UMA PÁ DE CAL NA COVA DA REPÚBLICA | Juventude Comunista Avançando

quarta-feira, 12 de julho de 2017

UMA PÁ DE CAL NA COVA DA REPÚBLICA

A condenação de Lula e a destruição da CLT

Já sabemos, pelo próprio ensinamento de Luiz Carlos Prestes, que a chamada “Nova República” já nasceu morta através da “transição lenta gradual e segura” da Ditadura Civil-Militar ao momento atual. Como se não bastassem seus limites, em 2016 exumaram seu cadáver e enforcaram-na novamente. Diante dos acontecimentos entre o dia de ontem e hoje podemos dizer que foi jogada mais uma pá de cal sobre a cova da república.
É muito provável que Sérgio Moro estivesse com a escandalosa condenação sem provas de Lula já redigida e guardada em sua gaveta, apenas esperando os desdobramentos da votação da Contrarreforma Trabalhista no Senado Federal. Não por acaso ela foi expedida e anunciada já no dia seguinte à vergonhosa votação no Senado que rasgou a CLT e os direitos conquistados há quase um século através das lutas trabalhistas e populares em nosso país. Moro, Temer, Aécio e todos os variados nomes ocultos associados ao capital internacional, que compõem esta Junta Golpista, estavam medindo forças para saber se era seguro mesmo atacar de vez a frágil resistência ao golpe que poderia ser o prestígio do ex-presidente Lula com o povo pobre do Brasil.
Precisamos entender como o movimento que ascendeu tão rapidamente, surpreendendo, com um amplo e enérgico espírito combativo nos dias 08 e 15 de março e na Greve Geral do dia 28 de abril, sofreu uma queda repentina em poucos meses. Temos que recuperar alguns fatos através de uma sequência lógica de acontecimentos:
  1.       A substituição de uma nova Greve Geral (mais longa, ampla e intensa), depois da vitoriosa mobilização de 28 de abril, pelo chamado Ocupa Brasília através de caravana já foi um balde de água fria no movimento ascendente da Greve Geral. Mas mesmo assim o movimento foi ousado e enfrentou a repressão policial, obrigando o Governo Temer a pedir arrego para as Forças Armadas;
  2.    A delação da JBS e a virada brusca, depois do dia 24 de maio com o Ocupa Brasília, trouxeram à tona com muita força a podridão do Governo Temer, criando as bases midiáticas para a substituição da centralidade da luta contra o golpe e contra os ataques do capital pela chamada “Diretas Já!”, amplamente aderida pela esquerda. Consideramos que a adesão acrítica e irresponsável à pauta das “Diretas já” em detrimento da luta contra as reformas trabalhista e previdenciárias, um grave erro, tudo que a Rede Globo deseja: rejuvenescer o golpe e desmobilizar o movimento em ascensão;
  3.       As centrais sindicais pelegas, tal qual a Força Sindical, pressionadas pelo governo Temer começam um movimento de traição do movimento (o que já deveria ser esperado) e tratam de negociar diretamente por emendas possíveis nas contrarreformas. Isso tudo às vésperas da já tardiamente anunciada Greve Geral do dia 30 de junho;
  4.       A CUT e CTB, as duas centrais mais alinhadas ao campo petista também se colocaram em grande vacilação diante da traição das centrais governistas, arrefecendo a mobilização e inclusive substituindo a palavra de ordem da “Greve Geral” por “Junho de Lutas”;
  5.       O enfraquecimento da Greve Geral do dia 30, propositalmente articulado, foi o sinal verde para que os golpistas dessem continuidade ao seu plano de destruição do patrimônio nacional, dos direitos trabalhistas e, finalmente, a restrição das liberdades democráticas através da inauguração de um novo paradigma jurídico-político.

Já foi comprovado por vários analistas jurídicos que Sérgio Moro, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal atuam com métodos semelhantes às inquisições política implementadas pelo regime nazista do 3° Reich: são culpados todos os inimigos do Führer, mesmo SEM PROVAS, apenas por convicção. O precedente aberto com a indecente condenação sem provas do ex-presidente Lula é um dos atos mais prejudiciais de todo o desdobramento do golpe desde a realização de um processo de impeachment à uma presidenta eleita e inocente dos crimes que fora acusada.
Não nos parece necessário reforçar que defender Lula contra essa condenação SEM PROVAS, não significa necessariamente coadunar com seu projeto político, suas concepções ou qualquer uma de suas medidas. Só os oportunistas de má-fé verão nessa nota política uma defesa da figura de Lula ou da tradição política do petismo, às quais sempre fomos parte da oposição. Defender Lula contra tais descalabros jurídicos significa defender as liberdades democráticas em tempos de regressões históricas sem precedentes.
Tais regressões só ocorreram pela extraordinária VACILAÇÃO do próprio movimento de massas. Esse foi o elemento chave de definição de como avançar a política do golpe no Brasil: a nossa (de todo o movimento sindical e popular e de esquerda) incapacidade de avançarmos na defesa intransigente de nossos direitos e de nosso país. É claro que “nós” é uma abstração, porque todos nós somos inegavelmente diversos, e alguns de nós traíram ou vacilaram diante do avanço inimigo. Mas cabe agora que o nosso entendimento sobre “nós e nossas tarefas” seja avaliado e reconfigurado. É preciso depurar os traidores sem cairmos no sectarismo doentio de responsabilizar outros pelas nossos próprios limites.
Diante do obscuridade que se desenha em nossas vidas e diante de nossos olhos, os revolucionários e lutadores do Brasil devem se lembrar que na luta de classes, na implacável luta entre capital e trabalho nenhuma lei é irrevogável, nenhuma cláusula é pétrea, nenhuma condenação é definitiva, nenhum ícone é imaculado, nenhum juiz é soberano. O povo brasileiro tem demonstrado continuamente que sua vontade de lutar está nas alturas, mas é necessário um porto seguro, uma referência, quem organize e incite às massas ao combate. Na história, a toupeira da revolução pode emergir em qualquer lugar e a qualquer momento. Reorganizar, avaliar e refletir são necessárias para que possamos sair do acuamento e partir para a mais forte ofensiva de forma a neutralizar quaisquer danos irreparáveis causados por este golpe. Porque afinal, nenhum grilhão é inabalável.


Brasil, 12 de julho de 2017.