O Movimento de Pós-Graduação precisa avançar! (Tese da JCA ao XXIV Congresso Nacional dos Pós-Graduandos) | Juventude Comunista Avançando

terça-feira, 29 de abril de 2014

O Movimento de Pós-Graduação precisa avançar! (Tese da JCA ao XXIV Congresso Nacional dos Pós-Graduandos)

Tese da Juventude Comunista Avançando (JCA) ao XXIV Congresso Nacional dos Pós-Graduandos 

Apresentação — Nessa tese buscaremos analisar aspectos da realidade do pós graduando e a conjuntura nacional, a crise do capital as posições do governo atual. Queremos, com isso, fazer com que o leitor tenha uma noção de totalidade.

Apontamos para a necessidade de construção de um projeto alternativo de universidade que se contraponha ao projeto do capital: a luta pela Universidade Popular! Será a partir desse horizonte estratégico que iremos reorganizar o movimento da pós-graduação.

Atualmente, a diretoria da ANPG tem fechado os olhos para a verdadeira causa dos problemas de nosso segmento: o modelo de pesquisa desenvolvido no país. Por isso tem estado afastada dos interesses dos pós-graduandos e próxima aos interesses do governo, que tem atuado contra a educação pública.



I. REALIDADE DO PÓS-GRADUANDO


Em uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul [1], comprovou-se que os pós-graduandos strictu senso desenvolvem sintomas de depressão. Nessa mesma pesquisa, cerca de metade dos entrevistados aspiram ser docentes em universidades públicas. Em um dossiê sobre condições de trabalho, realizada pela ANDES [2], podemos ver que os mesmos sintomas são agravados pela precarização da carreira docente. Uma das maiores causas dessa precarização é a transferência da responsabilidade de financiamento das pesquisas para o docente [3]. Como o financiamento é concedido a partir dos índices e indicadores de produtividade, a vida acadêmica passa por uma aceleração e degeneração. O pós-graduando é “treinado” dentro dessa lógica, e participa desse ambiente produtivista. Daí que surgem as frustações, ansiedades e conflitos com a orientação, além da desilusão com os objetos de pesquisa.

Outro problema associado ao financiamento: em muitos ramos de pesquisa, o financiamento privado é estimulado. O resultado disso é uma ciência subjugada pelas necessidades do mercado, onde o resultado de uma pesquisa deve ser um produto vendável [4,5].

Já nessa primeira análise vemos a relação entre o modelo de pesquisa e a condição de saúde dos pós-graduandos. Podemos, também, traçar mais paralelos entre essa concepção de ciência, tecnologia e inovação e as nossas necessidades imediatas, como veremos a seguir.

O plano nacional de pós-graduação [6], aprovado em 2011, que busca acelerar e consolidar a interação público-privado deixa claro qual sua preocupação com a pesquisa no país: entre outros aspectos, prevê regularmente o aumento de 10% das bolsas à cada três anos. Isso não poderia ser mais ridículo! Nossas bolsas já contam com uma defasagem de quase 50% desde que foram implementadas até os dias de hoje. É clara a preocupação do atual governo com a pesquisa no país: facilitar a inovação para os setores produtivos privados, utilizando a mão de obra qualificada e os recursos humanos de mais alto grau do país pagando um “benefício”. Bolsa é um direito! É uma remuneração pelo trabalho associado ao nosso estudo e formação científica.

Utilizando-se novamente a pesquisa realizada na UFRGS [1], percebe-se a necessidade do pós-graduando enquanto estudante: Acesso à casa do estudante (realidade em apenas algumas universidades), os auxílios transporte, creche ou material, saídas de campo das disciplinas, etc... O PNAES não contempla os pós-graduandos! É engraçada a ideia de que uma bolsa contempla todas as necessidades de um ser humano. Um salário, por si só, não contempla. Por que a bolsa contemplaria? 

