Missão de Solidariedade internacional com a Venezuela e a Revolução Bolivariana – parte 3 | Juventude Comunista Avançando

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Missão de Solidariedade internacional com a Venezuela e a Revolução Bolivariana – parte 3

Queridos/as Camaradas!

Nesse terceiro dia de Missão de Solidariedade fomos encaminhados para conhecer um dos pontos históricos mais importantes da Venezuela, o chamado Quartel da Montanha, ou, quartel 4F. Este quartel histórico foi palco da insurreição militar que mudou para sempre a história da pátria venezuelana. Foi onde Chávez organizou um grupo de militares pra se insurrecionar contra o governo no dia 4 de fevereiro de 1992, dessa forma essa data tem um significado tão importante para os venezuelanos como o dia 26 de julho para os cubanos. Essa insurreição foi motivada principalmente pelo massacre de 1989 do Presidente Carlos Andres Perez, que mandou assassinar mais de 3mil pessoas em Caracas, episódio conhecido como “Caracasso”. Por muitos anos, o Quartel da Montanha foi usado como Ministério da Defesa e depois como Museu Militar, atualmente também funciona como Museu, mas de um caráter completamente distinto de antes. É lá onde os restos mortais de um dos mais importantes líderes populares da Venezuela estão, é onde repousa o comandante Hugo Rafael Chávez Frías.

A fachada do Quartel é decorada com um gigantesco “4F” e também com uma grande tocha, cuja chama nunca se apaga. Na entrada as guias nos levaram próximos de alguns canhões antigos, explicando que um deles ainda era disparado todas as tardes para enviar uma mensagem ao mundo de que a luta pela independência na Venezuela jamais vai cessar. Outra parte do Quartel foi a chamada “Praça do Retorno Eterno”, que ostenta todas as bandeiras das pátrias latino-americanas, simbolizando a luta para transformar o continente latino-americano em uma só nação, o que se chama Pátria Grande, a obra que Bolívar foi um dos pioneiros, quando tentou construir a “Grã-Colômbia” logo depois das guerras de independência. 

A Grã-Colômbia, que agregava o que hoje chamamos de Equador, Venezuela, Colômbia e Bolívia, foi interrompida principalmente com a morte de Simón Bolívar, assassinado pela oligarquia traidora. Mas essa luta está longe de terminar. Nós, brasileiros, temos muito mais semelhanças com nossos irmãos latino-americanos do que com qualquer outro povo do mundo, mesmo falando outra língua. E por isso não podemos permitir que a ideologia dominante enxertada pelo imperialismo em nosso país, nos distancie da identidade latino-americana.

Avançando, seguimos dentro do Quartel, onde repousam os restos mortais de Chávez. Seu mausoléu fica no hall central do Quartel, iluminado pela luz natural do sol, através de um terraço. Ao seu lado, permanecem quatro guardas em posição de sentido e disciplina o tempo todo. No corredor de entrada, grandes placas de mármore com frases do comandante talhadas decoram o local. É feita uma fila para que todos nós possamos passar por seu túmulo e deixar uma rosa branca, amarela, vermelha, ou azul que nos foi entregue quando saímos do transporte. A guarda bolivariana controla firmemente a passagem pelo túmulo de Chávez, como se cuidasse de seu comandante ainda em vida, e parecia até estar incomodada com uma presença de tão numeroso grupo. Com apenas poucos segundo de passagem, obrigaram a nos contentar com uma visão distante do local. Por dentro do quartel há algumas salas que guardam objetos pessoais e fotos históricas do comandante. Lá também não pudemos permanecer por muito tempo.

Depois da visita ao Quartel, descemos a “Montanha” e fomos até uma das mais importantes e mais bem organizadas comunidades da Venezuela, e talvez da América Latina, a Comunidade “23 de Enero”. A entrada da comunidade é repleta de pinturas nos muros, de diversos lutadores e outros movimentos da América Latina e do mundo, como Marulanda e Raul Reyes das FARC; a luta da Palestina ou do povo basco na Espanha. Isso já demonstra que há uma vanguarda dentro da comunidade que transcende o chavismo e compreende a luta como de todos os povos do mundo. Fomos recebidos por alguns dirigentes que fazem parte da “Coordinadora Simón Bolívar”, algo como a entidade organizativa. Contaram-nos que a comunidade foi fundada durante a Ditadura, entre 1956 e 1957, a partir de um projeto de conjunto habitacional de gigantescos prédios. Os prédios são muito altos, que segundo eles parte de uma concepção urbanística de individualizar o morador de forma que não se relacione com seus semelhantes. Mas com muito orgulho disse que conseguiram quebrar isso, de forma que todos se conhecem hoje. Há também um história de 23 de enero com a Guerrilha que se formou nos anos 1960. Além de ser guardado pelo Quartel da Montanha, palco de importantes episódios para o movimento popular venezuelano, a comunidade cerca o Palácio Miraflores, a sede do governo. Como um invólucro protetor, a comunidade mais empobrecida e rebelde - com cerca de 100 moradores militantes assassinado - da Venezuela é a guardiã protetora do governo bolivariano!

