Marx, Engels, Lenin e Mao "pelegos"? | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Marx, Engels, Lenin e Mao "pelegos"?


Diante de tantas posturas sectárias, esquerdistas e equivocadas que vêm surgindo em nome do marxismo e do revolucionarismo de certos setores e organizações de esquerda, decidi por conta própria relembrar alguns posicionamentos que Marx, Engels, Mao e Lenin, tomaram perante determinadas circunstancias e situações históricas. Pensando em como eles seriam taxados por esta esquerda “super revolucionária”, que consegue tão facilmente acusar de traição, peleguismo ou conciliação todos aqueles que, a despeito de sua história e trajetória de luta, decidiram por adotar um posicionamento pontual em frente a uma situação concreta, representando o que poderíamos classificar como interesses gerais ligados aos de baixo, retomamos a conduta desses revolucionários que para muitos ortodoxos do revolucionarismo puro, seriam imperdoáveis.

Marx e Engels, e as suas “traições” na Primeira Internacional
Como se sabe, Marx e Engels tomaram parte da formação da Primeira Internacional – Associação Internacional dos Trabalhadores –, fundada em 1864, constituindo junto com outros revolucionários essa incrível experiência militante de duração tão efêmera e controversa. 
Sem querer entrar nas polêmicas e/ou divergências que existiram dentro a Primeira Internacional, e sim querendo retomar algo, que ao meu modo de ver, sempre esteve no horizonte de Marx e Engels como parte constitutiva das lutas de classes no plano internacional. A solidariedade para com os povos oprimidos, pensemos na Irlanda submetida ao jugo do império britânico, assim como para com as lutas de caráter humanitário, pensemos na luta encabeçada pelo então presidente dos EUA, Abraham Lincoln, contra a escravidão no sul do seu país, sempre foram de extrema importância para ambos. Mesmo que o resultado vislumbrado em termos imediatos pudesse ser de “feição burguesa”, Marx e Engels, mantiveram posicionamentos firmes em defesa daqueles que lutavam tanto pelo reconhecimento da nação irlandesa quanto pelo reconhecimento da natureza humana dos afro-americanos escravizados nos EUA.

No que diz respeito ao povo irlandês, Marx e Engels reconheciam que a luta deles era correlata a luta dos proletários ingleses contra as classes dominantes, já que a submissão de uma nação como a Irlanda fortalecia a aristocracia e a burguesia inglesa. De forma que, a solidariedade do operariado inglês para com a luta de emancipação nacional daquele país era de fundamental importância para uma mudança na correlação de forças na própria Inglaterra, favorecendo assim a luta socialista travada pelo proletariado inglês. Pois, tanto em termos de recursos materiais, força militar e ímpeto moral, uma vitória do povo irlandês só poderia representar um avanço na luta do proletariado inglês, mesmo que dessa vitória resultasse a formação de uma república de caráter burguês na Irlanda. Daí o apelo ao apoio à luta de “libertação nacional” proclamado pela Primeira Internacional. Se não, vejamos:
"Se a Inglaterra é o baluarte da propriedade fundiária e do capitalismo, o único ponto no qual se pode desferir um grande golpe contra a Inglaterra oficial é a Irlanda.
Em primeiro lugar, a Irlanda é o baluarte da propriedade fundiária inglesa. Se fosse derrubada na Irlanda, ela também o seria na Inglaterra. A operação inteira é cem vezes mais fácil na Irlanda, porque lá a luta econômica está concentrada exclusivamente na propriedade rural, porque essa luta é, ao mesmo tempo, uma luta nacional e porque lá o povo se encontra numa situação mais revolucionária e exasperadora do que na Inglaterra. A propriedade fundiária na Irlanda só é mantida pelo exército inglês. Se a união forçada entre os dois países acabasse, uma revolução social irromperia imediatamente na Irlanda – mesmo que com um caráter retrógrado. A propriedade fundiária inglesa perderia não só uma grande fonte de sua riqueza, mas também sua maior força moral – o fato de representar a dominação da Inglaterra sobre a Irlanda. No entanto, ao preservar o poder de seus senhores rurais na Irlanda, o proletariado inglês os torna invulneráveis na própria Inglaterra."

