"Acabou a guerra" - Algo extraordinário está acontecendo agora na Colômbia | Juventude Comunista Avançando

sábado, 24 de setembro de 2016

"Acabou a guerra" - Algo extraordinário está acontecendo agora na Colômbia


É com o lema de “Acabou a Guerra” que se inicia e termina a declaração política final da conferência das FARC-EP. Os desdobramentos dos acordos de paz celebrados entre a delegação das FARC-EP e o governo colombiano estão chegando em seu ápice. A guerra civil que já dura mais de 50 anos está próxima do fim. Tanto que as FARC realizaram sua X Conferência Nacional Guerrilheira, entre os dias 17 e 23, deste mês, autorizando o Estado-Maior Central da guerrilha a levar a cabo o processo de convocação de um congresso fundacional de um novo partido político, esboçando seu estatuto, linha política e funcionamento. Consideram que o Acordo Final garante os mínimos necessários para que se avancem numa transição democrática avançada na Colômbia.

As FARC-EP expressam um grande avanço político, dando evidências de estar sintonizado com o que há de mais avançado da luta revolucionária, mencionando os povos indígenas, a luta das mulheres, dos negros e da população LGBT. Ambicionam, inclusive, a convocação de uma Assembleia Constituinte no país, levando a crer que se preparam para uma nova etapa e uma nova forma de luta política. Afinal, a guerra civil pode ter acabado, mas luta de classes não findou.

Ainda é incerto o que pode resultar disso, tanto positiva quanto negativamente para o avanço do movimento revolucionário na Colômbia e na América Latina. A única certeza que podemos ter é que esse é um dos fatos mais extraordinário das últimas décadas, na América Latina e no mundo, chamando atenção de vários chefes de Estado e autoridades políticas internacionais. Como vizinhos e irmãos continentais, nós brasileiros  temos de estar atentos e atuar como entusiastas das lutas pela paz na Colômbia. Também, nós comunistas, devemos exercer cotidianamente nosso internacionalismo expressa pela solidariedade com o povo colombiano. Com esse intuito, a JCA traduziu para o português a declaração final farquiana:

Declaração Política X Conferência Nacional Guerrilheira - Comandante Manuel Marulanda Veléz
 Acabou a guerra, vamos todos e todas construir a paz!

Os guerrilheiros e guerrilheiras delegados de todas as estruturas das FARC-EP de todo território nacional e vindos desde a Colômbia profunda, reunidos na X Conferência que aconteceu nos dias 17 a 23 de setembro de 2016, em Brisas do Diamante, nas savanas de Yarí, enviamos ao povo colombiano e à sociedade em geral nossa mais fraterna e calorosa saudação de compatriotas. Ao mesmo tempo declaramos que:

Realizamos uma bela e transcendental conferência, em meio a mais ampla participação democrática e camarada, na qual reafirmamos a coerência e unidade interna da nossa organização. Destacamos a participação ativa e nutrida das nossas guerrilheiras e quadros políticos jovens.

Após uma discussão avaliativa sobre os Acordos de Havana, Cuba, Território de Paz, celebrado entre as FARC-EP e o Governo da Colômbia, para o término do conflito e pela construção da paz estável e duradoura, a Conferência, nossa instância máxima de decisão, determinou por aprovar em sua totalidade e instruir a todas as estruturas de blocos e frentes, a nossos mandos, guerrilheiros, milicianos e a toda nossa militância farquiana que este seja acolhido e respeitado. Temos referendado assim nosso compromisso irrestrito com o cumprimento de todo o que se tem conveniado. Assim mesmo, esperamos que Governo atue, com a devida correspondência. 

Temos o convencimento de que o Acordo Final contém um grande potencial para a abertura de uma transição política até a transformação da sociedade colombiana, por sua real democratização e materialização de seus direitos e especialmente para o bem viver e bem-estar das mulheres e homens humildes nos campos e cidades, da classe trabalhadora, dos povos étnicos, indígenas e afrodescendentes, da população LGBTI e, sobretudo, para os jovens e gerações futuras. Chamamos elas e eles a abraçarem e protegerem os acordos, fazê-los seus, a acompanhar e exigir sua implementação. Unindo esforços alcançaremos os propósitos comuns de consolidar a perspectiva e uma paz com justiça social, a reconciliação nacional e a democracia avançada para a nova Colômbia.

O Acordo Final celebrado em Havana, Cuba, contém os mínimos necessários para dar continuidade pela via política a nossas aspirações históricas para a transformação da ordem vigente. Por essa razão, decidimos fazer todos os tramites necessários para o trânsito de nossa estrutura político-militar para um novo partido político, cujo congresso fundacional deve acontecer, mais tardar, em maio de 2017, caso se implementem os acordos, tal como está firmado. Será função do partido dar continuidade aos nossos propósitos políticos de caráter estratégico pela construção social do poder para o povo. A Conferência faculta à direção nacional das FARC-EP a convocação de um pleno do Estado Maior Central e defina a ampliação da nossa nova direção que faça cargo da preparação do congresso, do programa político, do estatuto e da linha política, assim como das condições organizativas e de funcionamento.

Nos comprometemos a oferecer toda nossa força e energia pela unidade dos setores progressistas, democráticas e revolucionários do país, dos movimentos políticos e sociais das múltiplas organizações setoriais e reivindicatórias a nível nacional, regional e local. Queremos fazer parte de uma grande convergência nacional, que abarque o espectro das lutas sociais e populares, acumule pela real democratização política, econômica, social e cultural do país, e cuja plataforma, fundamentos organizativos e de coordenação deverão ser o resultado de uma elaboração coletiva. A grande convergência deverá ter a capacidade de construir o poder social, político e popular, desde baixo e ao mesmo tempo de disputar o poder do Estado nos espaços institucionais e eleição e representação. 

Trabalharemos por um novo governo de construção de paz e reconciliação nacional a partir da definição de um programa mínimo, que além de se compromete com a implementação do Acordo Final, recorra às aspirações sociais mais sentidas no imediato da população. 
Convocamos a tornar realidade o chamado "a todos os partidos, movimentos políticos e sociais e a todas as forças vidas do país a construir um grande acordo político nacional encaminhado a definir as reformas e ajustes institucionais necessários para atender os desafios que a paz demande, colocando em marcha um novo marco de convivência política e social", tal e como se estabeleceu no Acordo Final. As condições propícias para esse propósito se encontram no impulso a um processo constitui aberto que conduza à convocatória e realização de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Acabou a guerra, vamos todos e todas construir a paz!

Brisas do Diamante, savanas de Yarí, 23 de setembro de 2016