Assim, urge a necessidade por projeto de lei que regulamente nossa condição de estudantes pesquisadores, que possuem um trabalho associado ao seu processo de formação, é mais que necessário. Não possuímos data base, periculosidade e insalubridade. Sabendo que muitos dos pós-graduandos aspiram à carreira docente, pode-se incorporar o tempo de formação científica à contribuição previdenciária.

II. CONCEPÇAO DE PESQUISA, CIÊNCIA E INOVAÇÃO

Muitos pós-graduandos acreditam que, mesmo com esses problemas, estamos contribuindo para o desenvolvimento do país, e, portanto, nossas reivindicações são problemas resolvíveis dentro do modelo atual. É o que acredita a atual diretoria da ANPG, e estão redondamente enganados. Essa defesa, realizada pela entidade, ao financiamento e incentivo à inovação tecnológica como cerne para o desenvolvimento do país é uma estratégia que não conduz para a melhoria das condições de vida e desenvolvimento da população brasileira. Pelo contrário, o que se vê é a manutenção e aprofundamento das contradições, desigualdades econômico-sociais e distanciamento entre as universidades federais e a realidade concreta do povo brasileiro. A produção de tecnologia não pode ser tratada de forma descolada de seu contexto social de produção. De qual inovação tecnológica estamos falando? Que tipo de relação universidade-empresa está por trás deste modelo? Há muito material empírico para demonstrarmos que o modelo proposto é uma falácia como modelo de “desenvolvimento nacional”. Alguns exemplos: incubadoras e parques tecnológicos utilizados por multinacionais estrangeiras – como Dell, Microsoft - para a obtenção de mão-de-obra barata; pesquisadores incentivados a criarem empresas para prestação de serviços e criação de produtos que “replicam” tecnologias já existentes; patentes sendo obtidas, a partir de conhecimento nacional, para o lucro de estrangeiros, etc...

Logo, as APG’s por todo o país devem pensar e contribuir com um projeto alternativo de ciência e tecnologia. Devemos pensar numa universidade que se proponha a construir as perguntas e respostas juntamente com o povo. Devemos nos solidarizar com as diversas iniciativas de diferentes grupos dentro da universidade que tentam quebrar com a lógica vigente. As iniciativas populares, a desconstrução do produtivismo científico juntamente com a vendabilidade dos “produtos inovadores” são o início dessa longa caminhada. Questionar e debater com o conjunto dos pós-graduandos a concepção de universidade é a tarefa mais importante para todos nós hoje.

Desde o I Seminário Nacional de Universidade Popular (SENUP) [7], começou-se a articular tais pensamentos e ações contra hegemônicas, a partir da construção de um grupo de trabalho nacional. Defendemos a participação das APG’s nos grupos locais e a participação da ANPG na articulação nacional. 


III. ANPG E A CONJUNTURA NACIONAL


No desenvolvimento desigual do capitalismo a nível mundial, o Brasil assume posição marcada: passa por diversas formas de dependência, articulada à modernização conservadora e à emergência do capital monopolista. A formação social brasileira, que alia capitalismo e dominação burguesa dependentes, possui como elementos dinâmicos a “subordinação” e a “associação”, ou seja, forjou-se uma burguesia com vitalidade suficiente para internalizar a dominação imperialista e o capital financeiro a partir da própria estrutura dependente.

O capital internacional tem grande peso na economia brasileira. Junto ao capital nacional proporciona a apropriação dual do excedente produzido. Cresceu a participação privada e estrangeira em empresas estatais como a Petrobrás (de 1994 à 2012 foi de 16% para 50%). Também nos grupos econômicos privados, o controle estrangeiro é alto. Na Vale do Rio Doce, o capital estrangeiro possui mais de 60% do controle sobre as ações preferenciais. A empresa também possui como componente a exportação de capitais, com sede em 31 países. Grandes bancos privados brasileiros têm-se aberto ao capital estrangeiro, como o Bradesco e o Itaú. No comércio varejista, as quatro principais redes que atuam no Brasil (Pão de Açúcar, Carrefour, Walmart e Cencoud) têm hegemonia do capital estrangeiro, elas detinham 50% do mercado em 2011. As vinte maiores empresas do setor imobiliário e de construção, desde que abriram seu capital na Bolsa de Valores em 2006, tiveram 75% das ações compradas por investidores estrangeiros. No total, desde 2004, 1.296 empresas nacionais passaram ao controle estrangeiro.

