Por um Encontro Nacional de Movimentos em luta por uma Universidade Popular”, marcado para ocorrer no mesmo período proposto pelo GTNUP para a realização do segundo SENUP. Esse documento tem sido compartilhado amplamente pela militância da União da Juventude Comunista (UJC) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB), rompendo com a prática do consenso estabelecida desde a comissão organizadora do 1° SENUP, consolidada no GTNUP. Não está claro ainda se as entidades e movimentos que assinaram o manifesto estavam cientes dessa situação que se caracteriza como uma ruptura com o próprio GTNUP, já que não foi construído através de suas instâncias, espaço que a UJC e o PCB vinham participando.

As razões para essa ruptura unilateral e repentina, divulgadas posteriormente a convocatória de tal Encontro, na “Carta de Desligamento da UJC do GTNUP” não poderiam ser mais contraditórias. Sem adentrar nos seus pormenores, reiteramos que a necessidade de construção de um Movimento Nacional pela Universidade Popular sempre foi consensual no interior do GTNUP, não justificando a posição tomada. E mesmo que existissem outros problemas, não tratados objetivamente na carta, a avaliação não foi compartilhada na reunião que deliberou pelo II SENUP e pela divulgação da “Carta da Paraíba”, aprovada há dois meses, cuja redação inicial foi dada por companheiros da UJC.

A “Carta da Paraíba” aponta que a luta pela universidade popular não deve servir “para a construção de uma ou outra organização política”, mas sim deve ser voltada “a consolidação da relação construtiva entre os coletivos construtores do GTNUP”. Não vemos como a “consolidação, a pluralidade, a unidade e a massificação das lutas por uma Universidade Popular” possa se concretizar com uma construção paralela ao espaço no qual durante anos coletivos e indivíduos construíram as lutas unitariamente com toda transparência. Chama atenção que o caminho escolhido seja o da adesão a práticas políticas sectárias e de “ocasião”, em detrimento do diálogo franco que é da tradição de camaradagem estabelecida no GTNUP.

Ao que parece, os que acreditam que construirão a Universidade Popular dessa forma não compreenderam os ensinamentos do primeiro SENUP. Fizeram ouvidos moucos ao que se discutiu lá, incluindo a fala de José Paulo Netto no Seminário. Seguimos com a certeza de que tornar a Universidade Popular propriedade de qualquer grupo particular não é o caminho.

Dentro de poucas semanas realizaremos uma nova reunião do GTNUP, avaliando os desafios que se apresentam e buscando respostas unitárias entre as organizações que se mantém em sua construção, como tem sido a nossa prática.

Brasil, 3 de janeiro de 2014.

Grupo de Trabalho Nacional Universidade Popular – GTNUP