Como se vê, Marx – e por certo, Engels – apoiavam a luta do “povo” irlandês, mesmo que essa pudesse resultar numa revolução social de “caráter retrógrado”.
Também no âmbito da Primeira Internacional, Marx nunca hesitou em deixar claro o seu apoio ao presidente dos EUA, Abraham Lincoln, que havia assinado, em 1862, a Proclamação de Emancipação, principiando o fim da escravidão nos EUA.
Ele que acompanhava atentamente a todos os movimentos da guerra civil entre o Norte abolicionista e o Sul escravista, jamais escondera a sua grande admiração por Lincoln, o qual o considerava como “uma figura única nos anais da história”. Ademais, é notório o posicionamento de Marx e Engels pela abolição da escravidão, tanto é que Marx saudou entusiasticamente o povo estadunidense pela reeleição de Lincoln encarando esse fato como um retumbante grito de guerra de “Morte à escravatura”. Ao mesmo tempo, ambos reconheceram o espírito de sacrifício e de solidadriedade do operariado inglês, que mesmo sendo afetado diretamente com o desemprego provocado pela crise no abastecimento de algodão – devido ao bloqueio imposto pela União aos estados escravistas do sul dos EUA, que constituíam-se como os principais fornecedores de matéria-prima para indústria têxtil da Inglaterra – eles não se deixaram ser instrumentalizados pelos setores da classe dominante inglesa que queriam levá-los ao um posicionamento contrário ao presidente Lincoln.
E mesmo que houvesse essa admiração por parte de Marx, pelo “obstinado filho da classe trabalhadora” que conduzia no seu país uma luta “sem-par pela salvação de uma raça agrilhoada”, numa guerra antiescravagista que poderia resultar na “reconstrução de um mundo social”, ele também não deixou de demonstrar o seu descontentamento em determinados momentos, referentes a condução da guerra por parte da União. Tanto é que Marx e Engels demonstram irritação pelas demonstrações de debilidade por parte do governo, bem como, pelo não alistamento no exército da União de negros livres e de escravos negros que haviam fugido dos seus patrões. Coisa que só foi acontecer como “medida bélica”, ao final do confronto. Isso fez com que ambos, de certa forma, deplorassem o êxito parcial ao final da Guerra de Secessão. Já que ela promoveu uma espécie de revolução abolicionista conduzida pelo alto, cujo protagonismo coube aos homens de Estado e aos generais do Norte industrializado. Todos brancos, que em razão de sua conduta promoveram a abolição da escravatura, sem que houvesse uma real emancipação dos negros. Daí o posterior regime da “white supremacy”, ao qual os negros estadunidenses foram submetidos.
Contudo, Marx e Engels sabiam que dependia daquele governo burguês, de Abraham Lincoln, a libertação dos escravos afro-americanos, e que tal feita poderia significar o início de uma “nova era da emancipação do trabalho”.

Mao Tse-Tung: um “conciliador” nacionalista
Apesar de constituir uma civilização antiquíssima, a China foi durante muito tempo submetida a toda sorte de humilhações e opressões, chegando a um período particularmente trágico para o povo chinês, quando na primeira metade do século XX ocorre o entrelaçamento entre agressão interna e externa dentro do país. Pois, após sucessivos ataques perpetrados por Chiang Kai-Shek contra a classe trabalhadora organizada, Mao Tse-Tung se retirará para o campo no intuito de assegurar a construção de um poder “soviético” paralelo ao poder existente do Kuomintang, dando início a organização de uma força armada guerrilheira, com a qual travará duras batalhas contra as forças Chiang Kai-Shek. Nesse processo, que passa pela realização da “longa marcha” até a mais encarniçada luta contra a agressão do imperialismo japonês, Mao Tse-Tung irá através da distribuição de terras e da promoção de uma política de resistência nacional consolidar uma base social de apoio aos comunistas. Tanto é que após um período de unidade entre as forças internas antagônicas, as forças de Mao Tse-Tung puderam dar prosseguimento na luta revolucionária até a vitória.