Os setores que mais cresceram entre 2002 e 2011 estão vinculados às commodities minerais e agrícolas, seguidos das grandes construtoras e dos conglomerados bancários. Somente por último vemos a indústria de transformação. O capital migra para as áreas mais rentáveis, compatíveis com o papel do Brasil no desenvolvimento desigual do capitalismo. Assim, foram ao setor primário, resultando num crescimento vertiginoso das exportações de petróleo bruto, minério de ferro e soja. A participação das commodities nas exportações cresceu de 28,4% para 47,1% entre 2006 e 2011.

Isso está ligado ao fortalecimento do latifúndio: em versão modernizada como agronegócio, ele vinculou-se ao capital financeiro. Desde o Governo Collor (1991/1992) não havia tão poucas desapropriações de terras para a reforma agrária. Esse ano, o Governo Dilma destinou para a agricultura familiar R$ 21 bilhões, enquanto para o agronegócio foram R$ 136 bilhões. 85% das terras agricultáveis do país são destinadas ao cultivo da soja, enquanto a agricultura familiar é responsável por 70% dos alimentos que chegam diariamente à mesa dos brasileiros.

O setor da construção também exerce papel fundamental por se tratar de um campo da produção com baixa composição orgânica do capital (muita força de trabalho em relação ao maquinário empregado) e baixos salários, o que garante a exploração de grande massa de mais valia, capaz de proporcionar superlucros aos capitais ali investidos e remunerar capitais de outras áreas da produção.

Assim, o tão falado crescimento da economia – que esteve na média do crescimento latino americano – é hoje puxado pela crescente primarização e por setores de baixa composição orgânica do capital. O que houve nos últimos anos foi a reciclagem da dependência em nova onda de modernização conservadora do capital, combinada com certa exportação de capitais, processo que não tem necessariamente como núcleo decisório mais dinâmico os capitais nacionais.

Para compreender a universidade brasileira em seu contexto histórico, é preciso levar em conta as particularidades do desenvolvimento do capitalismo em nosso país, e os limites objetivos colocados para as classes dominantes nativas em seu projeto de dominação subordinado aos interesses do imperialismo, projeto no qual a universidade cumpre papel fundamental enquanto produtora de conhecimento, ciência, tecnologia e reprodutora de relações sociais e do pensamento conservador dominante.

Não há universidade que paire acima do modo de produção e do regime de classes. Ela é integrada à sociedade, internaliza seus dinamismos e contribui para a reprodução de muitas estruturas. Por outro lado, não o faz “passivamente”: como instituição-chave, ao mesmo tempo em que reflete, influencia um conjunto significativo de instituições da sociedade que a comporta. Assim, contribui para a formação de uma intelectualidade orgânica de classe, os quadros destinados a ocupar os postos do Estado, os novos educadores de diversas camadas sociais através dos diferentes níveis educacionais, os quadros técnicos para ocupar postos no sistema produtivo, os profissionais para a aplicação de políticas assistenciais, etc.

