Soledad Barrett Viedma | Juventude Comunista Avançando

domingo, 3 de agosto de 2014

Soledad Barrett Viedma

A neta do renomado escritor paraguaio (espanhol de nascença), Rafael Barrett, Soledad Barrett Viedma, nasceu em 6 de janeiro de 1945. Do avô, morto em 1910, Sol “herdou” o inconformismo e a identificação com a classe trabalhadora. Rafael foi um dos que trouxeram ao Paraguai as raízes anarquistas espanholas, que em terras americanas dariam inúmeros frutos comunistas.

Aos 17 anos, em Montevideo, onde se exilou com os pais, Soledad, reconhecida como comunista, foi atacada por nazistas que a obrigaram, sem sucesso, a fazer a saudação hitlerista. Por não aceitar a violência dos bárbaros foi condenada a carregar as marcas da suástica, gravadas à navalha, nas suas pernas.

Mais tarde viveu alguns anos em Cuba, onde casou com um brasileiro (José Maria Ferreira de Araújo), com quem teve uma filha. Seu plano era voltar ao Brasil com seu marido, que retornou um ano antes. Soledad conseguiu regressar em 1970, já como militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

No Brasil recebeu a notícia do assassinato do marido. Meses depois, conheceu e se relacionou com o famigerado Cabo Anselmo, que em 1963 havia liderado o movimento dos marinheiros e, após o golpe de 1964, posto na clandestinidade. Cabo Anselmo, que carregava a aura de mito na esquerda brasileira, na realidade, era soldado de patente. De fato, provou-se mais adiante, o ex-soldado, em algum momento, tornou-se agente da repressão, infiltrado no movimento de esquerda organizado, passando a levar informações sobre os militantes e sentenciá-los, conforme os delatava.

O casal viveu na clandestinidade, colaborando com o movimento revolucionário da época.

Deu-se, então, em 8 de janeiro de 1973 o chamado “massacre da chácara São Bento”, cujo relato oficial narra um tiroteio em que seis guerrilheiros teriam sido mortos, enquanto um conseguira escapar: Anselmo. Segundo a polícia, Soledad teria morrido neste episódio.

Só em 1995, com a abertura de alguns arquivos institucionais, a verdade pôde ser contada. Soledad foi capturada junto à Pauline Reichstul, na boutique em que trabalhavam. “Soledad e Pauline estavam na boutique quando 5 homens [entre eles o próprio Anselmo], dizendo-se policiais, invadiram o local, golpearam selvagemente a Pauline enquanto Soledad, que estava grávida, só se perguntava insistentemente ‘por quê?’ [...] depois as duas foram levadas em dois carros.”

Muito provavelmente só nesse momento Soledad conheceu a verdadeira face do seu companheiro, quando este a entregou para a morte mais torpe, com o próprio filho no ventre.

Nem pôde superar a imensurável dor da traição extrema, passou imediatamente às mãos do delegado Fleury para as sessões de tortura. O relato da advogada Mércia Albuquerque ao encontrar o depósito de cadáveres do cemitério do Santo Amaro é extremamente gráfico: “Pauline estava nua, tinha uma perfuração no ombro e parecia ter sido muito torturada. [...] Soledad, também nua, tinha ao seu redor muito sangue e aos seus pés um feto.”

Desde sua mais tenra juventude a neta daquele talentoso anarquista já via no mundo os males a serem superados, e sentia o peso da responsabilidade, e da ameaça atroz do nazi-fascismo. Porém, nunca se furtou do enfrentamento, ou se curvou diante dos cães da burguesia.

A coragem e determinação dessa imensa mulher merecem ser lembrados e seguidos pelas novas gerações de comunistas que recebem um mundo cujas contradições de classe tornam-se a cada dia mais agudas e ferozes.


A JCA tem orgulho de ter nomeado um de seus núcleos de base com o nome de Soledad Barrett Viedma! Lutadora comunista latino-americana! Viva Soledad!

Soledad Barret
Daniel Viglietti

La duda lleva mi mano hasta la guitarra,
mi vida entera no alcanza para creer
que puedan cerrar lo limpio de tu mirada;
no existe tormenta ni nube de sangre que
puedan borrar
tu clara señal.

La soledad de mi mano se da con otras
buscando dejar lo suyo por los demás,
que a mano herida que suelta sus armamentos
hay que enamorarla con la mía o todas
que los van a alzar,
que los van a alzar.

Una cosa aprendí junto a Soledad:
que el llanto hay que empuñarlo, darlo a cantar.

Caliente enero, Recife, silencio ciego,
las cuerdas hasta olvidaron el guaraní,
el que siempre pronunciabas en tus caminos
de muchacha andante, sembrando justicia
donde no la hay,
donde no la hay.

Otra cosa aprendí con Soledad:
que la patria no es un solo lugar.

Cual el libertario abuelo del Paraguay
creciendo buscó su senda, y el Uruguay
no olvida la marca dulce de su pisada
cuando busca el norte, el norte Brasil,
para combatir,
para combatir.

Una tercera cosa nos enseñó:
lo que no logre uno ya lo harán dos.

En algún sitio del viento o de la verdad
está con su sueño entero la Soledad.
No quiere palabras largas ni aniversarios;
su día es el día en que todos digan,
armas en la mano: "patria, rojaijú"*

*rojaijú: te quiero (guaraní)

Publicado originalmente no JA no. XIII