1964: Cinquenta anos do golpe militar no Brasil e da operação LASO na Colômbia | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 9 de abril de 2014

1964: Cinquenta anos do golpe militar no Brasil e da operação LASO na Colômbia

Por: Mauricio J. Avilez A.*

Los Estados Unidos parecen destinados por la providencia
a plagar a la América de hambre y miseria en nombre de la libertad.
Simón Bolívar.

La historia es objeto de una construcción
cuyo lugar no es el tiempo homogéneo y vacío,
sino el que está lleno de “tiempo del ahora”.
Walter Benjamín


No mês de março de 2014, cumpriram-se cinquenta anos de ter acontecido um terrível fato que mudou os rumos das possíveis construções sociais e populares para o povo do Brasil. Foram suprimidos os direitos e as liberdades políticas. Acabou-se com as possibilidades de consolidar um sistema partidário e democrático que superara os espólios autoritários da época do Getúlio Vargas. Foram cortadas as ilusões que floresciam das organizações sociais de base com a presidência de João Goulart.

O presidente do Brasil em 1964, João Goulart.

No mês de março de 1964, as noites coloridas do povo brasileiro fizeram-se obscuras, enchendo-se de terror e dor, de silêncios e de medo, com a instauração da ditadura militar, mal chamada de revolução. A instituição castrense violando a ordem constitucional, à que juravam defender, depuseram ao presidente da República e instauraram um regime autoritário com a financiação, assessoria e o apoio político dos Estados Unidos, os quais iniciavam uma nova etapa para “controlar” a latino-america e acabar com qualquer possibilidade de um suposto “governo comunista”.

Da mesma forma no mês de maio de 2014, na Colômbia, se cumprirão cinquenta anos de ter acontecido um terrível fato que mudou os rumos das lutas sociais e populares do povo colombiano. Foram suprimidos os direitos de todas as pessoas moradoras de quatro legendárias vilas camponesas – Marquetalia, o Pato, Guayabero e Riochiquito. Acabou-se com a possibilidade de superar a violência, como forma de contra-restar ao oponente político, e de construir um sistema mais democrático que superara os espólios dos anos da violência partidarista Liberal-Conservadora contra o povo colombiano após do assassinato de Jorge Eliécer Gaitán.

No mês de maio de 1964, o céu das quatro vilas camponesas deixou de ser azul e se encheu de aviões militares dos Estados Unidos que bombardearam por trinta dias, de forma cruel, e desataram uma operação militar com dezesseis mil soldados colombianos. Fatos que aumentaram a violência contra o povo – que já a sofria desde 1948 – em nome dos governos liberal-conservador. A essa operação militar a chamaram Plano LASO, Latin American Security Operation; fazia parte do projeto, definido desde Washington, para experimentar uma nova estratégia de luta contra-insurgente e assim “controlar” qualquer suposta ameaça do “Movimento Internacional Comunista”.

Camponeses da resistência de Marquetalia, entre eles Pedro Antonio Marín “Manuel Marulanda Velez”

São estes dois terríveis fatos políticos que marcaram uma nova etapa do intervencionismo imperialista dos Estados Unidos na América Latina. Uma nova etapa que submeteu a nossos povos aos interesses diretos das classes políticas e financeiras desse país do norte, violando nossas soberanias, saqueando nossas economias e negando a conquista de direitos e da construção democrática.

Se bem os dois fatos não foram perpetrados com a mesma dimensão de força, o primeiro foi um ataque contra todo um país, o outro, contra quatro vilas camponesas. Nos dois, encontramos a mesma relação da nova estratégia de intervenção imperialista e a aplicação da doutrina de submetimento dos povos em nome da liberdade, da ordem e até da democracia: a doutrina da segurança nacional.

O que sim é claro é que os dois terríveis fatos marcaram de forma negativa a história política de nossos povos. No Brasil significou tempos de terror que enlutaram a alegria e negaram a esperança. Uma realidade, que ainda hoje, aterroriza a seus perpetradores – os algozes – fazendo que neguem a memória e escondam a verdade. No caso da Colômbia forçou-se a que importantes setores sociais e populares se obrigassem a pegar as armas para se defenderem, e a que a resistência camponesa se convertesse em guerrilhas. A classe governante tentou negar estes fatos, mas, paradoxalmente, os seguiu repetindo: manchou com sangue muitas regiões rurais colombianas.

