Rosa Luxemburgo - Em memória de uma «águia» | Juventude Comunista Avançando

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Rosa Luxemburgo - Em memória de uma «águia»

Revista «O MILITANTE»

Entre os dirigentes e teóricos do movimento comunista internacional, Rosa Luxemburgo ocupa uma posição muito destacada.

A sua contribuição para a organização revolucionária dos trabalhadores da Polónia (onde nasceu em 1871), a sua actividade teórica e prática no quadro da ala revolucionária da «social democracia» alemã e da II Internacional, o seu combate intransigente contra o reformismo e o revisionismo e a sua luta contra a guerra, a sua posição solidária para com a Revolução de Outubro, fazem de Rosa Luxemburgo, como dela disse Lénine, «uma águia».

Foi mérito histórico de Rosa, com Karl Liebknecht, ter fundado o movimento Spartakus e o Partido Comunista Alemão. Perseguida desde os seus tempos de estudante em Varsóvia, Rosa Luxemburgo foi forçada ao exílio e conheceu numerosas prisões. A Revolução de Outubro na Rússia e a Revolução de Novembro de 1918 na Alemanha, apanharam-na na prisão. Em liberdade, retomou imediatamente a luta, sendo vilmente assassinada, juntamente com Karl Liebknecht, em Berlim a 15 de Janeiro de 1919. 

Em homenagem à sua memória, publicamos um texto de Rosa Luxemburgo sobre a Revolução alemã de Novembro, escrito pouco antes do seu assassinato, bem representativo da profundidade do seu pensamento.

«A ordem reina em Berlim» 

«A ordem reina em Varsóvia», declarou o ministro Sébastiani, em 1831, na Câmara francesa, quando, depois de ter lançado o seu terrível assalto no subúrbio de Praga, a soldadesca de Souvorov tinha penetrado na capital polaca e começado a sua função de carrasco.

«A ordem reina em Berlim», proclama com gritos de triunfo a imprensa burguesa, tal como os Ebert e os Noske (1) , tal como os oficiais das «tropas vitoriosas» que a gentalha pequeno-burguesa acolhe nas ruas de Berlim agitando lenços e gritando: «Hurra!». Perante a história mundial, a glória e a honra das armas alemãs estão salvas. Os lamentáveis vencidos da Flandres e de Argonne restabeleceram a sua fama alcançando uma brilhante vitória... sobre os 300 «Spartaquistas» de Vorwärst. Os feitos que datam da gloriosa invasão da Bélgica por tropas alemãs, os feitos do general von Emmich, vencedor de Liège, empalidecem ante os feitos dos Reinhardt e C.ª nas ruas de Berlim. Assassinato de parlamentares que vieram negociar a rendição de Worwärst e que a soldadesca governamental espancou à paulada, a ponto da identificação dos corpos ser impossível, prisioneiros colados ao muro, dos quais se fez rebentar os crânios e saltar os miolos; quem, pois, em presença de actos tão gloriosos, poderia ainda evocar as derrotas sofridas diante dos franceses, dos ingleses e americanos? 

O inimigo é «Spartacus» e Berlim é o lugar onde os nossos oficiais se concertam para alcançar a vitória. E o general que é hábil a organizar essas vitórias, lá onde Ludendorff falhou, é Noske, o «operário» Noske. 

Quem não evocaria a embriaguez da matilha dos partidários da «ordem», a bacanal da burguesia parisiense dançando sobre os cadáveres dos combatentes da Comuna, essa burguesia que acabava de capitular cobardemente diante dos prussianos e de entregar a capital ao inimigo externo, depois de se ter escapado? Mas quando se tratou de enfrentar os proletários parisienses famintos e mal armados, de enfrentar as suas mulheres sem defesa e os seus filhos, ah! Como a coragem viril dos filhos dos burgueses, dessa «juventude dourada», como a coragem dos oficiais explodiu! Como a bravura desses filhos de Marte, que se tinham acobardado face ao inimigo externo, deu largas a estas atrocidades bestiais, cometidas sobre homens sem defesa, feridos e prisioneiros!

«A ordem reina em Varsóvia», «A ordem reina em Paris», «A ordem reina em Berlim». Em todos os meios-séculos, os guardiões da «ordem» lançam assim num dos focos da luta mundial as suas proclamações de vitória. E estes «vencedores» que exultam não se apercebem que uma «ordem» que tem necessidade de ser mantida periodicamente por hecatombes sangrentas, corre inevitavelmente para a sua perda. 