O projeto da burguesia de ampliação da vinculação da universidade com os grandes monopólios nacionais e estrangeiros passa pela ditadura militar, em que a “reforma” da universidade brasileira se adéqua aos acordos MEC-USAID, a famigerada agência estadunidense. A universidade brasileira amplia consideravelmente sua relação com os setores produtivos, adequando a produção de ciência e tecnologia ao projeto lucrativo do grande capital, usando e ampliando para isso toda a infraestrutura pública e os recursos humanos. Com a grande ampliação da pós-graduação, a universidade impulsiona a produção de conhecimento adequado a interesses estratégicos, tais como as áreas de minérios, energia, telecomunicações, e a chamada “revolução verde”, voltada à modernização do campo, vinculando o latifúndio ao projeto do capital financeiro. Paralelo a isso, há um grande incentivo aos grupos educacionais privados, que passam a ter o controle da ampla maioria das matrículas do ensino superior, situação que se prolonga até hoje. Essa situação consolidou uma ordem permanentemente autocrática e dependente, adequada ao fluxo da modernização conservadora e do desenvolvimento econômico sem democracia real, pois ocorre sem a realização das reformas democráticas e das tarefas nacionais típicas das revoluções burguesas clássicas. Está acabado o horizonte do reformismo burguês, o que impediu também uma reforma universitária que atendesse aos reais interesses do povo brasileiro.

Mais recentemente, o imperialismo através de diversas agências internacionais (BM, FMI, BID, OMC) tem buscado inserir a educação e a ciência e tecnologia no hall de serviços aptos a serem comprados e vendidos: consolida-se o chamado “capitalismo acadêmico”, a universidade-empresa. A síntese de todo esse processo é a universidade vinculada aos interesses do bloco de poder dominante em nosso país: o imperialismo, os monopólios e o latifúndio.

Por isso, afirmações como as propagadas pela atual diretoria da ANPG de que “para garantir a aceleração do desenvolvimento brasileiro é preciso investir em muita pesquisa e produção de novas tecnologias" e de que "para isso é preciso aumentar o investimento nacional, do setor público e do setor privado, em Ciência, Tecnologia, Inovação e no desenvolvimento de novas patentes" [8] são plenamente corretas apenas do ponto de vista dos interesses do capital. O aumento no investimento em C,T&I tem servido antes para acelerar os processos que visam a salvar o capital das tendências decrescentes das taxas de lucros do que para proporcionar algum "desenvolvimento" efetivo. O capitalismo já não é capaz de solucionar os problemas do povo, sobretudo em um país como o Brasil. Os pós-graduandos devem construir um projeto de transformação da universidade brasileira que se ligue a um projeto de desenvolvimento de C,T&I completamente diferente do atual, ou seja, um projeto popular, e não o do capital. Investir em pesquisa é fundamental, mas desde que o investimento se reverta em produção de ciência e tecnologia voltadas a resolver os problemas do povo brasileiro. O que a universidade brasileira tem produzido atualmente (salvo importantíssimas e louváveis exceções) tem se revertido no inverso disso: ciência e tecnologia voltadas a intensificar a exploração do povo trabalhador.


IV. ANPG E O CENÁRIO INTERNACIONAL


Em muitos centros de excelência, temos visto o crescente incentivo à “internacionalização”. O atual projeto do governo, Ciências sem Fronteira, nasce na tentativa de enviar estudantes brasileiros para universidade estrangeiras. Preocupado com o suposto fato de deficiência de engenheiros para atender o mercado brasileiro, o governo brasileiro incentiva a ida de estudantes de ciências exatas, biológicas e da terra a países da Europa e América do Norte.

Entendemos que o intercambio é uma ferramenta muito rica para a troca de cultural e científica. Tal ferramenta pode levar a laços de solidariedade entre os povos. Porém, a chamada internacionalização da universidade tem intenções políticas clara: Reproduzir o sistema linear de produção do conhecimento e estimular e desenvolver diversidade nas universidades americanas e européias. Além da intenção econômica: o governo brasileiro tem gasto dinheiro público para pagar a conta da manutenção de aluno de pós no exterior. Isso não seria problema se a troca de conhecimentos e a produção científica não fosse unilateral. Pagamos para que nossos cientistas contribuam com a inovação e tecnologia de outro país. No caso da graduação é ainda pior, tem pago as mensalidades de universidades privadas dos países hospedeiros.

