E que venha 2017: Cinco razões para se manter empolgado em uma situação política tão difícil | Juventude Comunista Avançando

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

E que venha 2017: Cinco razões para se manter empolgado em uma situação política tão difícil



Um dos teóricos mais importantes da tradição marxista, Antonio Gramsci, elaborou uma máxima que serve como guia para a atuação política através do “otimismo da vontade e o pessimismo da razão”. A situação brasileira tem se tornado cada dia mais intragável onde o avanço de uma ideologia fascista cultivada diariamente pela mídia burguesa e um pacote avassalador de medidas antipopulares e pró-capital sendo empurradas goela abaixo pelo governo golpista. Isso tudo gera um profundo mal-estar. Para piorar, sofremos duras derrotas que vão desde o golpe, que começa com o impeachment, até os fracassos eleitorais de 2016, principalmente quando tínhamos grandes expectativas na candidatura de Marcelo Freixo no Rio. No campo internacional a situação se agrava com o isolamento de Cuba e Venezuela em resultado da forte investida imperialista na América Latina. As tragédias da guerra Síria e a crise de refugiados só nos alertam que nada está tão ruim que não possa piorar. A cada dia, o peso da conjuntura parece nos esmagar com mais e mais força. Uma avalanche de retrocessos faz até os maiores entusiastas das lutas populares arrefecer seus ânimos. Parece então que o pessimismo transcende a razão, abala e neutraliza a nossa vontade, nos fazendo desacreditar em projetos coletivos, reforça o individualismo lançando-nos num recolhimento pessoal para que preservemos nossa sanidade. Tem sido frequente e corriqueiro que militantes, dos vários matizes ideológicos e campos de atuação, se afastem da militância por adoecimento: a saúde mental dos militantes vira pauta de reunião.
O intuito desse texto é contribuir com um debate fundamental: estamos vivendo um dos piores momentos da humanidade desde a queda da URSS e do grande refluxo que o movimento de esquerda sofreu em nível global. É preciso reafirmar com a máxima convicção, tanto da vontade quanto da razão, científica e emocional, que a única saída para a crise que vivemos é estrutural. Uma crise estrutural só pode ser superada estruturalmente. Por isso, defendemos que mesmo com a justeza, validade e atualidade da máxima gramsciana, se não encontramos ânimo em nossa vontade quem sabe a razão possa renovar nosso otimismo. O marxismo-leninismo nos dá algumas indicações importantes de que a esperança não está perdida. Pelo contrário, as possibilidades de luta foram incrementadas drasticamente nos últimos anos e a história caminha a passos agigantados. Acabou a pasmaceira. As derrotas atuais são reflexos e sínteses de erros anteriores. Mas não é tarde para corrigir o rumo e recuperar nossa força e energia. Abaixo apontamos algumas razões, à luz das lições históricas, que confirmam nossa hipótese.

1. A esperança


Uma grande lição nos ensina o grande compositor comunista Taiguara Chalar “/Quem só espera não alcança/Mas quem não sabe esperar/erra demais, feito criança/Cai. /E até se entrega ou trai./E cansa de lutar/”. A luta revolucionária nunca é feita de acordo com o que desejamos. Proclamar uma bandeira é algo bastante distinto de organizá-la. Ela é feita de acordo com as condições objetivas, a correlação de forças, o nível de organização que alcançamos, bem como de acordo com a nossa capacidade de escolha entre um ou outro caminho diante dos desafios apresentados. Querer executar uma tarefa, ou alcançar um objetivo tático específico deve levar em conta esses dois complexos de problemas. Chamamos voluntarismo aquele vício político que não leva em consideração as condições objetivas, e motivado por pura vontade, idealizando a conjuntura, busca lançar-se na realização dos seus objetivos. Pregar que há esperança, mesmo num cenário tão difícil, não significa apassivar-nos, como bem afirma Taiguara. Mas não saber esperar o momento adequado onde as condições objetivas e subjetivas estejam maduras para determinada ação pode levar a erros, decepções e consequentemente uma frustração que cria um forte mau-estar e uma sensação de impotência.