O que é que nos trouxe, o que é que nos ensinou, esta «Semana Spartaquista» de Berlim? No seio da contenda, no meio dos clamores de triunfo da contra-revolução, os proletários revolucionários devem fazer já o balanço dos acontecimentos e seus resultados, avaliá-los pela grande bitola da história. A revolução não tem tempo a perder, ela prossegue a sua marcha em frente – por cima dos túmulos ainda abertos para além das «vitórias» e «derrotas», em direcção aos seus objectivos grandiosos. E o primeiro dever dos que lutam pelo socialismo internacionalista é estudar com lucidez a sua marcha e as suas linhas de força. 

Poder-se-ia esperar, no presente confronto, uma vitória decisiva do proletariado revolucionário, poder-se-ia contar com a queda dos Ebert-Scheidemann e a instauração da ditadura socialista? Não, certamente, se se tiver em conta todos os elementos que implicam a resposta. Basta pôr o dedo no que é actualmente a ferida da revolução: a falta de maturidade política da massa dos soldados, que continuam a deixar-se iludir pelos seus oficiais e a ser utilizados para fins contra-revolucionários é, por si só, a prova de que neste embate uma vitória duradoura da revolução não seria possível. Por outro lado, esta falta de maturidade não é mais do que o sintoma da falta geral de maturidade da Revolução alemã. 

Os campos, de onde provem uma forte percentagem da massa dos soldados, continuam quase a não ser tocados pela revolução. Até aqui, Berlim está quase isolada do resto do Reich. É certo que na província, os focos revolucionários – na Renânia, na costa do Mar do Norte, em Brunswick, Saxe, Wurtemberg – estão de corpo e alma ao lado do proletariado berlinense. Mas o que falta é a coordenação do avanço da marcha, a acção comum que daria às invectivas e às contra-ofensivas da classe operária berlinense uma outra eficácia. Além disso – e é desta causa mais profunda que provêm as imperfeições políticas – as lutas económicas, esse vulcão que alimenta incessantemente a luta da classe revolucionária, essas lutas económicas estão apenas ainda na sua fase inicial.

Daqui resulta que na fase actual não se podia ainda contar com a vitória definitiva, duradoura. A luta da semana passada constituía por isso uma «falta»? Sim, tratava-se duma «invectiva» deliberada, do que se chama um golpe militar («putsch»)! Mas qual foi o ponto de partida dos combates? Como em todos os casos precedentes, em 6 de Dezembro, em 24 de Dezembro: uma provocação brutal do governo! Recentemente, o atentado contra os manifestantes sem armas da Chausseestrasse, o massacre dos marinheiros, desta vez o golpe tentado contra a Prefeitura da polícia foram a causa dos acontecimentos posteriores. É que a revolução não age à sua vontade, ela não opera em terreno descoberto, segundo um plano bem preparado por hábeis «estrategas». Os seus adversários também dão provas de iniciativa, e mesmo, regra geral, bastante mais que a Revolução.

Colocados perante a provocação violenta dos Eber-Scheidemaan, os operários revolucionários eram forçados a pegar em armas. Para a revolução, era uma questão de honra repelir o ataque imediatamente, com toda a sua energia, se não se queria que a contra-revolução se sentisse encorajada para novo passo em frente; se não se queria que fossem abaladas as fileiras do proletariado revolucionário e o crédito de que usufruia no seio da Internacional. De resto, das massas berlinenses brota espontaneamente, com uma energia tão natural, a vontade de resistência, que, desde o primeiro dia, a vitória moral esteve do lado da «rua». 

Ora, para a Revolução existe uma regra absoluta: nunca parar, uma vez que o foi dado o primeiro passo, nunca cair na inacção, na passividade. A melhor defesa é desferir um golpe enérgico contra o adversário. Esta regra elementar que se aplica a todos os combates vale sobretudo para os primeiros passos da revolução. Naturalmente que – e tal comportamento demonstra a justeza, a frescura da reacção do proletariado – ele não podia ficar satisfeito por ter reinstalado Eichhorn no seu posto. Espontaneamente, ocupou outras posições da contra-revolução: as sedes da imprensa burguesa, a secretaria da agência de informações oficiosa, o Vorwärts. Estas diligências inspiravam a massa porque ela compreendia instintivamente que a contra-revolução, pelo seu lado, não ia ficar satisfeita com a derrota, mas preparar uma prova de força geral. 

Aqui, também, estamos em presença duma dessas grandes leis históricas da revolução, na qual se vêm quebrar todas as habilidades, toda a «ciência» desses pequenos revolucionários da U.S.P., que em cada luta só procuram uma coisa: pretextos para bater em retirada. Desde que o problema fundamental duma revolução foi claramente posto – e nesta é o derrubamento do governo Ebert-Scheidemann, primeiro obstáculo à vitória do socialismo – este problema não deixa de ressurgir com toda a actualidade, e com a fatalidade duma lei natural, cada episódio da luta fá-lo aparecer com toda a amplitude, por pouco preparada que esteja a revolução para o resolver, por pouco propícia que seja a situação. 

