A vitoriosa ocupação da reitoria da UFRGS e a rearticulação do Movimento Estudantil | Juventude Comunista Avançando

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A vitoriosa ocupação da reitoria da UFRGS e a rearticulação do Movimento Estudantil

Foram 10 dias de uma intensa ocupação de reitoria, com amplos debates acerca dos problemas da universidade e reflexões sobre sua relação com os problemas da educação como um todo. Debates que foram além das pautas imediatas (que possuem imenso valor para os estudantes da UFRGS, sobre tudo para os estudantes oriundos das camadas populares), e problematizaram a relação da universidade com a iniciativa privada e a concepção de educação voltada para atender aos interesses do capital. O símbolo máximo do repúdio a esse modelo foi a luta travada contra o convênio da Universidade com a empresa israelense Elbit, que visa uma “cooperação tecnológica” em pesquisas para o desenvolvimento de satélites usados pelo exército de Israel. O imoral convênio, refutado por unanimidade pelos estudantes presentes nas assembleias, mostra-nos com clareza as implicações políticas da apropriação do conhecimento científico pelo capital. Infelizmente a resposta da reitoria para este (como o foi para outros tantos temas) foi desconsiderar a posição dos estudantes, referendando o convênio e tornando-se conivente e cúmplice do genocídio praticado pelo Estado sionista contra o povo palestino. Mesmo não logrando uma vitória contra o convênio, foi notória a consciência dos estudantes de que a luta passa por questionar e enfrentar esse modelo mercadológico de educação, tendo como uma das principais palavras de ordem a já clássica reflexão: “pra que (m) serve teu conhecimento?”

Boa parte dos estudantes também questionou o atual modelo de representatividade nos conselhos e a falta de democracia dentro da universidade, apontando como horizonte a luta pela paridade, que, aliás, foi um dos tantos pontos que unificou as lutas de estudantes e trabalhadores técnico-administrativos. Tal reflexão levou a um questionamento acerca das estruturas de poder da universidade, ampliando o debate sobre democracia e estreitando a relação do movimento estudantil com os trabalhadores técnico-administrativos.

Os temas específicos estiveram presentes em mais de 100 pontos levantados inicialmente, número que demonstra o nível de insatisfação dos estudantes com as políticas implementadas pela reitoria e seu descaso crescente com temas como assistência estudantil, permanência, segurança, qualidade da infraestrutura, acessibilidade, etc. Depois de amplos debates e um duro trabalho, foi construído de forma horizontal um documento com as reivindicações do Movimento, o mesmo fora entregue ao reitor. O movimento recebeu a desrespeitosa resposta de que a reitoria não se comprometia com nenhuma das pautas apontadas. Por conta disso resistiu ocupando a reitoria e recebeu a notícia de que o reitor havia pedido a reintegração de posse, caluniando e buscando deslegitimar o movimento. A resposta da justiça foi estabelecer uma audiência de negociação. Baseados em uma prática horizontal, construímos nossas propostas para a audiência e nesta logramos três importantes vitórias, que estavam entre as pautas debatidas desde o início da ocupação e construídas coletivamente, foram elas: a conquista de auxílio alimentação para os estudantes que moram nas casas do estudante no valor de 200 reais mensais, a gratuidade no RU para os estudantes que possuem benefício PRAE e a não criminalização do movimento. Tais vitórias demonstram o recorte claro de classe que possuem nossas reivindicações e nosso comprometimento com os estudantes oriundos das camadas populares.


A JCA, juntamente com outras forças políticas e independentes participou ativamente da ocupação, e prestou sua solidariedade construindo o movimento de maneira propositiva e horizontal. Vemos com muitos bons olhos a prática da horizontalidade exercida neste espaço. Cremos que foi exatamente essa prática que garantiu nossa unidade, nossa firmeza na construção das propostas e no momento de negociação, que garantiu as vitórias obtidas. A não burocratização do movimento, o diálogo fraterno e respeitoso, a construção coletiva e apoio mútuo demonstram que outro modelo de movimento estudantil é possível. Que devemos e podemos superar os vícios que tem separado boa parte da base dos estudantes das lutas do ME. Nós da JCA, lutamos pela reconfiguração do Movimento Estudantil entorno da construção da bandeira de um forte movimento por uma Universidade Popular, enfrentando a atual mercantilização da educação e lutando para que nosso conhecimento sirva à transformação social, atendendo às demandas das classes populares na perspectiva de uma ruptura com o capital. Acreditamos que a forma como a ocupação da reitoria foi organizada é um passo importante nesta construção, uma vez que já mostra que a superação de práticas burocráticas e de autoconstrução é possível, e o estabelecimento de novas relações e formas de construir as lutas está a nosso alcance. 

Agora, a tarefa é árdua: devemos voltar as bases, mobilizar os estudantes e amadurecer o programa político! Viva o Movimento estudantil!

Juventude Comunista Avançando - Porto Alegre