Além dessa "exportação de fertilidade criativa", paga com dinheiro público, podemos confrontar a concepção de desenvolvimento científico abordado pelo programa. Não considera ciência as ciências humanas. Não considera que seus países vizinhos e irmãos possam hospedar seus estudantes.

O envio de nossos cérebros à universidades ideologicamente fortes e culturalmente diferentes contribui para a importação de modelos de pesquisa que não contribuem para o avanço e autodeterminação do povo brasileiro. Vivemos, já, o reflexo disso: a maioria dos professores e gestores públicos que definem a aplicação do dinheiro público para pesquisa e tecnologia o fazem com a mentalidade produtivista: baseiam seus critérios em índices de produção, acelerando o produtivismo, priorizando a publicação em periódicos estrangeiros e preocupando-se com a mercantilização da pesquisa.

Alguns europeus já perceberam os malefícios de tal modo de fazer ciência, a exemplo do manifesto Slow Science [9]. Outros cientistas, seguindo às iniciativas open source da informática, começam a questionar a propriedade privada da informação.

E o Brasil tem uma importante tarefa nesse cenário: orientamo-nos de acordo com a lógica produtivista. Doutrinamos nossos professores e alunos. Agora, passamos a doutrinar o resto da America Latina. Prestem atenção quantos alunos colombianos, equatorianos e peruanos estão presentes em nossas universidades. Há também os alunos africanos, oriundos do nosso continente-mãe. Tais estudantes, além de serem doutrinados, não possuem o direito a livre organização.

A ANPG tem o dever de formar e informar nossos estudantes sobre os problemas acerca de tal concepção de internacionalização. Tem também a tarefa de lutar para que os direitos que viermos a conquistar, se estendem aos nossos irmãos estrangeiros. A organização deles em nosso movimento é importante para que seu intercambio proporcione verdadeiros laços de solidariedade.


V. ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO DE PÓS-GRADUAÇÃO.


Como organizar-se? Como dar voz ao pós graduando e torná-lo agente ativo de sua própria história? 

Primeiro devemos transpor as barreiras da representatividade. Isso não se constrói do dia para a noite: devemos nos organizar pela base, organicamente. É preciso entender que o movimento tem de levar em conta a dinâmica própria do mundo da pesquisa e da pós-graduação. Para que isso ocorra é fundamental que a ANPG esteja disposta a recolher e impulsionar as pautas políticas que emanam das bases do movimento, reforçando uma estrutura e uma forma de agir que prioriza a construção do movimento "de baixo para cima", com a organização, por exemplo, de células de pós-graduandos reunidos localmente (por universidade ou por município) e de encontros estaduais com caráter horizontal e democrático.

Segundo, é necessário que a ANPG possua clareza política do rumo a seguir: um horizonte estratégico é mais que necessário. A luta dos pós-graduandos deve direcionar-se no sentido da disputa pela construção de uma política de pesquisa que não só seja voltada aos problemas do povo brasileiro, como também seja uma política de Estado, e não uma política de governo. Ou seja, a luta geral da ANPG deve ser permanentemente combativa, no sentido de colocar a pós-graduação brasileira no rumo que os pós-graduandos anseiam. Qualquer governo que não se proponha a efetivar as transformações exigidas deve estar sujeito à pressão dos pós-graduando organizados pela ANPG.

Terceiro, no âmbito da política interna, do posicionamento diante de política fundamentais que tocam à pós-graduação, a ANPG precisa ter unidade de ação, alto grau de independência e autonomia em relação aos governos e partidos políticos. O atual formato precisa ser superado. Defendemos a deliberação e execução das tarefas através do sistema de coordenações, onde se exerça a direção coletiva da entidade. Defendemos que o sistema presidencialista e a concepção proporcional de diretoria plena e executiva sejam colocadas em seu devido lugar, os museus. 

Por último, e mais importante, defendemos que o movimento se organize através do horizonte estratégico da universidade popular. 