«Abaixo Ebert-Scheidemann!» Esta palavra de ordem brota infalivelmente em cada nova crise revolucionária; é a única fórmula que esgota todos os conflitos parciais e que, pela sua lógica interna, quer se queira ou não, leva qualquer episódio da luta até às suas últimas consequências.

Desta contradição entre a tarefa que se impõe e a ausência, na etapa actual da revolução, de condições prévias que permitam resolvê-la, resulta que as lutas terminam com uma derrota formal. Mas a revolução é a única forma de «guerra» – é ainda uma das leis do seu desenvolvimento – em que a vitória final só poderá ser obtida com uma série de «derrotas». 

O que nos ensina toda a história das revoluções modernas e do socialismo? A primeira fogueira da luta de classes na Europa terminou com uma derrota. O levantamento dos operários das fábricas de seda de Lyon, em 1831, saldou-se por um grande fracasso. Derrota também para o movimento cartista em Inglaterra. Derrota esmagadora para o levantamento do proletariado parisiense no decurso das Jornadas de Junho de 1848. A Comuna de Paris conheceu finalmente uma terrível derrota. A estrada do socialismo, considerando as lutas revolucionárias – está repleta de derrotas.

E no entanto esta história leva irresistivelmente, passo a passo, à vitória final! Onde estaríamos hoje sem todas estas «derrotas», de onde retirámos a nossa experiência, os nossos conhecimentos, a força e o idealismo que nos animam? Hoje, que chegámos precisamente à véspera do combate final da luta proletária, estamos acantonados nestas derrotas e não podemos renunciar a nenhuma delas, pois de cada uma retiramos uma porção da nossa força, uma parte da nossa lucidez.

Os combates revolucionários são opostos às lutas parlamentares. Na Alemanha, durante quatro décadas, no plano parlamentar, só conhecemos «vitórias»; voávamos literalmente de vitória em vitória. E qual foi o resultado aquando da grande provação histórica de 4 de Agosto de 1914? (2) uma derrota moral e política esmagadora, um desmoronamento inaudito, uma bancarrota sem exemplo. Em contrapartida, até agora, as revoluções só nos trouxeram derrotas, mas esses fracassos inevitáveis são precisamente a caução reiterada da vitória final. 

Com uma condição, é verdade! Porque é preciso estudar em que condições cada derrota teve lugar. Resulta ela do facto de que a energia das massas se quebrou contra a barreira das condições históricas que não tinham atingido maturidade suficiente, ou ela é atribuível às meias-medidas, à indecisão, à fraqueza interna que paralisaram a acção revolucionária? 

Para cada uma destas duas eventualidades, dispomos de exemplos clássicos: a Revolução francesa de Fevereiro, a Revolução alemã de Março. A acção heróica do proletariado parisiense em 1848 é a fonte viva onde todo o proletariado internacional colhe toda a energia. Pelo contrário, as pungentes ninharias da Revolução alemã de Março são como uma grilheta que entrava toda a revolução da Alemanha moderna. Elas repercutiram-se – através da história particular da social-democracia alemã – mesmo nos acontecimentos mais recentes da Revolução alemã, mesmo na crise que acabamos de viver. 

À luz desta questão histórica, como julgar a derrota do que se designa por «semana spartaquista»? Ela é proveniente da impetuosidade da energia revolucionária e da insuficiente maturidade da situação, ou da fraqueza da acção desenvolvida?

De uma e de outra! O duplo carácter desta crise, a contradição entre a demonstração vigorosa, resoluta, ofensiva das massas berlinenses e a indecisão, as hesitações, os adiamentos da direcção, tais são as características deste último episódio.

A direcção ficou enfraquecida. Mas pode e deve-se instaurar uma nova direcção, uma direcção saída das massas e por elas escolhida. As massas constituem o elemento decisivo, a rocha sobre a qual será construída a vitória final da revolução. 

As massas estiveram à altura da sua tarefa. Elas fizeram desta «derrota» um elo na série de derrotas históricas, que constituem o orgulho e a força do socialismo internacional. E está aí a razão por que a vitória florescerá no terreno desta derrota.

«A ordem reina em Berlim!» polícias estúpidos! A vossa «ordem» está construída na areia. A partir de amanhã a revolução «erguer-se-á de novo com estrondo» proclamando aos quatro ventos, para vosso maior pavor: «Eu era, eu sou, eu serei!».

Notas

(1) N.R. - Ebert, Noske, Scheidmann, dirigentes do POSD alemão, carrascos dos comunistas e do proletariado de Berlim.

(2) O POSD alemão vota no Reichstag os créditos de guerra.