Nota Política - Eleições DCE UFRGS 2014 | Juventude Comunista Avançando

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Nota Política - Eleições DCE UFRGS 2014

Há alguns anos o movimento estudantil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) vê a ascensão de grupos conservadores organizados – que se antes já existiam de forma dispersa reproduzindo discursos de senso comum. Hoje, representam uma direita ideológica com uma clara agenda privatista, elitista e antipopular, fundamentando-se na reprodução de um discurso reacionário, opressor e excludente.

Em boa parte desse período, nós da Juventude Comunista Avançando (JCA), como uma organização atuante no movimento estudantil de nossa universidade, na permanente construção da estratégia por uma universidade popular, avaliamos como necessária uma unidade da esquerda anti-governista para combater a crescente do conservadorismo, assim como o projeto neo-desenvolvimentista do governo federal para a educação brasileira (que tem atrelado à educação a interesses dos monopólios, do latifúndio e do imperialismo, submetendo a educação nacional aos ditames das cartilhas do Banco Mundial e FMI), representado em nossa universidade pela sua administração central.

Nos anos em que estivemos ombro a ombro com grupos de esquerda até então hegemônicos na UFRGS, sempre alertamos que práticas vanguardistas, verticais e muitas vezes aparelhistas estavam pavimentando o caminho para o crescimento da direita e do governismo dentro do movimento estudantil. Entendemos, é claro, que o crescimento da direita deve-se a vários fatores: a despolitização provocada por governos ditos de “esquerda”, uma conjuntura adversa e uma crise de participação e representatividade que não está só nos corredores da UFRGS, mas na sociedade geral. Porém, isso tudo, aliado ao afastamento da entidade da base dos estudantes e à malfadada prática da autoconstrução pela autoconstrução, praticada por algumas organizações que compuseram gestões anteriores, agravaram esse processo e auxiliaram o esvaziamento do movimento e a vitória da direita conservadora com recortes fascistas nas eleições de 2013, sendo esta, gestão no ano de 2014. Uma gestão marcada pelo atrelamento da entidade a partidos liberais/conservadores, aos interesses privados. Vimos um silêncio perante as demandas das/dos estudantes, sobretudo das/dos estudantes trabalhadores/as, atacando e visando desconstruir as lutas que ocorreram no período, e propagando discursos e práticas de ódio profundamente conservadores e opressores em aliança com grupos auto-declarados fascistas.

Da luta viemos...

As lutas e articulações que ocorreram na universidade no ano de 2014, tais como o comitê de luta pela paridade, o comitê estudantil em defesa da palestina, a fundação e construção do coletivo de bolsistas, a ocupação do direito e a vitoriosa ocupação da reitoria (lutas as quais não nos apropriamos como “donos” ou “tutores”, mas que estivemos construindo ativamente) aproximaram setores (organizações e, sobretudo, estudantes independentes) que ao longo do processo foram se tornando uma verdadeira articulação, neste momento para tocar as lutas da universidade e a luta dos “de baixo” em geral. No período das eleições houve um sentimento geral de que este campo deveria dar uma resposta programática e propositiva às demandas das/dos estudantes que foram levantadas nas lutas ao longo do ano. Como o momento eleitoral é bastante fértil ao debate e como o DCE é uma importante ferramenta na organização e potencialização das lutas, avaliamos por bem abrir um processo de debates com todas as forças da esquerda anti-governistas acerca da possibilidade de formação de uma chapa que expressasse o acúmulo dessas e outras lutas que vinham/vêm ocorrendo, e a constituição – mais do que uma “coligação” eleitoral – de uma frente capaz de construir uma agenda de lutas para o próximo período e também de médio/longo prazo, visando combater o pensamento conversador, não só personalizado na gestão de direita do DCE/2014, mas principalmente na hegemonia liberal/conservadora/burguesa que permeia as relações econômicas, sociais e culturais neste país de capitalismo dependente.

Achamos que o combate à hegemonia burguesa, que alargue o caminho para superá-la, só poderia se dar com um debate verdadeiramente programático e horizontal, não somente por uma unidade de correntes, mas que fosse oriundo das lutas das/dos estudantes, e principalmente, forjado em práticas de novo tipo, como horizontalidade, apoio mútuo, democracia de base, busca permanente pelo estabelecimento de consensos, e muito respeito entre os coletivos e indivíduos. Neste sentido chamamos três convenções abertas a quem quisesse se somar, e aqueles que ali estiveram compreenderam que a unidade se dá como expressão das lutas e não nas vésperas das eleições. Desse processo deu-se a construção da chapa Na Mesma Barca – Unidade é pra Lutar! Construímos de maneira horizontal e coletivamente um programa desdobrado em 4 eixos (democracia, formação universitária, direitos estudantis e diálogo/relação universidade/sociedade), com mais de 27 páginas, baseado sobretudo nas pautas levantadas na última ocupação da reitoria.