Mao e Xiang Kai-Shek

Agora, o que deve ser destacado como um aspecto de sua perspicaz e grandeza, é sem dúvida nenhuma a sua capacidade de subordinar temporariamente a luta interna à luta anti-imperialista, buscando transformar a guerra civil em uma guerra contra a agressão estrangeira. O que se revela como uma espécie de inversão da palavra de ordem que Lenin defendera anteriormente, no irromper da Primeira Guerra Mundial, quando propôs aos comunistas a “transformação da guerra imperialista em guerra civil revolucionária”. Mas acontece que naquele momento, cessar a guerra civil para unir as forças numa luta de resistência “patriótica” era não só necessário, como fundamental para se evitar uma possível redução da nação chinesa à condição de povo escravizado pelo imperialismo japonês. Daí o argumento de Mao em defesa da luta de libertação nacional como uma forma de aplicação do internacionalismo na luta frente a uma potência imperialista.
"Na guerra de libertação nacional, o patriotismo é, então, uma aplicação do internacionalismo. Todas essas ações patrióticas são justas, não são absolutamente contrárias ao internacionalismo, sendo exatamente sua aplicação na China […]. Separar o conteúdo do internacionalismo da forma nacional é a práxis dos que nada entendem de internacionalismo."
Para Mao, mirar os invasores e os colaboracionistas é primordial à defesa de uma “revolução nacional” e à construção de uma “república democrática”, expressando assim os interesses de toda a nação contra as pretensões do imperialismo japonês. Etapa essa, que por razões concretas e específicas, não entrariam em contradição com a luta pela revolução socialista a nível nacional e internacional. Já que a derrota de uma potência imperialista pode representar um grande passo na luta mundial contra o poder do capital.
"Existem muitas contradições no processo de desenvolvimento de algo complexo, e uma delas é, necessariamente, a contradição principal, cuja existência e cujo desenvolvimento determinam ou influenciam a existência e o desenvolvimento das demais contradições.

Por exemplo, na sociedade capitalista, as duas forças em contradição, o proletariado e a burguesia, formam a contradição principal. As demais contradições, como aquelas entre classe feudal remanescente e a burguesia, entre a pequena burguesia camponesa e a burguesia, entre o proletariado e a pequena burguesia camponesa, entre os capitalistas não-monopolistas e os capitalistas monopolistas, entre a democracia burguesa e o fascismo burguês, entre países capitalistas e entre o imperialismo e as colônias, todas são determinadas ou influenciadas por essa contradição principal.

Quando o imperialismo lança uma guerra de agressão contra um país assim [semicolonial como a China], todas as suas várias classes, à exceção de alguns traidores, podem temporariamente unir-se em guerra nacional contra o imperialismo. Nessa ocasião, a contradição entre imperialismo e o país afetado torna-se a contradição principal, ao passo que todas as contradições entre as várias classes sociais dentro do país (incluída a que era a principal, vale dizer a contradição entre o sistema feudal e as grandes massas do povo) ficam temporariamente relegadas a posição secundária e subordinada."