2.  A boa e velha paciência histórica

Muitas vezes ouvimos falar que é necessário ter “paciência histórica”. Mas o que significa isso? Mais uma vez não significa apassivamento. Para além de um chavão, a paciência histórica significa reconhecer e entender que o movimento e o tempo da história não é o mesmo que dos indivíduos. Ele tem marchas e contramarchas, avanços e retrocessos. Ele não pode ser mudado pela vontade individual, ou de um pequeno grupo de pessoas. Mas se ser paciente não significa recolher-se como apenas observador dos fatos, o que significa? Não ficar paralisado não implica que temos que “tomar o poder amanhã”, por outro lado, é a preparação necessária para o momento adequado. Aqui está em evidencia um importante conceito leninista: crise revolucionária. Em 1901, em meio a violentas greves da passagem do século em resultado da tardia industrialização russa e da desapropriação do campesinato, Lenin afirma em um texto chamado Por onde começar? publicado no Iskra[1]:

Nestas condições, qualquer homem capaz de considerar o conjunto da nossa luta, sem se deixar distrair com cada “viragem” da história, deve compreender que a nossa palavra de ordem, na hora atual, não poderá ser “Ao assalto!”, mas sim, “Empreendamos o cerco sistemático da fortaleza inimiga!”[2].

Em 1917, dezesseis anos depois, o contraste da escrita de Lenin é absurdo. Em A crise amadureceu[3], ele chama “traidores” os Bolcheviques que se recusassem a tomar o poder imediatamente, a mobilizar o exército de operários em armas que estavam a sua disposição. Segundo ele, seria completa traição ao campesinato, aos operários, aos soldados, aos operários do mundo todo, se eles esperassem que o congresso dos sovietes decidisse sobre tal. Ele afirma categoricamente que a necessidade da insurreição é imediata! Mas o que mudou? Levaria mais do que uma vida para conseguir entender completamente os acontecimentos que fizeram Lenin sair do “cerco à fortaleza inimiga” para o “assalto final”. Mas numa análise mais rápida podemos indicar que se trata de anos de têmpera e treinamento político nas condições mais difíceis de autocracia czarista. Noutras palavras, a preparação. É evidente agora, tal qual na situação lenineana, que não estamos preparados para um assalto final. Talvez hoje a história esteja bem mais acelerada que 5 anos atrás, mas a necessidade de recompor nossas forças, reorganizar nossas tropas, fortalecer as lutas que estouram num e noutro lugar, se torna mais imperativo do que lançar palavras de ordem ao vento como solução mágica. Lenin aguardou o momento correto, quando o governo provisório vacilava diante da urgência pela paz, pela crise geral de abastecimento da Rússia gerada pela Guerra. Mas enquanto o momento correto não chegava, os bolcheviques fortaleceram os sindicatos, os sovietes e a organização popular como um todo. Educaram as massas uma lição de rebeldia, organização e espera pelo momento crucial: a chegada da crise revolucionária. Por outro lado, novamente com Taiguara, a chegada dos momentos de crise sem que haja uma alternativa fortalecida pode levar a consequências desastrosas, como o fascismo, onde Gramsci afirma surgir quando “o velho resiste em morrer e o novo ainda não pode nascer”. Portanto, se não compreendermos essa dimensão essencial de como a história se move, não seremos capazes de fazer nossa própria história. É natural termos esse sentimento de impotência e desânimo diante de condições difíceis e duros retrocessos. Mas não há solução mágica. É preciso levantar a cabeça e começar a fazer política desde a base, com a noção de que as coisas não vão mudar de uma hora para outra, estamos em acúmulo de forças.


 3. O proletariado nunca sofreu uma derrota definitiva


A sociedade capitalista é última sociedade dividida entre classes. Ou a humanidade se auto-extingue, acabando com o proletariado e toda a sociedade, no caso de uma guerra de grandes proporções em tempos de artilharia nuclear altamente avançada. Ou o capitalismo é superado abrindo espaço para a edificação do comunismo. Os burgueses e imperialistas podem se regozijar o quanto quiserem de suas vitórias passageiras e momentâneas. O proletariado pode perder quantas batalhas forem precisas, mas jamais perderá a guerra. Mesmo a restauração capitalista na União Soviética, a morte de Fidel e Chávez, ou qualquer fenômeno análogo que possa dar prazer aos reacionários não pode deter o imperioso movimento da história e das relações de produção que leva, inevitavelmente, a crises cada vez mais profundas e recuperações cada vez mais lentas. Nada pode deter o proletariado consciente em sua inquebrantável missão universal de livrar e emancipar a humanidade do jugo do capital. Com isso, os próprios comunistas são a maldição da burguesia, aqueles que nunca foi possível extirpar por completo. Uma derrota definitiva do proletariado, portanto, só é possível com a própria burguesia se auto-destruindo em conjunto, já que não existem possuidores sem despossuídos, e vice-versa. O perigo de extermínio humanitário é a principal razão para que nos apressemos na construção da luta revolucionária. Mas não apenas.