Priorizamos o debate franco e propositivo com as/os estudantes, fazendo da campanha, dos debates e das passagens em sala, um verdadeiro chamado à organização entorno deste programa, que é uma agenda de lutas (para além das eleições) para o ano de 2015.

Chamamos a atenção para o fato de que não se vence a hegemonia liberal/conservadora/burguesa com discursos retóricos, mas com organização e trabalho de base conseqüentes, com a luta popular, construída junto aos “de baixo” e à esquerda, com a mobilização das/dos estudantes. Em momento algum caímos na vala comum do vale-tudo eleitoral, orientada pela velha máxima de que “os fins justificam os meios”. Buscamos desde a campanha estabelecer uma práxis libertadora e pedagógica, orientada por valores de transparência, sinceridade, respeito e apoio mútuo, tendo sempre a certeza de que a eleição não é um fim em si, mas uma página a mais nesta agenda da luta popular que deve sempre ir para além dos limites institucionais. Neste sentido nossa campanha foi linda. Estivemos em todos os campi da universidade, debatendo com estudantes de todos os cursos, recebendo muitos apoios, aprendemos muito com as/os estudantes com quem tivemos a oportunidade de conversar, tivemos a oportunidade de ouvir sugestões para as quais não tínhamos atentado anteriormente, críticas que nos serviram de baliza para nossas autocríticas e para buscar superar nossas limitações, e chamamos a todas/os para uma reflexão acerca do movimento estudantil, de pra que(m) serve o conhecimento produzido na universidade, como devemos nos colocar enquanto sujeitos na história, etc.

Essa foi a missão que nos propusemos a cumprir, e creio que dela saímos vitoriosos. Uma vitória política importante, que foi expressa nos 1384 votos que recebemos. Não olhamos apenas para a cifra, como se as/os estudantes fossem apenas números. Porém, muito nos alegra essa expressiva votação, pois sabemos que são 1384 votos conscientes, reflexivos, ideológicos, oriundos de uma postura de confiar na capacidade de reflexão das/dos estudantes.

A eleição se encerrou com o maior quorum desde a redemocratização, tendo a participação de mais de 7 mil estudantes, um número ainda pequeno (se comparado ao número de estudantes da UFRGS), mas que nos dá esperanças de ver mais colegas se integrando ao movimento estudantil, não apenas pelo voto, mas como sujeitos ativos na construção do mesmo. Temos a certeza que a nossa chapa contribuiu bastante para esse crescimento.

Por fim, a direita sofreu importante derrota nestas eleições. Reconhecemos a vitória da Chapa Podemos – Mobilizar e Conquistar e a importância da derrota eleitoral da direita. Acreditamos que a nossa chapa teve papel fundamental para tal derrota, pois fizemos massivas passagens em sala nos cursos onde a direita tem votações expressivas. Contribuímos para a construção de uma contra-hegemonia, que mesmo em caráter embrionário pode abrir o caminho para suplantarmos a hegemonia liberal/conservadora/burguesa não só eleitoralmente, mas em todos os âmbitos. Esperamos que as/os companheiras/os possam fazer a necessária autocrítica para que esta não seja apenas uma gestão de esquerda, mas possa estar no cotidiano da base dos estudantes, construindo as lutas de forma horizontal e possibilitando em um futuro (esperamos que próximo) o sepultamento do pensamento conservador em nossa universidade e nossa sociedade. Em todas as lutas que as/os companheiras/os estiverem presentes, lá estaremos, de forma independente, construindo a unidade de ação, a unidade na luta. Neste sentido ressaltamos que não comporemos a gestão de 2015, talvez frustrando a expectativa de alguns que assim esperavam. Estaremos nas lutas cotidianas da universidade e dos debaixo e à esquerda, se lá se encontrarem as/os companheiras/os, certamente nos veremos ao longo do ano.

O trabalho necessário para a construção de uma Universidade Popular é um trabalho cotidiano, um trabalho voltado para a base. Sabemos que não é a vitória eleitoral que dará conta dessa tarefa, e sabemos que nossa participação nas eleições, embora importante, não é a força motriz que pode construir as possibilidades de superação desta ordem educacional (e social) vigente. Desta forma, queremos chamar todos os/as estudantes a participarem das diversas lutas que possuem caráter permanente na universidade, desdobradas em táticas importantes:
- Construir o Fórum de Representantes Discentes (RD's) unitário, para que a direita não tenha vez dentro da burocracia da Universidade;
- Compor e construir a luta pela Paridade nas unidades e nas câmaras e conselhos gerais da universidade; e o Comitê de luta pela paridade espaço unitário dentro da UFRGS;
- Construir o Grupo de Trabalho Universidade Popular (GTUP) na perspectiva de um movimento não só estudantil, mas também universitário que lute por projetos autônomos e populares articulados a um projeto de universidade que dispute os rumos da UFRGS.
- Construir e articular nos diferentes campi o Coletivo de Bolsistas recentemente fundado na UFRGS;

- Chamar e articular o calendário de lutas dentro da UFRGS que tenha fôlego para todo o ano de 2015!

Lutar, Criar Universidade Popular!