Posicionamento que curiosamente, remetendo-nos ao presente, contrasta fortemente com as posições defendidas por algumas organizações, que em nome de um suposto processo revolucionário e/ou democrático, acabam apoiando grupos ligados ao imperialismo hegemônico estadunidense, que oferece amplo apoio político, financeiro, organizacional e militar para que tais grupos promovam insurreições dentro de seus países, que notoriamente, em termos geopolíticos, são considerados inimigos do próprio EUA.
Lenin e a “restauração capitalista” na Rússia Soviética
Está escrito no Manifesto Comunista, e registrado na mente dos grandes revolucionários, que após tomar o poder, o proletariado deverá utilizar-se da sua condição de classe dominante para dar cabo ao processo de expropriação dos expropriadores, possibilitando assim a concentração dos meios de produção e o consequente desenvolvimento das forças produtivas. O que implica, necessariamente, na elevação da produção de bens a serem socializados na e pela sociedade.
"O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo o capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado como classe dominante, e aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas."
O que significa que o período de transição socialista deve ser marcado pela continuidade das lutas de classes, pelo desenvolvimento das forças produtivas e pelo aumento na produção da riqueza social. Ou seja, falar em socialismo é falar em produção e distribuição de riqueza, e não em socialização da miséria. A revolução defendida por Marx e Engels nada tem a ver com o “ascetismo cristão” de “verniz socialista”, e tampouco tem relação com o “ascetismo geral” de “um grosseiro igualitarismo”. Por isso, revolucionários como Lenin e Mao, buscaram desenvolver as forças produtivas de seus países reorganizando a economia no sentido de dar um salto à frente, superando o atraso de suas sociedades, ao passo que dessa forma garantiriam a constituição de uma ampla base social de consenso ao novo regime, tão necessária ao avanço e defesa da transição socialista.
O problema enfrentado por Lenin e os demais revolucionários na Rússia soviética foi que de um país atrasado, já duramente castigado pela Primeira Guerra Mundial, ainda teve de enfrentar uma guerra civil promovida pelas forças contrarrevolucionárias com o apoio das potências imperialistas, que queriam acabar com a experiência da transição antes mesmo que ela assentasse as suas bases. Assim, da exasperadora resistência revolucionária, com inevitáveis tons de heroísmo e abnegação do povo russo, foi-se passando para um momento de solidificação do período transacional, quando o “comunismo de guerra” já não se fazia mais necessário como medida trágica. Eis aqui o momento que Lenin faz um movimento em direção a Nova Política Econômica (NEP), marcando a retomada do desenvolvimento das forças produtivas e, consequentemente, o crescimento econômico no país. Daí a polêmica travada pelo líder revolucionário com aqueles que o acusavam de estar, com a NEP, promovendo uma espécie de restauração capitalista no país soviético.
Nesse marco, cabe destacar que a preocupação de Lenin era com a miséria em que o povo russo se encontrava: “O povo tem fome, nas fábricas, nos estabelecimentos, há fome”. Portanto, era necessário reestabelecer a vida econômica, aumentar a produtividade e reorganizar a sociedade. Daí o seu apelo para que o poder soviético se apropriasse de tudo que havia de mais avançado em termos de ciência, tecnologia e formas de organização na produção. Sem perder de vista, é claro, a necessária distinção entre o uso que se faz disso no sistema capitalista e do que se pode fazer na transição socialista.
"Em comparação com os trabalhadores das nações mais progredidas, o russo é um mau trabalhador […]. Aprender a trabalhar: eis a tarefa que o poder dos sovietes deve colocar ao povo em toda a sua amplitude. A última palavra do capitalismo a este propósito, o sistema Taylor – como todos os progressos do capitalismo –, une em si a crueldade refinada da exploração burguesa e uma série de riquíssimas conquistas científicas no que diz respeito à análise dos movimentos mecânicos durante o trabalho, à eliminação dos movimentos supérfluos e inaptos, à elaboração dos métodos de trabalho mais racionais, à introdução dos melhores sistemas de inventário e de controle etc. A república soviética deve a qualquer custo assimilar tudo que há de precioso nas conquistas da ciência e da técnica nesse campo. A possibilidade de realizar o socialismo será determinada justamente pelos sucessos que conseguiremos ao combinar o poder soviético com a organização administrativa soviética com os mais recentes progressos do capitalismo."

Tanto a proposição da NEP quanto os argumentos de Lenin em sua defesa, dão conta de demonstrar o quão é difícil e complexo a construção de uma nova sociedade, que na divisão internacional do trabalho, encontrava-se na condição de país subdesenvolvido e atrasado social e economicamente.
"Da Rússia do NEP vai emergir a Rússia Socialista". Cartaz de propaganda da NEP
"Os trabalhadores não devem esquecer que o capitalismo dividiu as nações em um pequeno número de nações opressoras, grandes potências (imperialistas) que têm todos os direitos e são privilegiados, e uma imensa maioria de nações oprimidas, dependentes ou semidependentes, privadas de direitos."
Fato que, querendo ou não, gostando ou não, afeta diretamente todo o processo de construção do socialismo, já que a defesa e a manutenção dessa nova forma de organização social passa pelo desenvolvimento econômico e tecnológico do país em relação aos países capitalistas mais avançados, e consequentemente, implica na própria melhoria na condição de vida da população, da qual não se pode exigir um espírito de sacrifício ad aeternum em nome do comunismo.
Portanto, naquela nova fase da luta de classes, fazer “concessões” aos interesses privados ou burgueses, poderia significar paradoxalmente um passo importante na luta contra a própria burguesia. Lenin argumentava que as técnicas e as indústrias pertencentes aos capitalistas progrediam e se desenvolviam. E que faziam isso ao passo que lutavam contra eles, isto é, contra a existência da Rússia socialista. Por isso, desenvolver ao máximo a economia soviética, naquelas circunstâncias, significaria a sua própria sobrevivência. Significaria a manutenção de uma experiência socialista num mundo capitalista.


"Devemos lembrar que agora toda sua técnica progrediu, toda sua indústria desenvolvida pertence aos capitalistas, os quais lutam contra nós.
Devemos lembrar que, se não formos capazes de dirigir ao máximo todas as nossas forças ao trabalho cotidiano, nos esperará inevitavelmente a ruína.
Todo o mundo, nesta circunstância, desenvolve-se mais rapidamente que nós.
O mundo capitalista, desenvolvendo-se, dirige todas as forças contra nós. Eis os termos do problema. Eis por que devemos dedicar uma particular atenção a esta luta".