O grande problema é o sofrimento durante esse longo e penoso caminho pelo qual devemos atravessar enquanto não temos forças suficientes para arremeter a investida final. Incontáveis perdas humanas em guerras, fome e miséria, degradação ambiental, vidas desperdiçadas em trabalho inútil. Esse é o grande ônus que as derrotas momentâneas geram através do atraso provocado pela reação.
Ter em mente essa determinação fundamental da história, da invencibilidade proletária, não implica novamente, porém, em apassivamento. Antes uma razão para jamais apassivar-nos, jamais abaixarmos a cabeça e achar que não há nada para ser feito. Sempre há uma saída, até porque como diria Brecht: “As revoluções começam sempre nas ruas sem saída”.

4. Cuidado com as falsas impressões nas redes sociais


Em momentos de confusão política e ideológica temos que ser excepcionalmente cuidadosos com as chamadas “redes sociais”. É natural que o aprimoramento dos instrumentos de comunicação leve informações dos mais escondidos rincões até a público. Igualmente, grandes acontecimentos políticos e sociais provoquem reações massivas e chamadas “virais”. Disso decorre uma tendência de compartilhamento de vários sentimentos políticos e sociais com muita rapidez. Se sofremos uma derrota, logo há uma torrente de reações negativas em cadeia que provocam um desespero em conjunto. Por outro lado, até a menor vitória e a mais singela demonstração de resistência que aconteça em qualquer cantinho do Brasil pode levar à uma empolgação desmedida, na medida em que “viralize”. Nossa vida política se torna um mar de lamentações e uma montanha-russa de voluntarismo.
O Facebook, rede social mais utilizada, tem em especial um efeito deletério sobre nossas mentes. Ele opera com um “algoritmo bolha”, pois as atualizações de nossos contatos aparecem mais frequentemente de acordo com as publicações e os autores que mais curtimos. Isso cria, então, literalmente bolhas sociais e fortalece a falsificação da realidade. Quem nunca abriu seu feed de notícias e sentiu que estávamos à beira da revolução? Ou também o oposto, sentindo que tudo estava perdido, nada mais fazia sentido? Isso tudo é uma falsificação da realidade criada pelo isolamento informacional do Facebook. A possibilidade de medição do ânimo das massas através da internet deve ser utilizada com extrema cautela. Devemos manter uma firmeza inquebrantável diante das reações desmedidas provocadas pelo efeito bolha das redes sociais. Nosso foco, apesar de ser importante a disputa das redes, deve ser o trabalho político na concretude do movimento de massas. Constituir uma organização e a luta revolucionária implica em um longuíssimo, paciencioso e ININTERRUPTO trabalho de educação das massas que não pode ser desviado ou enfraquecido a cada factoide da legislação burguesa que abala nossos ânimos por conta de nossa abrangência limitada.
Ao mesmo tempo, as redes sociais criam um profundo efeito desorganizador e desagregador. A militância popular é constantemente levada à uma espécie de “assembleia permanente”, cujo conteúdo da discussão é sempre limitado a frases soltas e desprovidas da reflexão adequada. Em especial, as organizações e partidos, diferente da tradição revolucionária, deslocaram o centro da luta ideológica das obras literárias, das revistas, dos jornais e órgãos centrais, para uma enxurrada de querelas mesquinhas, de perfumaria política. Isso tudo abre espaço para provocações baratas em detrimento da política de conteúdo, de fôlego. Não se trata de censurarmos o debate ideológico e de concepção nas redes sociais, até porque ele é imprescindível e necessário para resolver a confusão ideológica que impera no movimento e estabelecer os liames políticos mais definidos. Não é possível separar a definição da política correta sem desmontar a argumentação oportunista, dogmática, sectária, reformista, revisionista, etc. Mas para tornar a discussão “produtiva” ela precisa se apoiar em instrumentos políticos adequados onde ela tenha resultados práticos para o movimento, ou seja, gire em torno de porta-vozes legítimos dos movimentos (não pessoas, mas representantes legitimamente designados, órgãos de comunicações, direções, etc) e espaços de conferências, encontros e congressos para que haja saldo político-organizativo.