A defesa pura e simples da universidade pública, gratuita e de qualidade se tornou insuficiente, pelo fato de a universidade atual poder ser classificada dessa maneira e mesmo assim não servir ao povo. O “grosso” da produção científica e tecnológica tem sido drenado para os grandes monopólios, se utilizando de toda a estrutura pública da universidade atual. A gratuidade tem sido mantida, embora a governo insista em “diminuir os gastos” com a educação. E a qualidade? Pode até se manter, mas não como padrão unitário e sim como “centros de excelência” desvinculados da grande maioria do povo e voltados ao grande capital.

A luta pela Universidade Popular começa pelas lutas que se constituem no interior das universidades tradicionais: a luta dos estudantes de Córdoba (1918) que lutaram contra a universidade elitista e arcaica; a constituição da Universidade Popular em Cuba no interior do projeto revolucionário e de construção do socialismo; as lutas da UNE pela reforma universitária (no interior das reformas de base) nos anos 60; a experiência ainda em constituição da Universidade Bolivariana da Venezuela. Começa também pelas experiências que os movimentos populares constituíram a margem da universidade tradicional, entre as quais poderíamos citar: a Universidade Popular González Prada no Peru (1921), na qual José Carlos Mariátegui ministraria diversas conferências e cursos, a Universidade Popular das Mães da Praça de Maio na Argentina (1999), e mesmo a Escola Nacional Florestan Fernandes (2005).

A luta pela Universidade Popular é uma estratégia política e essas e outras experiências devem fazer parte do acúmulo necessário para que as lutas no futuro sejam exitosas. Trata-se de um conjunto de táticas e bandeiras de lutas parciais que devem acumular para um fim conscientemente perseguido. Assim, ela também é guia para as ações presentes. Ao mesmo tempo, apresenta como finalidade decidida um projeto global para contrapor o projeto do capital que também é um projeto global. Assim, a estratégia de luta pela Universidade Popular não é em si uma identidade política de um campo do movimento, tampouco uma estratégia abstrata que paira sobre o movimento real. Ela está presente em cada luta específica atual e é condição para que elas acumulem força para o futuro e não parem em si mesmas. Apontar esse horizonte também é importante para dizer com quem andamos, nós estudantes: lado a lado com os trabalhadores e os setores populares, sujeitos históricos da transformação revolucionária da universidade e da sociedade, duas lutas que não podem de modo algum estar desvinculadas.

Lutar pela Universidade Popular hoje significa barrar os projetos atuais de privatização da universidade. Significa lutar contra a EBSERH e contra a Lei de Inovação Tecnológica e o Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (PL 2177). Significa lutar pela democratização da universidade, contra a famigerada “lista tríplice” e pela ampliação da participação estudantil nos processos decisórios. Significa lutar por mais financiamento (10% do PIB já), mas subordinar essa luta a uma transformação substantiva da universidade. Pela realização de pesquisa e extensão popular. Pela ampliação dos direitos de permanência estudantil. Pela transmissão do conhecimento de forma crítica. Enfim, muitas outras bandeiras parciais se integram assim à luta pela Universidade Popular.


VI. BANDEIRAS DE LUTA

1. Projeto educacional global para que a Universidade desempenhe a função social e culturalmente criadora de produzir conhecimento original, fazer pesquisa científica e tecnológica, defender a crítica à exploração e à opressão, e construir uma sociedade emancipada, onde os indivíduos possam desenvolver suas capacidades e atender a necessidades cada vez mais humanizadoras;

2. Efetiva democracia nas universidades, com eleição de dirigentes e composição dos órgãos colegiados a partir do voto paritário de professores, estudantes e trabalhadores técnico-administrativos;

3. Integração efetiva entre ensino, pesquisa e extensão, como princípio que favorece a ligação da Universidade com as necessidades sociais e os interesses populares, assim como a busca da unidade teoria-prática e o reforço a projetos coletivos de trabalho;