Para terminar, trago aqui um trecho de umas das contribuições que Domenico Losurdo apresenta em seu livro sobre “A luta de classes”, abordando a polêmica entre Kautsky e Lenin, quando o socialista alemão criticava a conduta dos bolcheviques baseando-se em um socialismo idealizado, ou seja, num modelo que historicamente só poderia se apresentar de modo irrealizável e inalcançável.

"Ainda antes de os bolcheviques poderem realmente começar a trabalhar para a realização de seu programa, no Ocidente levantam-se vozes eminentes que apontam para o fracasso do programa socialista. Poucas semanas após o outubro de 1917, sem perder mais tempo, Kautsky proclama: “Na Rússia está se realizando a última das revoluções burguesas, não a primeira das socialistas”. Para o dirigente socialista alemão, não há dúvidas: não se trata apenas do fato de que, a seus olhos, o país semiasiático é demasiado atrasado para que se possa edificar uma sociedade que ultrapasse o capitalismo. Ao configurar o socialismo como o fim de todas as contradições e conflitos, e de qualquer maneira ao configurá-lo como totalmente outro, em todos os aspectos, em relação à ordem existente, aliás, em relação a toda ordem historicamente existida, a afirmação do caráter não socialista da revolução na Rússia, ou em qualquer outro país, é uma proposição de alguma forma tautológica. Ao definir o socialismo de modo que isso implique a negação de qualquer contaminação ou compromisso com o mundo circunstante, no plano interno e internacional, não é difícil agitar polemicamente a tautologia da não acontecida superação da sociedade burguesa."
Sendo assim, fica muito fácil no plano da imaginação construir um processo de transição revolucionário em estado puro, sem contaminações, sem compromissos e, em última instância, sem luta de classes. Aos gritos de alarme da “restauração burguesa”, devido à presença de “especialistas burgueses” ou de uma “nova burguesia”, bem como da NEP ou de um “capitalismo de Estado”, Lenin responde que a transição do capitalismo ao comunismo “não pode deixar de conter em si os traços e as particularidades dessas duas formas de economia social”, até porque, que nesse período histórico de transição as contradições não desaparecerão, e a luta pela emancipação seguirá mesmo que para isso tenha que superar todos os tipos de idealizações.
Com tudo isso, fica difícil não imaginar como Lenin seria tratado hoje em dia pelos baluartes da “revolução social 'pura'”, ao adotar medidas que visavam recolocar na ordem do dia o desenvolvimento econômico da Rússia socialista.
Concluindo
Para terminar, eu não quero afirmar que Marx, Engels, Mao e Lenin eram reformistas. Tampouco quero reforçar uma visão que está em voga, que visa justificar os meios em nome de uma suposta finalidade, adotando-se políticas de conciliação para manter uma tal “governabilidade”. Assim como, não vejo tais referências históricas como receitas a serem seguidas ao pé da letra, senão como exemplos concretos que poderão nos dar subsídios para refletirmos sobre a nossa própria realidade.
Portanto, o que eu quero ressaltar é que a leitura binária e simplista das lutas de classes pode ser facilmente sedutora para os adeptos do “purismo revolucionário”, para os “campeões da ortodoxia” e para os que vivem numa abstrata luta de classes. Mas para aqueles que estão empenhados tanto na defesa imediata da democracia, quanto na construção de um bloco de forças que busca estabelecer uma correlação favorável à luta dos de baixo, a médio prazo, sabem que a luta pela superação do capital deve suplantar não só as dificuldades objetivas que se apresentam perante a organização do proletariado como e enquanto classe revolucionária, como também sabem que do esquerdismo não se pode esperar mais do que frases eloquentes que em termos concretos pouco constroem ou ajudam no avanço do conjunto das lutas sociais. Ou superamos o esquerdismo, ou ele nos afundará ainda mais no pântano do revolucionarismo inconsequente.


(Obs: esse texto foi escrito sem se ater às normas para referências bibliográficas, sendo que a sua fonte de maior inspiração foi o já citado livro de Domenico Losurdo, intitulado “A luta de classes: uma história política e filosófica, lançado recentemente pela editora Boitempo.)

Autoria: JCA