5. Nenhuma lei burguesa é permanente


Aos nossos caros inimigos burgueses, reacionários e fascistas dizemos apenas o seguinte, inspirados em Belchior: “Não cante vitória muito cedo, não”. Isso porque como já demonstrou inúmeras vezes a história NENHUMA LEI BURGUESA É DEFINITIVA. Nos últimos meses temos visto uma chuva de legislações tenebrosas por parte da junta golpista e desse Congresso entreguista que nos fazem pensar que retrocedemos décadas em termos de direitos sociais. De fato, são retrocessos imensuráveis. Mas a história é sempre carregada de surpresas. Quem sabe, a PEC 55 possa ser derrotada em prazo curtíssimo. Quem sabe a entrega do Pré-sal ao capital estrangeiro seja revertida antes mesmo que possam consumir 10% de sua capacidade produtiva. São apenas suposições e especulações se descoladas da realidade da luta de forças no interior da sociedade. O que queremos denotar é que a aprovação de uma lei reacionária não é o fim do mundo. Seu resultado decisivo depende do desenrolar da luta de classes e da capacidade das forças populares em se reorganizarem, superarem a inércia e o imobilismo, pararem de se preocuparem quem será o cabeça-de-chapa em 2018 e partirmos para um esforço monumental em reorganizar nossas forças.
Rosa Luxemburgo defendia que uma organização revolucionária surgiria do ímpeto espontâneo revolucionário das massas insurrectas, e Karl Kautsky afirmava que a consciência de classe e a ideologia socialista só viriam de uma camada externa ao proletariado por intelectuais que introduziriam o marxismo nas massas. Lenin por outro lado realizou uma síntese dessas compreensões a partir de seu conceito de “crise revolucionária”, quando uma longa preparação das massas através de um amplo trabalho de educação e de luta permanente forjariam os quadros revolucionárias que conduziriam, num momento de crise da dominação dos “de cima”, a levarem a luta até as suas últimas consequências. O momento de crise generalizada em razão dessa legislação reacionária surgirá inevitavelmente e cabe a nós estarmos preparados para lidar com ela. Essa preparação certamente exige paciência e convicção. A cada dia o governo golpista perde mais credibilidade e sua fragilidade se põe de forma cristalina diante de nossos olhos. O grande problema é que estamos despreparados para pôr abaixo este castelo de cartas montado pelo impeachment. O “sindicalismo amarelo”, a máfia sindical pelega que controla boa parte dos sindicatos não está disposta a fazer esse enfrentamento e derrubar tal legislação. Mas essa é uma circunstância momentânea que precisa ser revertida o quanto antes.
A teoria da luta de classes nos ensina que qualquer legislação estatal não é mais do que um reflexo de uma correlação de forças dada na sociedade. O impulso e a segurança com que o governo golpista impõe sua agenda só acontece pela dispersão e desmobilização da massa proletária-popular de nosso país. Mészáros em seu livro A montanha que devemos conquistar afirma que o “nível” da democracia burguesa é sempre relativo às necessidades da classe dominante em forçar seus interesses no lombo do proletariado. Sendo o “Estado de exceção” na verdade um “Estado de regra”. A única e verdadeira cláusula pétrea constitucional da sociedade burguesa é a lei da força, a lei do mais forte (Might-as-Right). O impeachment inconstitucional e as constantes violações da nossa Carta Magna revelam isso de forma pungente. É claro que quem detém o poder econômico, político e militar tem uma significativa vantagem sobre nós. Mas nós temos as massas, a posição que representa os interesses da imensa maioria e a única arma que o proletariado possui na sua luta pela libertação, como diria Lenin, é a organização. Temos que organizar as massas, isso é uma obviedade; e para não desanimarmos é preciso relembrar que as massas organizadas e decididas são uma força a qual nenhuma lei resiste. É uma questão de tempo, portanto, que esse conjunto reacionário de legislação seja varrido da história, e seus legisladores exemplarmente punidos.