Hoje, a Coordinadora tem sua sede funcionando num antigo quartel da polícia militar, que nas ditaduras foi um terrível ponto de torturas. Não são mais gritos de dor que ecoam daquele antigo quartel, são gritos de ordem que anunciam as transformações por vir. Agora as forças armadas da Venezuela já não os reprimem, mas os defendem dos ataques da elite entreguista. Os membros da Coordinadora ainda nos falaram que possuem o Infocentro, que disponibiliza computadores e internet gratuitamente à comunidade. Logo na sua entrada há um placa sinalizando onde fica, com a consigna “Construyendo el Socialismo”.

Anteriormente quando mencionei uma rádio com a qual havia ficado impressionado, descobri ali que se tratava de uma das três rádios comunitárias que a comunidade possui: “Al son del 23”, “Arsenal” e “Pedrita”. Além das rádios, do infocentro e do prédio da Coordinadora, a comunidade possui a “Libraria Del Sur”, que disponibiliza livros ao povo em preços baixíssimos. Governo popular e povo organizado, afinal, fazem uma ótima combinação.
No seguinte momento visitamos a Casa de Cultura Simón Rodriguez, um projeto cultural no bairro do Manicomio (por conta de um hospital psiquiátrico da região). Um grupo que tem feito um trabalho cultural no bairro há 35 anos e que recebeu um importante apoio do governo a partir de Chávez.

O último momento de nosso dia foi uma visita à sede nacional do Partido Comunista da Venezuela (PCV). Um dos membros do Comitê Central do Partido, Perfecto Abreu nos contou a história e de construção da sede, que foi construída pelo trabalho voluntário de vários camaradas do partido, trabalhando nos finais de semana, em suas férias, arrecadando recursos para disponibilizar ao Partido e seu Comitê Central um instrumento político organizativo para funcionar. Mas a sede também é o centro de atividades da JCV e do jornal do partido, o “Tribuna Popular”, que ainda tem em seus porões antigas máquinas de imprensa que eram usadas durante os períodos de clandestinidade. Sua história foi muito inspiradora e nós, enquanto Juventude Comunista Avançando, ligada ao Polo Comunista Luiz Carlos Prestes, devemos nos esforçar também para conquistarmos espaços como esse que possibilitam a profissionalização de nossa organização. Só com muito auto-sacrifício, dedicação, e disciplina individual e coletiva, seremos capaz de conquistar um espaço como esse. Depois disso, nós e outros membros do Comitê Central do PCV fomos à sua sala de reuniões e Oscar Figuera fez um discurso muito importante. Dentre outras coisas, nos afirmou de forma estridente que “Não há socialismo na Venezuela”. Isso pode ser contraditório com o discurso do governo, mas nos afirmou que é dever do Partido Comunista defender a precisão científica do socialismo. Sobre a atual crise, disse que sua proposta é criar uma Frente Ampla Patriótica, que recupere o Gran Polo Patriotico que se converteu num sistema eleitoral, em uma verdadeira Frente que derrota a direita e abra caminho para a verdadeira construção do socialismo. Para a questão do abastecimento está defendendo a organização e criação de sistemas de abastecimento popular. Embora, segundo ele, não haja socialismo na Venezuela, nos disse que o povo possui grandes fortalezas de consciência política que podem abrir o caminho para o socialismo.

O que pude concluir, ao final, é que o PCV tem um papel importantíssimo nos rumos da Revolução Bolivariana. Embora o PSUV ainda seja direção ideológica hegemônica, a firmeza de princípios e de concepção do PCV podem ser decisivos em momentos de confusão, principalmente num momento que os limites de avanços populares dentro do espectro da democracia burguesa começam a se esgotar, e é necessário pensar além do plano eleitoral formal, na tomada do poder e na definitiva liquidação do poder da oligarquia na Venezuela! Logo chegará a hora de a República Bolivariana da Venezuela como Che, gritar ao mundo: Patria o Muerte!

Giovanny Simon

Caracas, 23 de fevereiro de 2014.