A ditadura militar no Brasil durou vinte e um anos e ainda se percebem claramente suas sombras dentro do sistema político, nos atos de repressão da força pública e no aumento da desigualdade social. Geraram-se sofismas distratores para a legitimação do regime. A educação foi domesticada. O sistema político modelado para que nenhum governo progressista ou de esquerda pudesse fazer verdadeiras reformas sociais. A verdade foi ocultada e tergiversada enquanto alguns setores estabeleceram uma memória “oficial” negociada. A justiça está longe de ser aplicada pelos acordos que fizeram alguns grupos políticos para a “superação” da ditadura, dando-lhe uma vigência intocável à auto-anistia feita pelos militares.

Na Colômbia, a operação militar que destruiu a Marquetalia, e as outras três vilas camponesas, foi considerada um êxito, mas a história tem mostrado seu fracasso. Da população camponesa que fez resistência aos militares, somente sobreviveram quarenta e sete pessoas, as quais se converteram em guerrilheiros e tomaram o nome de Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia – FARC. As demandas que faziam como camponeses se transformou em seu projeto de programa agrário para a população camponesa colombiana. As causas sociais, econômicas e políticas que levaram ao surgimento da luta guerrilheira foram-se fazendo mais profundas e complexas com o passar dos anos. Hoje sua luta não é por defender as quatro vilas camponesas, senão pela construção de uma revolução popular para todo o país.

Cinquenta anos depois as demandas das organizações populares no Brasil para que fossem feitas reformas e mudanças estruturais seguem sendo vigentes e há muitas lutas ainda por empreender.

Cinquenta anos depois na Colômbia ainda se faz necessário superar a violência política do Estado, para que esta não seja a forma de contra-restar ao oponente político. Cinquenta anos depois ainda é necessário gerar garantias democráticas para que a esquerda colombiana possa disputar o governo e possa construir poder alternativo.

Ainda na atualidade se faz necessário lutar para que não sejam violadas nossas soberanias pela presença de militares dos Estados Unidos na Colômbia e em distintos lugares do continente. Ameaça que não somente existe contra o povo colombiano, senão, também, sobre os povos latino-americanos.

Ainda na atualidade se faz necessário lutar para construir uma verdadeira democracia, que não esteja permanentemente ameaçada pelo terrorismo do estado colombiano, gerado com o apoio dos Estados Unidos. Uma ameaça que se faz visível nas favelas de Rio de Janeiro e de São Paulo, somente para comentar dois claros exemplos. Ainda hoje se faz necessário construir uma democracia que não seja das elites e que não fique condicionada pelos setores empresariais, mas que seja popular e das bases. Da mesma forma, lutar por justiça social, que esteja de acordo às necessidades de nossos povos, com novos modelos econômicos e que não se restrinja aos interesses imperialistas e do mercado financeiro.


Walter Benjamín faz uma diferença entre os conceitos comemorar e rememorar. Mostra que as classes dominantes comemoram para assegurar-se de que a história se encontra morta e petrificada, sem possibilidades de mudanças e de novas construções que não sejam favoráveis a eles, como forma de manter essa ordem e perpetuá-la. Quem comemora aceita a ordem vigente e nega sua transformação.

Por outro lado, a rememoração é uma forma crítica de olhar os fatos do passado, é encontrar, em uma análise dialética, os cintilares – que ainda iluminam como relâmpagos – das realizações possíveis que foram truncadas. É lhes encontrar como experiências em nossa realidade atual, para superar as longas noites obscuras e os dias cinzas com a capacidade alegre e criativa de transformar e mudar de forma revolucionaria nossa realidade. Cinquenta anos depois desses terríveis fatos, sigamos lutando, com mais força, para superá-los e inventar um futuro socialista, que seja digno para nossos povos. 


* Membro do Partido Comunista Colombiano, faz parte do processo de solidariedade Agenda Colômbia-Brasil e é pesquisador do Centro de Estudios e Investigaciones Sociales (CEIS).

Agenda Colômbia-Brasil

A Solidariedade é dos Povos!!!

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