O xadrez e os comunistas: Marx e Lenin | Juventude Comunista Avançando

domingo, 27 de setembro de 2015

O xadrez e os comunistas: Marx e Lenin



É irrefutável o fato de que os maiores campeões do xadrez em escala mundial foram os russos. Não apenas os russos, mas o xadrez desenvolvido particularmente no período soviético. Lenin considerava o xadrez um jogo importante que além de passatempo, poderia estimular o pensamento lógico e o exercício para pensar a tática e estratégia entre os revolucionários.
Este breve texto visa recuperar uma face pouco comentada na vida de importantes personalidades da tradição socialista e também da experiência soviética e cubana na sua transformação não apenas econômica, mas também cultural e intelectual.
Por que os soviéticos eram tão bons no xadrez? Primeiro porque o Estado soviético incentivava profundamente a popularização do xadrez, mas também há uma linha geracional muito forte, pois o jogo fazia parte do incentivo intelectual dado por grandes lideranças como Lenin, Trotsky e Lunatcharsky dentro do Partido Bolchevique, mas também fazia parte da herança do “pai” do socialismo científico, Karl Marx.

Marx e o xadrez

Wilhem Liebknecht, comunista alemão, pai de Karl Liebknecht líder dos Espartaquistas junto com Rosa Luxemburgo, descreveu o entusiasmo de Marx com xadrez: “tentou completar o que lhe faltava no zelo da ciência pela impetuosidade no ataque e na surpresa”1. Ademais, há registros que a dedicação de Marx ao xadrez chegou a ser considerada uma obsessão que atrapalhara seu trabalho como cientista, passando noites inteiras jogando com seus colegas de exílio2. Liebknecht relatou que Marx não era um jogar casual, era um apaixonado: “quando era pressionado no jogo perdia a paciência, quando perdia o jogo ficava furioso”. Marx era “emocionalmente volátil feliz e - sociável quando ele estava ganhando, desagradável quando ele estava perdendo”.
A obsessão de Marx pelo xadrez não podia deixar de ter seu paralelo com a ciência. Segundo, Liebknecht, o grande pensador tinha um “fôlego esgotante durante todo o dia, sessões de maratona toda a noite em que Marx, perdia jogo após o jogo, mas insista em testar repetidamente e refinar uma inovação ou uma abertura variação do desenvolvimento do jogo até que ele finalmente fosse capaz de ganhar; só depois que ele finalmente ganhasse
um jogo que Marx podia liberar seu adversário exausto”.

Lenin e o xadrez

A fixação de Lenin pelo xadrez tem certa semelhança com Marx. Antes de tudo, sua origem é familiar, e pelo seu isolamento no campo acabou tornando-se um paixão entre ele e seu irmão Alexander, unidos com o interesse de derrotar seu pai no jogo. Lenin teve muitas intermitências em sua dedicação ao xadrez: enquanto se dedicava às atividades revolucionárias no final do século XIX e início do XX, interrompia seu passatempo. É na prisão em São Petersburgo e no exílio na Sibéria em 1897 que Lenin jogou muito xadrez a partir de seu tabuleiro e peças enviados por sua mãe. Krupskaia, sua companheira, relatou que “as partidas no exílio iam da manhã a noite, entre todos os presos, e, inclusive, ela havia ‘contraído aquela infecção’ e aplicado xeque-mate num jogador ruim”3. Há relatos também de jogos por correio, em que Lenin trocava cartas em cada movimento de seu jogo com camaradas à distância, levando meses para finalizar uma partida.
Depois da tentativa revolucionária de 1905, Lenin parte para o exílio com Krupskaia e Bogdanov na Finlândia. Ambos, Bogdanov e Lenin jogariam entusiasticamente nesse período4. Mas Lenin não jogou apenas com Bogdanov, Máximo Gorki um conhecido escritor e revolucionário foi um grande adversário seu, tanto no xadrez quando na política.
A falta de tempo prejudicou significativamente a dedicação de Lenin ao xadrez, sua prioridade de fato era a atividade revolucionária, ao passo que em 1917 já havia praticamente abandonado.
Depois da tomada do poder em novembro de 1917, Lenin praticamente dedicou todo seu tempo à nova sociedade que começava a nascer na Rússia. Sua morte prematura em virtude de uma série de derrames e atentados contra sua vida, certamente prejudicou largamente e obstaculizou a transição socialista. Em 1920, depois do pior da Guerra Civil já ter passado, Lenin e Krylenko visitam a dachta de seu camarada Zuckov (este que seria no período da Grande Guerra Patriótica contra o nazismo um dos mais importantes estrategistas militares que permitiram a vitória da Pátria mãe soviética). Depois de uma caçada nas florestas, Krylenko e Lenin resolveram jogar uma partida. Ele, no entanto, estabeleceu algumas condições: 1) eles jogariam apenas um jogo; 2) não fariam movimentos recuados; 3) nenhum dos dois ficaria amuado ou iria vangloriar-se. Ao final, Lenin venceu a partida, mesmo Krylenko parecer estar em vantagem no início. De acordo com as condições, não haveria possibilidade de vingança.
Zuckov afirmou que esta haveria sido sua última partida5. Lepeshinsky, porém, acreditava ele que Lenin nunca haveria parado de jogar, entendendo o processo revolucionário em curso na Rússia como um grande e complexo jogo de xadrez ao qual a Revolução em si mesma era um ataque-aberto contra as torres do capitalismo e este contra-atacando com sua investida reacionária. O tratado Brest-Litovsk foi uma clássica troca de espaço por tempo, em termos enxadrísticos. A crescente transferência das forças produtivas de Petrogrado para Moscou foi uma típica manobra de roque. A cooperação entre proletariado e campesinato é comparada com a harmonia com que um grande mestre do xadrez move suas peças em direção ao xeque-mate. Os peões que vieram de dentro das fábricas escuras e exploradoras agora eram promovidos como os novos quadros intelectuais e técnicos que dirigiram a aurora da nova sociedade que nascia na figura da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Lepeshinsky6 previu que o jogo de Lenin seria estudado e admirado pelas futuras gerações por centenas de milhares de anos e que mesmo que depois de sua morte, ele tivesse “saído do jogo”, ele havia deixado agora seus camaradas em uma posição muito melhor em direção à vitória final.

Fonte:
Michael A. Hudson. Storming Fortresses: A Political History of Chess in the Soviet Union, 1917-1948. University of California Santa Cruz. 2013