Limitadas conclusões

O afastamento de muitos militantes e a depuração das organizações populares já começou. Ao mesmo tempo, um grande número de pessoas também tende se aproximar da luta, em razão também da própria conjuntura. Para muitos que já dispenderam anos da sua vida dedicadas à causa revolucionária de fato pode parecer que estamos entrando numa lama irreversível e temos muitos colegas que abandonam a militância de uma hora para outra. Certamente, a afirmação de Einstein de que “Quando a mente se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”, isso significa que muitos dos lutadores que se afastam hoje das lutas podem voltar num futuro próximo. Não há fórmula pronta para resolver nossos dilemas atuais. Será necessário um longo período, com muitas críticas e auto-críticas para que isso seja resolvido, muitas contradições e conflitos. Novamente isso implica em invocar a paciência histórica.
A situação global afeta diretamente a nossa subjetividade. É preciso lembrar que toda subjetividade tem sua origem na objetividade[4]. Como lidamos com a negatividade cotidiana é um desafio não apenas pessoal, mas coletivo.  Em Um passo em frente, dois passos atrás, em 1904, Lenin cita Karl Kaustky compartilhando sua concepção da diferença entre a disciplina do proletariado e a disciplina dos intelectuais pequeno-burgueses dentro da luta política:

O proletariado não é nada enquanto permanecer um indivíduo isolado. Toda a sua força, todas as suas capacidades de progresso, todas as suas esperanças, as suas aspirações, tira –as da organização, da sua atuação sistemática em comum com os seus camaradas. Sente-se grande e forte quando faz parte de um grande forte organismo. Este organismo é tudo para ele, enquanto um indivíduo isolado, em comparação com ele, significa muito pouco. O proletário luta com a maior abnegação como uma parcela da massa anônima, sem pretender vantagens pessoais, glórias pessoais; ele sempre cumpre o seu dever em qualquer cargo onde seja colocado, submetendo-se voluntariamente à disciplina, que penetra todos os seus sentimentos, todo o seu pensamento. (KAUTSKY apud LENIN).

Qual a lição que tiramos dessa afirmação? Na luta revolucionária os problemas, a ansiedade, o sentimento de impotência, a frustração e o pânico engendrados por tempos tão difíceis só podem ser resolvidos decisivamente de forma coletiva. Nossas “aspirações e esperanças” só encontram solução pela “atuação sistemática com nossos camaradas”. É claro que isso depende de resolução pessoal, disposição e iniciativa para encontrar refúgio em projetos coletivos de transformação social. É complexo, pois as divergências aparecem em qualquer atividade humana, em especial uma tão delicada quanto esta. Qualquer um que não negue por princípio que a derrubada dessa ordem de coisas seja resultado de um grande trabalho coletivo, tendo de sacrificar em alguma medida sua subjetividade, deverá concordar com tal proposição. Mais: a subjetividade humana jamais se realizará com plena liberdade enquanto o todo da humanidade não estar plenamente emancipada. Aqueles que desejam evitar os ardores da luta e preservar a sua “saúde mental”, ou que não tenham interesse em se sacrificar para tal e apenas querem levar sua vida, também estes jamais serão plenamente livres. Por fim, como diria Brecht: “Não siga sem nós o caminho correto/Ele é sem nós/O mais errado.
Não se afaste de nós!”.

Por Giovanny Simon




[1]                     Em português significa “centelha”, foi o jornal político dos sociais-democratas da Rússia pré-revolucionária.
[2]                     Fonte: http://textosmarxistas.blogs.sapo.pt/17761.html
[3]                     Fonte: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/29-1.htm
[4] Conforme afirma Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos: “Um ser que não tenha sua natureza fora de si não é nenhum ser natural, não toma parte na essência da natureza. Um ser que não tenha nenhum objeto fora de si não é nenhum ser objetivo. Um ser que não tenha nenhum objeto fora de si não é nenhum ser objetivo. Um ser que não seja ele mesmo objeto para um terceiro ser não tem nenhum ser para seu objeto, isto é, não se comporta objetivamente, seu ser não é nenhum [ser] objetivo. Um ser que não é objetivo é um não-ser”.