4. Enquadramento das instituições de ensino privado como concessões públicas submetidas ao interesse e ao controle do Estado e da sociedade, com autonomia acadêmica e administrativa em face das mantenedoras, com democracia interna e com respeito à liberdade de organização dos trabalhadores e estudantes;

5. Reconhecer a bolsa como direito e não como benefício;

6. Utilizar critérios socioeconômicos para a concessão de bolsas;

7. Estabelecer transparência na seleção de pós-graduandos e nos critérios de concessão de bolsa;

8. Combater o assédio moral a pós-graduandos por parte de orientadores e de coordenações;

9. Criar um ambiente saudável para a convivência e a troca de conhecimento entre os estudantes da pós-graduação, inclusive de diferentes áreas do conhecimento;

10. Promover disciplinas de estágio docente que contemplem a formação didática e pedagógica dos pós-graduandos;

11. Combater o ranqueamento de cursos pela Capes como critério para distribuição de recursos;

12. Implantar transparência na gestão de recursos (origem/distribuição);

13. Debater o financiamento da universidade e conseqüentemente das pesquisas ali produzidas;

14. Valorizar os periódicos nacionais e multidisciplinares e preservar o tempo de maturação de cada pesquisa;

15. Valorizar a extensão como item de progressão na carreira docente;

16. Incluir a participação dos pós-graduandos na avaliação dos cursos de pós-graduação;

17. Fortalecer as articulações a nível regional dos pós-graduandos;

18. Obter um plano nacional de assistência estudantil para a pós-graduação;

19. Retomar de discussão e conquistar a aprovação do projeto de lei do pós-graduando;

20. Instaurar uma política de valorização constante do pós-graduando;

21. Barrar as medidas de privatização e precarização da universidade (que tem expressão na atual “reforma” universitária);

22. Contra a EBSERH; Defesa dos HU´s públicos e estatais;

23. Contra o PL 2177 – Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação;

24. Pela contratação por concursos públicos para professores e funcionários, melhores salários, e contra a terceirização do trabalho e o desmonte dos planos de carreira; Pelo fim da lei que extingue concursos públicos para os chamados cargos de apoio.

25. Verba pública para educação e pesquisa públicas; 10% do PIB para a educação pública.

26. Criar e estimular os comitês da verdade em todas as universidades! Erradicar a herança da ditadura militar!

27. Lutar não é crime. Desmilitarização da polícia é necessária!

28. Pela construção do II SENUP – Seminário Nacional de Universidade Popular;

29. Pelo fortalecimento do GTNUP – Grupo de Trabalho Universidade Popular;


Referências
[1] http://apgufrgs.blogspot.com.br/2013/08/estudo-da-apg-contribui-para-revelar.html, acessado em abril de 2014

[2] Precarização do Trabalho Docente - Dossiê do ANDES, disponível em http://portal.andes.org.br/imprensa/noticias/imp-ult-1965703512.pdf

[3] Araújo, G. L.; A nova geração de professores universitários: Proficionalização, condições de trabalaho e sua relação com a produtividade científica da UFRGS; Dissertação (mestrado em sociologia) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UFRGS, POA (2013).

[4] Código Nacional de Ciência, Tecnologioa e Inovação, disponível em http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=B210156D114ABF8F5958B14369708F2D.node1?codteor=926512&filename=Avulso+-PL+2177/2011, acessado em abril de 2014.

[5] http://gtnup.files.wordpress.com/2013/07/cartilha.pdf

[6] Plano Nacional de Pós Graduação, disponível em http://www.capes.gov.br/sobre-a-capes/plano-nacional-de-pos-graduacao, acessado em abril de 2014.

[7] http://senup2011.blogspot.com.br/, acessado em abril de 2014

[8] http://www.anpg.org.br/?page_id=237, acessado em abril de 2014

[9] http://slow-science.org/, acessado em abril de 2014